quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O que resta da nossa civilização?




A história do nosso continente decorre como num sonho, uma fragrância impossível de conter no espírito mais idealista. Da história do nosso continente podemos extrair os ensinamentos e inspirações constitutivas do nosso corpo civilizacional. Porém, essas certezas há muito deixaram de brilhar. Face às grandes transformações vividas no passado século constata-se no fulgir de novas idealizações que iluminam o mundo moderno.

Dessa experiência em concreto, da historia do ocidente dos últimos duzentos anos, nasceram as técnicas e ciências destinadas a revolucionar a nossa maneira de pensar e de sentir. Valores que se tinham como perenes desapareceram e, no espaço de cem anos, continuaram, e continuarão, a  ser contestados (ainda vamos ter saudades dos velhos dogmas, mas será tarde demais). Hoje fala-se com toda a liberdade de divórcio, casamento entre pessoas do mesmos sexo, adopção ou co-adopção por casais homoparentais, barrigas de aluguer, eutanásia (enfim, uma constante provocatória ao espírito sensível à tradição). Mas estas são as grandes cisões do século. De 1914 a 1991 o mundo sofreu abalos sísmicos, como na colisão de placas tectónicas em cujas zonas de fronteiras são gerados terramotos e erupções vulcânicas numa convergência destrutiva e aniquiladora. Na conflituosidade dos impérios e na derrocada das civilizações esse estremecer é abrupto e os sobreviventes apenas podem responder com o horror de assistir à catástrofe sem nada poder fazer.

No fim das civilizações o homem tenta ponderar os erros do passado, chorando pela perda ou regozijando pela nova alvorada. Caminhamos sempre rumo ao desconhecido e a historia surpreende-nos constantemente com novos dados, novos acontecimentos, novas catástrofes e novas conquistas. Julgamos caminhar para o melhor dos mundos, como na caricatura de um “Cândido” a la Voltaire. “É sempre para o melhor dos mundo possíveis”, a perfeita sedução pelo progresso nem sempre agoirando boa-nova, um progresso férreo e desmesurado que não quer escutar as vozes da razão. E o progresso sem razão, sem ser prudente, sem avaliar as circunstâncias à luz da tradição e da historia, acaba por descambar. O espírito contemporâneo não contém em si a prudência dos antigos, o que torna o nosso corpo cultural fraco e as nossas ideias vagas. Spengler chamava à nossa civilização a "civilização fáustica", identificando "a fase terminal de uma cultura em decomposição". Ao indivíduo ofereceu-se a fórmula para se afirmar, ao mesmo tempo que apagava a sua identidade. A democratização lançada enquanto estandarte da nova era iluminada pela razão criou as suas contradições e insofismáveis erros. A imposição da cultura de massas, o declínio cultural ao procurar vender o barato, o vazio, faz justiça às análises de Le Bon que já reflectia sobre a irracionalidade das multidões. Se o mundo deu um grande salto em frente, a verdade é que por debaixo, obscurecidas, ficaram muitas certezas.



Um outro mundo  - antes de 1914

Dominique Venner, na sua obra magistral, “O Século de 1914”, traça esse mundo que existiu anterior ao "suicídio colectivo" do nosso continente. As hierarquias equilibravam-se, a nobreza dos impérios de Berlim e Viena-Budapeste, contra-baloiçavam os valores antigos com a abertura à modernidade. Certamente o mundo não era o mais idílico, mas era o mais equilibrado possível entre a tradição e a modernidade, tal constatação é perceptível nas memórias de Marion Donhoff, in "Une enfance en Prusse-Orientale", ou nos relatos transmitidos pelo príncipe Otto von Habsburg, reunidas no livro "Mémoires d'Europe, Entretiens avec Jean-Paul Picaper". Uma sociedade e um mundo imortalizadas no grande romance de Proust, “À la recherche du temps perdu”. Ou mesmo a visão de portugueses como Eça de Queiroz, nas sua absorvente descrição da política Europeia, em “Cartas de Paris”, ou a elegância da prosa de um Ramalho Ortigão, com as suas crónicas de viagens e a percepção da política em “Últimas Farpas”.

Sem querer entrar em comparações saudosistas e tendentes ao ridículo é minha intenção apresentar algumas notas. Nestes cem anos que passam da Grande Guerra impõe-se uma reflexão.

O que era o mundo antes de 1914? Os historiadores já o reconstituíram numa miríade de livros e documentos sempre reveladores de um tempo para nós tão peculiar. Fascinam as modas, os prazeres, os vícios. Entre caprichos de burgueses arrogantes e aristocratas vaidosos, um estilo de vida tão elegantemente observado por Thomas Mann em “Buddenbrooks - Verfall einer Familie”, ou as grandes questões sociais desenvolvidas pela pena de um Dickens ou de um Dostoievski, espíritos inquietos e de temperamentos antagónicos, as questões do espírito e as questões sociais, as preocupações mundanas e as problematizações civilizacionais, elementos tão bem expiado pelos intelectuais desde os românticos, com Victor Hugo, ou Alexandre Dumas, ou já próximo ao realismo, Balzac (o mais reaccionário de todos eles, um monárquico convicto e um crítico à sociedade burguesa da Paris de oitocentos), aos naturalista, com Zola, tão criticamente combatido por Bourget. Este último, cultivador de uma fineza linguística e de um pensamento demolidor, encontrará na Action Française uma boa recepção. Intelectualmente, legítimo herdeiro de de Maistre, Bourget será crítico avassalador da sociedade liberal, mais tarde, influenciado por Taine, aperfeiçoará o traço literário com as teorias sociológicas, e, tal como Balzac, será cronista crítico daquela sociedade burguesa de oitocentos.

O mundo anterior a 1914, esse "grande século XIX" parece-nos uma paisagem exótica e fascinante, temerosa e funesta, da grandeza Europeia à sua iminente decadência. Os artistas, escritores, poetas, procuraram as suas luzes e as suas sombras, desses contrastes resta-nos a fugidia visão doutra dimensão, subterfúgio de delírios e nostalgías, de inspiração e de excitamento, mas entender esse espaço é compreendermos também a razão de ser do nosso mundo hoje, tal-qualmente edificado no escopo do homem novo nascido das grandes guerras e das experiências revolucionárias.


O "antigo regime desenvolvido e corrigido"

A "antiga ordem", ou aquilo que se chamou um "antigo regime desenvolvido e corrigido", a expressão é de Renan, era exactamente o oposto daquele mundo que décadas mais tarde seria erigido dos escombros das duas grandes guerras.

O exemplo de Renan incide sobre a Prússia, explica: Aqui o indivíduo é empregado, educado, trabalhado, ensinado, disciplinado, requerido constantemente por uma sociedade derivada do passado, moldada em velhas instituições, arrogando-se o domínio da moralidade e da razão. (...) Estas sociedades são especialmente nobres; criam a ciência; orientam o espírito humano; fazem história." Para Renan, um sistema como este, uma vez destruído, não poderia mais ser reconstituído. Numa visão profética acrescentava, advertindo relativamente à destruição deste sistema (que se veio a verificar logo em 1918): "uma série de ditaduras instáveis, um cesarismo de baixa extracção, eis tudo o que se vislumbra como hipótese de futuro".

Na Alemanha preservava-se uma antiga aristocracia prussiana, ainda de costumes militares e, contudo, no século da unificação por Bismarck, constituindo uma elite das mais invejáveis, mantinha viva a ordem antiga. A "velha ordem" ainda não tinha sido destituída da sua verdadeira importância, tão-só, a aristocrata ainda era tida como um exemplo da “moral” e do “dever”. Hoje irrita-nos ambas as palavras, como tantas outras: "ordem", "autoridade", "hierarquia" e, até mesmo, "espírito de sacrifício". Mas no mundo de 1800 e inícios de 1900 os nossos antepassados compreendiam-nas bem, nesse sentido eram superiores a nós. Ademais, uma certa historiografia marxista tem alimentado demasiados mitos. Ou mesmo procurando fazer uma leitura da história pelo lado dos vencedores. O maior erro que podemos incorrer é procurar traduzir a história numa constante marcha onde no fim triunfa iluminado o demo-liberalismo desde Wilson a Obama. Outro erro é procurar ler os acontecimentos do passado à luz da nossa própria era e do nosso próprio conhecer dos factos, condenado uns, vangloriando outros, e, quando muito, ajuizar moralmente numa reprovação ética completamente descontextualizada dos acontecimentos e da sua época histórica. Não há nada mais frustrante do que um historiador ideológico que pretende ilustrar a longa marcha dos povo num eterno esforço de combate entre os senhores e os servos, para tal efeito procurando resquícios e pequenas notas, desde Spartacus (a luta dos escravos contra os seus amos) ao feudalismo, da Idade Médida à afirmação do Terceiro Estado na França Revolucionária de 1789. Tão elementar na leitura de Hegel que referia o “fim da história”, por ver as revoluções liberais como um ponto de não retorno. E a mesma acepção preservou Fukuyama ao analisar o fim do bloco Soviético como “o fim da história”, por acreditar que o demo-liberalismo é o grande vencedor da secular guerra europeia, dos impérios aos estados totalitários  e, nesta última fase, o declínio do euromundo.




O Euromundo 

Os impérios euromundistas foram uma realidade histórica, não há que ter vergonha - hoje falar nos impérios coloniais quase que cria escárnio. Temos de recordar este nosso passado e perceber as origens da sua decadência.

Entre 1880 e 1918 é perceptível o arranque das civilizações europeias na industrialização e o progredir das grandes potências, desde a unificação de impérios na sua continuidade continental ate à formação de impérios extracontinentais, que se prolongavam por continentes e territórios longínquos, onde “o sol nunca se punha”. Tais constatações levavam Dismaeli a referir-se ao progresso do ocidente como aquilo que separava o nosso continente, do que se chamava então “o resto do mundo”.  Ou ainda a declarar quer "o mundo é Paris e Londres e o resto é paisagem".

A grande civilização cresce através do fumo espesso das chaminés das grandes fábricas, das locomotivas e estradas, da expansão urbana e a frutificação da grande massa proletária,obrigada muitas vezes a viver em guetos e subúrbios em condições desumanas. Ao mesmo tempo, a percepção das questões sociais e as exigências que o Direito vai procurar para as resolver. Começa-se então a pensar no Direito do Trabalho (uma novidade dentro do milenar Direito Civil), também salientado pelo crescimento dos movimentos sindicais e, paralelamente, forjam-se as bases do Estado Providência (cujos primeiros traços são rasgados pelo prussiano Bismarck décadas antes da republicana e revolucionária França).

Os católicos não são indiferentes à questão, a encíclica Rerum Novarum incidirá numa demolidora critica ao capitalismo que amordaçava os trabalhadores e na desconfiança que mantinha relativamente ao socialismo, advertindo para o perigo das utopias que depois se veio a verificar verdadeiro: Por tudo o que Nós acabamos de dizer, se compreende que a teoria socialista da propriedade colectiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles membros a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranquilidade pública. (Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum) 


As críticas à modernização descontrolada e à proliferação da miséria, perceptível nas grandes urbes da Europa, levantará movimentos de reacção quer à esquerda quer à direita.

Esta dicotomia política hoje tão apreciada, ainda que cada vez com menos sentido, representa a linha divisória entre os que se sentavam ao “lado direito do rei” e os que se “sentavam à sua esquerda”, no período de derradeira crise de consciências que foi 1789. Na Inglaterra eram Wing e Tories, respectivamente a esquerda e a direita (usando a nossa dicotomia continental e depois exportada para o "restante mundo").

A palavra liberal surge aquando da constituição de Cádis, em 1812, adaptada depois pelos Wing, do Reino Unido, que se denominavam "Wing Liberale". Liberais e Tradicionalistas são duas linhas conflituantes e antagónicas, estes últimos representando a contra-revolução, pela pena de Joseph de Maistre, mais tarde continuada por Maurras, a questão do regime será sempre recolocada: monarquia orgânica, tradicional, anti-parlamentar, descentralizada; ou a monarquia constitucional e liberal, onde "o rei reina, mas não governa"; ou a república, como os Estados da América do Norte então deram a conhecer? Outros preferirão a abolição de toda a ordem, a construção de um "homem novo", procurando intrínseco e obscuro esse "bom selvagem" de que falava Rousseau, paladino das esquerdas e dos inocentes que acreditam nessa "bondade humana" (porque o homem é bom por natureza mas a sociedade é que o corrompe - assim apregoam aos quatro ventos).

 Quanto aos liberais franceses, estes constituíam o Terceiro Estado, tão heterogénio entre si, mas no qual sobressai a burguesia (entre proprietários, comerciantes ou académicos) e que, triunfando sobre milhões de assassinados, vai simplesmente mover as fronteiras sociais para ocupar então um espaço antes reservado à aristocracia e ao clero. A restante base permanecerá igual ao que fora.

Liberais também os seguidores do laissez-fairre laissez-passer, críticos do mercantilismo e do proteccionismo estatal, antagónicos a Colbert e que terão primeiro em Quesnay e depois no escocês Adam Smith a sua inspiração. O liberalismo político que convenceu as consciências da sua superioridade, quando pode até ser mais destrutivo do que qualquer outra ideologia, que moldou os Estados-Direito modernos, com todo o seu individualismo e a lamechice do personalismo na sua vocação universalista, que foi iniciado na guilhotina e lançou a guerra civil, que promoveu a igualdade porém, na prática, constatou-se que "uns eram mais iguais do que outros" e promoveu a liberdade desde que controlada pelas oligarquias, que foi legalista nos primeiros tempos, positivista no áureo século XIX, e hoje um Estado de Direito de legalidade material, democrático e liberal, convencido da sua superioridade, e destituído de qualquer certeza por viver aparelhado à partidocracia, aos grupos de interesses, e sem outra forma para se legitimar que não sejam as estatísticas e os cálculos, reduzindo o homem a um gráfico. Que despreza a ideia de nação (coisa de fascista), ou tem medo de falar em "pátria" (velho arcaísmo), que tem horror à monarquia (forma que dizem "não democrática" até causa repulsa na burguesia arrogante e invejosa) e que vende as soberanias nacionais em nome da "aldeia global", que sente escárnio ao passado (mundo retrógrado e obscuro).

Sem ideia que lhe valha, o Estado de Direito que foi revolucionário e hoje vive agarrado a legislações avulsas internacionais, a leis Europeias que se sobrepõe às leis internas e põe em causa a soberania das nações, sem outro caminho senão sobreviver, ir sobrevivendo, resistir e procurar a sua legitimidade cada vez mais contestável.

Contudo, somos herdeiros da Revolução Francesa no sentido da estrutura e dinâmica do poder, na relação do homem com o Estado e a influência que o Estado tem nas nossas vidas, uma relação que começou na procura desse "homem novo" revolucionário - o cidadão de hoje, tão passivo e carente - e também na reacção ao mesmo Estado revolucionário, desprovido de consciência, e que se consolidou nos parlamentos e partidos políticos que hoje dominam as estruturas do poder. Hegel tinha razão, foi o “fim da história”, e 1991 salientou (duzentos anos passados sobre o escrito de Hegel) a verdade do filósofo.

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