segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Comemorar o genocídio



Todos os anos a 14 de Julho os Franceses comemoram o dia da "Revolução", aquela que inspirou as modernas formas de controlo das massas, adoptadas pelas congéneres revoluções russa, chinesa, vietnamita, cubana, além das "experiências" revolucionárias conhecidas nos vários países africanos do pós-colonialismo, terrenos fértil à propagação do ódio e dos recalcamentos antigos, prestes a fervilhar num caldeirão explosivo, condenando a história e reescrevendo o passado ao bel-prazer da "moda" marxista, das leituras de Mao, ou de Marx, formas radicais e destrutivas já anunciadas pela "mãe" de todas as monstruosidades, a Revolução Francesa. Robespierre ou Marat anteciparam os massacres que Lenine, Estaline, Mao, Pol-Pot ou Fidel Castro perpetraram no século XX. Copiado onde provesse efeito, nos assaltos às ordens religiosas, no caso típico português, na ideia de criar um "homem novo" já analisado por Rousseau e que as esquerdas tanto estimam, a Revolução Francesa tornou-se um "ícone" para intelectuais vanguardistas e ingénuos úteis às maquinações totalitárias.  

Alguns momentos deste processo revolucionário, recheado das mais vis práticas políticas, dos mais insolentes ataques à ordem e ao Direito, e dos mais sádicos propósitos, continuam a suscitar polémica e, pela barbaridade dos actos, preferem ser esquecidos à luz dos regimes modernos demo-liberais, incapazes de se reconciliarem com o seu passado sanguinário. O período conhecido como "O Terror" é a marca da Revolução Francesa - e é epíteto mais que conveniente às revoluções propagadas ao longo da modernidade. A 4 de Setembro de 1792, dá-se massacre nas prisões de Paris pelos sans-culottes. Durante os dias 2 e 3 de Setembro de 1792, uma multidão armada com barras de ferro, lanças e porretes cerca as prisões de Paris. Entre as vítimas encontrava-se a princesa de Lamballe, barbaramente assassinada por se recusar a tecer falsos testemunhos contra os reis de França. Entre Setembro de 1793 e Julho de 1794, 16,594 pessoas foram mortas na guilhotina (só em Paris morreram 2,639) e mais de 25, 000 pessoas foram mortas em várias regiões da França. Na revolta camponesa contra a revolução, na Vendeia, contabilizam-se mais de 240,000 mortos, entre 1793 e 1796 (perdas imensas numa desastrosa guerra civil), além dos milhares de mortos contabilizados na guerra da Chouannerie. A liberdade, igualdade e fraternidade acabavam de chegar, num banho de sangue.

Porém, o fenómeno comemorativo da Revolução Francesa não deixa de ser curioso. Afinal, essas comemorações mais não são do que tipicidades deste nosso velho continente, capaz de chorar a morte de um ente, ou chorar individualmente uma tragédia, mas, paradoxalmente, capaz de celebrar a morte de milhões, o que recorda a cínica e lapidar frase de Estaline, quando observava que "uma morte é uma perda mas um milhão de mortes é estatística" ou, diríamos nós, motivo de marchas militares e foguetes. Uma mesma acepção se retira das celebrações da Primeira Guerra Mundial, misto de festejo maldito, lembrando o fim da nossa civilização sem que alguém extraia uma ideia sequer, como se a história dramática do nosso mundo fosse um episódio "hollywoodesco", para aplaudir entusiasta, e mesmo perguntar se foi porventura possível ou real e se se não trata antes da imaginação do artista (ou antes, "imaginação" do historiador). 

O nosso mundo é uma ficção para adolescentes sentirem a leveza do século democrático. Ou para os políticos, desprovidos de apoio popular, e cujo poder que, mesmo assente na vontade da maioria, não exprime verdadeiramente os desejos e ambições do "povo" (digo: dos eleitores e da massa crítica dos cidadãos), procurarem assim um motivo de legitimidade, na abstracção das ideias, ou nas comemorações grandiloquentes entre cavalarias, espadas e foguetes, no sentido de "higienizar" as catástrofes, conferindo uma áurea "humanista" à tragédia, e recriando a história (no fundo, uma fábula), na ambição de conquistar uma legitimidade que, aos olhos dos governos fracos e instáveis da Europa, parece cada vez mais periclitante. Já em Portugal, quando não andam os "tristes" da maçonaria a gritar vivas à república, preferimos reconfortar-nos a contar os cravos nas baionetas e a inventar histórias de uma história cada vez mais ficcionada. 





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