sábado, 20 de setembro de 2014

"O Mundo de Antes - nobreza e liberdades feudais"




"Junger é um bom juiz da liberdade. Os "últimos troncos" da nobreza alemã, redutos do espírito de liberdade, tinham resistido a tudo até 1914 - e mais que resistido. Eram eles que davam o mote. Acontecia o mesmo por toda a Europa.

Muito antes daquilo a que chamamos Idade Média, a nobreza teve por função mandar, combater e proteger. A cavalaria homérica fizera-o no seu tempo, os patrícios romanos também, assim como os homens livres da Germânia descrita por Tácito ou os nobres Gauleses que César combateu. A nobreza não se confunde com os privilégios de uma classe decadente, que se tinham tornado insuportáveis na França de 1789. Só em parte dependente da hereditariedade, assenta também no mérito e este tem de ser confirmado em cada geração. A nobreza ganha-se e perde-se. Vive da ideia de que o dever e a honra têm mais peso do que a felicidade individual. Enquanto persiste na sua essência, a baixeza nunca será para ela uma tentação mas um sofrimento. A sua vocação não é ocupar o topo da sociedade mas sim o do Estado. O que a distingue é ser seleccionada e formada para comandar. Governa, julga e conduz ao combate. As suas terras de eleição são as liberdades feudais e as monarquias aristocráticas ou constitucionais. Estiola ou desaparece sempre que se estabelece um poder despótico, que é o centralismo estatal.

Desorientados pelas imagens da nossa época, é-nos difícil recordar que, na história europeia, o que é excepcional é o poder anónimo e abstracto do Estado burocratizado, instalado a partir do século XVII, e não o poder pessoal da nobreza no seio da "res publica". No longo prazo, a nobreza demonstrou notáveis faculdades de adaptação e de longevidade. Na Europa, antes da Primeira Guerra Mundial, todas as grandes potências, com excepção da França, eram ainda monarquias apoiadas em nobrezas vigorosas e "modernas". Isto só acabou entre 1917-18, com a destruição dos três grandes impérios europeus. 
(...)

A morte da nobreza foi no entanto lenta e, sem dúvida, não absoluta, tanto é verdade que renascem sem fim e de forma inesperada certos traços que a caracterizam. O nosso mundo político e cultural continua a ter para com ela uma dívida da maior importância. A ela se deve a noção de liberdade aplicada aos indivíduos e às comunidades. Ainda antes dos tempos carolíngios, nobre era o homem verdadeiramente livre, portador de uma arma, apto, assim, a defender os seus direitos e os dos seus. A nobreza inglesa fê-lo no princípio do século XII, impondo a Magna Carta. Cerca de meio milénio antes, em 843, em Coulains, a nobreza do reino franco ocidental tinha feito reconhecer os seus direitos por Carlos, "o Calvo". (...) Essa mesma nobreza determinou as fronteiras do que serão a França e a Alemanha medievais (...).

Ao contrário das nobrezas do antigo Império germânico, da Prússia, da Hungria, de Inglaterra, de Espanha, e de outros reinos Europeus, a do reino da França deixou-se estrangular, após um fulgurante passado. Nobreza domesticada, aqui, nobrezas vigorosas ali. Esta dupla evolução gerou dois mundos diferentes: o planeta morto do Estado à francesa e o universo ainda vivo, apesar de todas as catástrofes históricas, do mundo britânico ao dos países da Europa Central.

A luta vitoriosa da monarquia centralizadora contra a "feudalidade", isto é, contra o vigor feudal, é celebrada unanimemente em França. O resultado é de facto impressionante. Em fins do século XVIII a Revolução triunfou aqui [França], enquanto fracassava em toda a parte, graças à presença de uma nobreza que se mantivera viva."

Dominique Venner, "O Século de 1914 - Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX", editora civilização, 2009.

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