terça-feira, 5 de agosto de 2014

Derrocada





Se o homem de há cem anos nos viesse visitar certamente preferiria morrer uma segunda vez, e parece esta afirmação condicente com a vivência do nosso mundo ao atestar nas profundas modificações sociais, na mutabilidade dos costumes, na dinâmica do pensamento. Um mesmo homem de há cem anos podia regozijar no seu espírito progressistas e depressa desiludir-se, como nos ensina o Eclesiastes "nada de novo debaixo do sol".

Desde há cem anos o mundo europeu ceifou a própria cabeça e deixou para trás um corpo moribundo. Sobre a nossa civilização caiu o dilúvio e nós, a posteridade dos que ontem lutaram para manter o antigo e aqueles que lutaram para o destruir, somos o resultado, o mais exemplar produto, dessa condição demasiadamente monstruosa que foi o século XX.

Há cem anos o nosso continente atravessava porventura a mais terrível das guerras. A Europa caminhava, ainda sem o saber, para o seu suicídio colectivo. O fim do mundo velho, o que restava do Congresso de Viena (de 1814-15) e anteriormente, a paz de Vestefália (os princípios da soberania dos Estados e do Estado Nação) e aquela ordem que resistiu aos furiosos ventos da história, com a mais totalitária das revoluções pronúncio da monstruosidade que se libertaria no século XX, a revolução de 1789 (na França), também esse corpo foi destruído e não houve cinza que almejasse ressuscitar a Fénix.

Depois de 1918 tudo decorreu como numa grande bebedeira festiva, pelo cansaço da guerra, que depressa despertou na ressaca totalitária dos anos 30 e 40. Podíamos julgar a historia do nosso continente como um sonho, tudo decorrendo como numa paisagem exótica e demasiadamente distante para que nos possamos preocupar com ela. A verdade é que foi a destruição desse mundo que criou a nossa nova identidade, somos filhos e herdeiros do século XX, mas essa é apenas a “chave para o destino do continente europeu”, nas oportunas palavras do historiador francês Dominique Venner.

O demo-liberalismo venceu a grande guerra do século XX, esse “século” que poderíamos forçosamente consubstanciar entre os anos de 1914 a 1991, este é o facto constatado e que merece ser analisado.

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