domingo, 24 de agosto de 2014

A Portugueza: marcha patriótica, 1890






A Portugueza: marcha, 189-] - Biblioteca Nacional Digital
KEIL, Alfredo, 1850-1907
Versão original de "A Portugueza" : marcha / poesia de A. Lopes de Mendonça, musica de A. Keil.



Na Biblioteca Nacional Digital é possível ter acesso à versão original de "A Portugueza" (1890), não deixa de fascinar ao admirar a capa da partitura onde sobressaem as cores nacionais azul e branca. Em torno da canção, depois hino nacional, prevalecem algumas dúvidas e certos mitos. 
Por exemplo, consta-se que tenha sido dedicada a D.Miguel II, então exilado na Áustria, embora não haja qualquer edição de "A Portugueza" que o comprove, seria interessante se se revelasse a veracidade dessa afirmação. 
Outro mito que corre de boca em boca relaciona-se com uma suposta alteração da letra da canção, onde se lê "contra os canhões marchar, marchar", na letra primitiva seria: "contra os bretões marchar marchar" (o mesmo pode ser lido na Wikipédia), todavia, em nenhuma das edições anteriores a 1910 surge tal referência, nem mesmo nos jornais da época (pelo menos é o que dizem aqueles que têm investigado o assunto). 
A edição disponibilizada pela BND é das mais antigas (creio que será mesmo a primeira) e na letra lê-se: "contra os canhões"... 
Talvez a ideia da canção apelando à guerra com a Inglaterra tenha vingado no contexto conhecido em que "A Portugueza" foi composta, não será despiciente indagar que o próprio povo, cantando a marcha patriótica nas ruas, substituísse a palavra "canhões" por "bretões", afinal, este foi um período de exaltações políticas, imediatamente atiçadas pelo ultimato britânico, seguido do 31 de Janeiro (a primeira tentativa para proclamar a república), a época em que Guerra Junqueiro escreve "Finis Patriae", carregado de simbologias antevendo o fim da pátria, também a época em que é criada a efémera "Liga Patriótica do Norte". 
Não sei se alguém possuirá uma edição do hino onde conste o verso "contra os bretões marchar, marchar!", se tal existir seria interessante partilhar para benefício das dúvidas. 
O hino patriótico rapidamente ficou conhecido, mesmo o rei D.Carlos chegou a ouvi-la, salvo erro na Praça do Campo Pequeno, e conta-se também que a rainha Dona Amélia terá ensinado a canção aos príncipes D. Manuel e D. Luís Filipe. 
Também há dúvidas quanto às influências de Keil nas composição do hino, se foi influenciado pelo fado, pela Marselhesa e pelo hino da Maria da Fonte. Talvez exista um paralelismo entre os versos “pela pátria lutar” e “contra os canhões” com o “aux armes citoyens” do hino francês.
O certo é que, à época (ainda em 1890) foram impressos e distribuídos em Lisboa e na província vários milhares de exemplares da partitura, permitindo a sua grande difusão. A música tornou-se conhecida desde as agremiações populares, aos teatros, incluindo o S. Carlos, até aos salões das elites, às camadas estudantis e intelectuais republicanas. 
Mais tarde os republicanos apropriaram-se da música, como é sabido, e em 1911 é escolhida para hino nacional, sem que o autor da melodia, Alfredo Keil, tivesse feito alguma coisa por isso. Não há nenhum indicio de republicanismo em Keil, e muito menos em Henrique Lopes de Mendonça, o autor da letra. Homem de grande sensibilidade, Keil foi também um exímio pintor, aliás, um dos seus principais compradores era o rei D. Luís (mantinha uma relação próxima à casa de Bragança).
A composição da marcha patriótica derivou de um impulso, de um sentimento explosivo provocado pelo ultimato britânico, tudo o mais foram as circunstâncias que o ditaram, algo que nem o próprio autor da melodia podia adivinhar ou programar. O sentimento patriótico de Keil e Mendonça virou republicano? Seria redutor dizê-lo. Antes criaram um hino para que esta nação antiga não se esqueça do seu passado valoroso, de grandeza e coragem, e que tenha forças para prosseguir no futuro.

Algumas notas:

1) O historiador Rui Ramos nega terminantemente que os versos "contra os bretões marchar, marchar" estivesse na edição original e apenas admite que, talvez, possa ter acontecido em alguma sessão privada e esporádica da qual ele não tem noticia alguma.

2) A suposta dedicatória a D.Miguel II pode ter uma explicação (até prova em contrário):  D. Miguel  II veio a Portugal incógnito, afrontando a lei da proscrição e embora a viagem fosse conhecida das autoridades e do próprio rei D. Carlos ninguém o incomodou. Ter-se-á encontrado com Alfredo Keil que por essa altura terá composto um outro hino dedicado (?) e com quem terá mantido correspondência posteriormente.
 É curiosa esta ideia, que suscita tantas dúvidas, porque, de facto, Keil foi amigo do príncipe exilado, mas nunca ninguém encontrou provas de tal dedicatória. O que se supõe é que Keil tenha enviado a D. Miguel II um exemplar da “Marcha” com dedicatória, mas isto não quer dizer, no entanto, que a obra lhe fosse dedicada. Leia-se o livro de Maria Emilia Vasconcelos - em Cad. Vianenses, Viana do Castelo, 12, 1982 p 269-293 e13, 1989, p.113-137 (vide, imagem abaixo), intitulado “Miguelismo no Alto-Minho", a imagem que partilho é desse livro. Conta-se que, a certa altura, D. Miguel II veio a Portugal, incógnito, afrontando a lei da proscrição, e embora a viagem fosse conhecida das autoridades e do próprio rei D. Carlos ninguém o incomodou. D. Miguel II ter-se-á encontrado com Alfredo Keil que por essa altura terá composto um outro hino. Sabe-se também que o príncipe terá mantido correspondência com Keil.



sábado, 23 de agosto de 2014

História da nossa decadência




Novamente, ao vasculhar as estantes, deparei-me com a "História da Europa" de João Ameal, jurista e historiador, monárquico tradicionalista , deputado da Assembleia Nacional, entre 1942 e 1957, procurador da Câmara Corporativa, membro da Junta Central da Legião Portuguesa, todavia, desiludido, veio a afastar-se progressivamente do regime. João Ameal pertenceu ao directório da Acção Realista, à Academia Portuguesa de História, ao Instituto de Coimbra e à Associação dos Escritores Católicos Portugueses e foi colaborador da RTP. A sua "História da Europa" é uma obra de fôlego, de erudição, de persistência e de trabalho constante na investigação, um nome que merece ser recordado e uma obra que deve ser estudada.





Uma nota que não deixa de ser curiosa e que demonstra muito da personalidade do Autor. O editor chama a atenção para o facto de a obra terminar na Primeira Guerra Mundial, e não é por acaso: "É que, no pensamento do Autor, com essa guerra entraram em crise os valores da Europa de que ele narra, ao longo desta obra, a milenária história." Neste ano em que se comemora o centenário do suicídio colectivo do nosso continente, em que a Europa se confronta com a sua iminente decadência, fica uma leitura de estudo e reflexão.



domingo, 17 de agosto de 2014

Quando a monarquia é símbolo de união e continuidade



Zadok the Priest, and Nathan the Prophet anointed Solomon King.
And all the people rejoic'd, and said:
God save the King! Long live the King!
May the King live for ever,Amen, Allelujah.

Na continuidade monárquica é impossível dissociar o passado da tradição, enquanto delimitadores de uma identidade e de um corpo cultural que nenhuma república consegue igualar. O passado também merece ser futuro, preservando o que deve-ser preservado, não temendo a mudança sempre que a história vem urgindo novos desígnios, ensinando o sentido da nossa existência enquanto povo e enquanto comunidade. Há uma herança que deve ser guardada- ela é o corpo dos nossos antepassados e é nosso sangue também.

Hoje prega-se muito a "democracia", entre números e estatísticas, eleições e retóricas várias, muito republicanamente apelando às massas, quando a única democracia que aqui interessa é aquela de que falava Chesterton, a "democracia dos mortos", ineliminavelmente a própria tradição. Não se trata do efémero, nem do instantâneo, mas de algo maior, de mais profundo, de natureza mais consistente, continuadamente ameaçada e, contra a loucura dos homens modernos, sempre renascendo das cinzas. A monarquia deve compreender esse sentido (ainda que muitas vezes dele se esqueça), ela é o garante da tradição, a verdadeira forma de liberdade do povo.

Polémicas à parte (entre as divergências monárquicas e republicanas), alguma coisa a monarquia consegue preservar no espírito do povo, ainda que hoje em dia, depois de tanta revolução à mistura de laias partidárias, talvez  já não seja a monarquia almejada pelo tradicionalismo monárquico, ou estando mesmo sujeita a críticas pela vulgata republicana (falo daqueles ressentidos que alimentam ódios à mistura de velhos recalcamentos), dos tecnocratas desta nossa partidocracia, dos "pulhíticos" ocos de ideias, sempre a contar os tostões dos orçamentos, em efémeras comparações de gastos e despesas entre Casas Reais e repúblicas (e desse ciclo não saem os mais insipientes, por falta de doutrina, de teoria, ou de filosofia que lhes valha alguma coisa), ignorando que algo de mais profundo existe, algo de mais simbólico, motivo de união, de orgulho e de respeito.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Rodrigo Emílio e Charles Maurras

"«Politique d`abord!», preconizava Maurras, «Poésie d`abord!», contraponho eu; «La France seule!», predicava, de lá, o Sumo-Sacerdote da «Action Française»; «Le Portugal-Empire encore et toujours, et l`Europe en plus!», sustenho eu..." - Rodrigo Emílio, "«LUGAR DE HONRA A CHARLES MAURRAS, NO PRONTUÁRIO GERAL DA DEPURAÇÃO. DA VALIDADE, ACTUALIDADE E VITALIDADE DO SEU PENSAMENTO.»



fonte: blog MANLIUS 

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Antero de Quental, "mestre da contra-revolução"





"Quando se cuidava que as doutrinas de Rousseau eram um dogma intangível, [143 – 144] Proudhon, arredando de si as sugestões do tempo, escrevia contra elas a mais mordaz e penetrante crítica que o século XIX produziu. É sob a invocação de Proudhon que, para estudar os problemas da economia moderna e da filosofia da história, se juntam hoje, em França, na mesma sala, os escritores monárquicos e os doutrinadores sindicalistas. Os seus métodos de exame e os seus argumentos variam segundo a origem intelectual dos que ali se reúnem, mas idêntico pensamento os prende a todos: a crítica e o combate à democracia [parlamentar].

Admiravelmente descreveu Proudhon a grosseira máquina democrática dizendo que ela era “un système politique, invente tout exprès pour le triomphe de la médiocrité parlière, du pédantisme intrigailleur, du journalisme subventionné, exploitant la réclame et le chantage; où les transactions de conscience, la vulgarité des ambitions, la pauvreté des idées, de même que le lieu commun oratoire et la faconde académique, sont des moyens assurés de succès; ou la contradiction et l’incon- [144 – 145] séquence, le manque de francise et d’audace, érigés en prudence et modération, sont perpétuellement à l’ordre du jour; un pareil système se refuse à la réfutation; il suffit de le peindre. L’analyser ce serait le grandir et quoi que fit le critique, en donner une fausse idée” (Contradictions politiques, pág. 222).

Como Proudhon, Antero de Quental é um mestre da contra-revolução sempre que se mostra liberto dos encantamentos de Michelet. Manter o seu nome na tabuleta dum centro republicano, é vergonhoso testemunho da mais rotunda e pedantesca ignorância.

Se querem, porém, conservar o título glorioso de Antero de Quental lá nessa “fumosa espelunca” do Porto, como ele chamava a semelhantes casas, não esqueçam então de escrever, à laia de divisa, no salão de festas, por cima da cadeira da presidência, aquelas palavras proféticas da sua carta: - “A nossa república é de garotos”.



Nota explicativa:
"A expressão "Antero mestre da Contra-Revolução" (...). Empregou-a literalmente o integralista Luís de Almeida Braga, quando em 1942, ano do centenário do seu nascimento, tomava uma posição crítica contra um grupo de republicanos do Porto, que apelidara então o seu recém-inaugurado centro de "Grupo republicano e recreativo Antero de Quental". O que pretendia provar é que Antero nunca fora republicano e, se defendera uma "revolução", tratava-se de uma "revolução moral". Como Proudhon ¾ o socialista francês que influenciara Antero de Quental, a quem o integralista chama também "contra-revolucionário" ¾ fora um "duro inimigo das ideias e dos sentimentos que deram alma e corpo à Revolução francesa". - "Antero e o "integralismo" Interpretação e ideologia, Luís Reis Torgal. 









quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Nas origens da grande guerra (uma breve nota)





Mapa de 1877, bem ilustrativo da crise europeia. O polvo gigante russo que procura com os seus tentáculos alargar o espaço dominante no leste europeu e no oriente, impedido quer pelo Império Otomano, quer pela barreira constituída pelos impérios centrais, enquanto a França prepara armas contra a a Alemanha (ou vice-versa), dois declarados inimigos com sede de vingança, desde a derrota francesa em 1870 e a unificação alemã em 1871. A Alemanha e a Itália, também unificada em 1870, no Risorgimento, são Estados cujas origens despontam em fenómenos de pangermanismo e de nacionalismo, respectivamente. A Áustria-Hungria, a monarquia dual, tenta ripostar ao grande tentáculo russo cobiçando os Balcãs, autêntico barril de pólvora cujo rastilho estava pronto para ser acendido. Quanto à Inglaterra, preocupada com os domínios além-mar, nem sequer olha o Continente (onde, aliás, só intervém quando tem interesses que lhe convem). O mapa é de 1877 e a geografia política parece já anunciar a catástrofe. Uma espécie de "guerra fria", um período que já os antigos imperadores da era clássica chamavam "paz armada", a necessidade de mostrar a força dos exércitos para alcançar a paz. No meio destes atritos, das confusões numa geopolítica tão delicada, percebe-se porque é que em 1914 a Europa entrou inevitavelmente em guerra.


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O que resta da nossa civilização?




A história do nosso continente decorre como num sonho, uma fragrância impossível de conter no espírito mais idealista. Da história do nosso continente podemos extrair os ensinamentos e inspirações constitutivas do nosso corpo civilizacional. Porém, essas certezas há muito deixaram de brilhar. Face às grandes transformações vividas no passado século constata-se no fulgir de novas idealizações que iluminam o mundo moderno.

Dessa experiência em concreto, da historia do ocidente dos últimos duzentos anos, nasceram as técnicas e ciências destinadas a revolucionar a nossa maneira de pensar e de sentir. Valores que se tinham como perenes desapareceram e, no espaço de cem anos, continuaram, e continuarão, a  ser contestados (ainda vamos ter saudades dos velhos dogmas, mas será tarde demais). Hoje fala-se com toda a liberdade de divórcio, casamento entre pessoas do mesmos sexo, adopção ou co-adopção por casais homoparentais, barrigas de aluguer, eutanásia (enfim, uma constante provocatória ao espírito sensível à tradição). Mas estas são as grandes cisões do século. De 1914 a 1991 o mundo sofreu abalos sísmicos, como na colisão de placas tectónicas em cujas zonas de fronteiras são gerados terramotos e erupções vulcânicas numa convergência destrutiva e aniquiladora. Na conflituosidade dos impérios e na derrocada das civilizações esse estremecer é abrupto e os sobreviventes apenas podem responder com o horror de assistir à catástrofe sem nada poder fazer.

No fim das civilizações o homem tenta ponderar os erros do passado, chorando pela perda ou regozijando pela nova alvorada. Caminhamos sempre rumo ao desconhecido e a historia surpreende-nos constantemente com novos dados, novos acontecimentos, novas catástrofes e novas conquistas. Julgamos caminhar para o melhor dos mundos, como na caricatura de um “Cândido” a la Voltaire. “É sempre para o melhor dos mundo possíveis”, a perfeita sedução pelo progresso nem sempre agoirando boa-nova, um progresso férreo e desmesurado que não quer escutar as vozes da razão. E o progresso sem razão, sem ser prudente, sem avaliar as circunstâncias à luz da tradição e da historia, acaba por descambar. O espírito contemporâneo não contém em si a prudência dos antigos, o que torna o nosso corpo cultural fraco e as nossas ideias vagas. Spengler chamava à nossa civilização a "civilização fáustica", identificando "a fase terminal de uma cultura em decomposição". Ao indivíduo ofereceu-se a fórmula para se afirmar, ao mesmo tempo que apagava a sua identidade. A democratização lançada enquanto estandarte da nova era iluminada pela razão criou as suas contradições e insofismáveis erros. A imposição da cultura de massas, o declínio cultural ao procurar vender o barato, o vazio, faz justiça às análises de Le Bon que já reflectia sobre a irracionalidade das multidões. Se o mundo deu um grande salto em frente, a verdade é que por debaixo, obscurecidas, ficaram muitas certezas.



Um outro mundo  - antes de 1914

Dominique Venner, na sua obra magistral, “O Século de 1914”, traça esse mundo que existiu anterior ao "suicídio colectivo" do nosso continente. As hierarquias equilibravam-se, a nobreza dos impérios de Berlim e Viena-Budapeste, contra-baloiçavam os valores antigos com a abertura à modernidade. Certamente o mundo não era o mais idílico, mas era o mais equilibrado possível entre a tradição e a modernidade, tal constatação é perceptível nas memórias de Marion Donhoff, in "Une enfance en Prusse-Orientale", ou nos relatos transmitidos pelo príncipe Otto von Habsburg, reunidas no livro "Mémoires d'Europe, Entretiens avec Jean-Paul Picaper". Uma sociedade e um mundo imortalizadas no grande romance de Proust, “À la recherche du temps perdu”. Ou mesmo a visão de portugueses como Eça de Queiroz, nas sua absorvente descrição da política Europeia, em “Cartas de Paris”, ou a elegância da prosa de um Ramalho Ortigão, com as suas crónicas de viagens e a percepção da política em “Últimas Farpas”.

Sem querer entrar em comparações saudosistas e tendentes ao ridículo é minha intenção apresentar algumas notas. Nestes cem anos que passam da Grande Guerra impõe-se uma reflexão.

O que era o mundo antes de 1914? Os historiadores já o reconstituíram numa miríade de livros e documentos sempre reveladores de um tempo para nós tão peculiar. Fascinam as modas, os prazeres, os vícios. Entre caprichos de burgueses arrogantes e aristocratas vaidosos, um estilo de vida tão elegantemente observado por Thomas Mann em “Buddenbrooks - Verfall einer Familie”, ou as grandes questões sociais desenvolvidas pela pena de um Dickens ou de um Dostoievski, espíritos inquietos e de temperamentos antagónicos, as questões do espírito e as questões sociais, as preocupações mundanas e as problematizações civilizacionais, elementos tão bem expiado pelos intelectuais desde os românticos, com Victor Hugo, ou Alexandre Dumas, ou já próximo ao realismo, Balzac (o mais reaccionário de todos eles, um monárquico convicto e um crítico à sociedade burguesa da Paris de oitocentos), aos naturalista, com Zola, tão criticamente combatido por Bourget. Este último, cultivador de uma fineza linguística e de um pensamento demolidor, encontrará na Action Française uma boa recepção. Intelectualmente, legítimo herdeiro de de Maistre, Bourget será crítico avassalador da sociedade liberal, mais tarde, influenciado por Taine, aperfeiçoará o traço literário com as teorias sociológicas, e, tal como Balzac, será cronista crítico daquela sociedade burguesa de oitocentos.

O mundo anterior a 1914, esse "grande século XIX" parece-nos uma paisagem exótica e fascinante, temerosa e funesta, da grandeza Europeia à sua iminente decadência. Os artistas, escritores, poetas, procuraram as suas luzes e as suas sombras, desses contrastes resta-nos a fugidia visão doutra dimensão, subterfúgio de delírios e nostalgías, de inspiração e de excitamento, mas entender esse espaço é compreendermos também a razão de ser do nosso mundo hoje, tal-qualmente edificado no escopo do homem novo nascido das grandes guerras e das experiências revolucionárias.


O "antigo regime desenvolvido e corrigido"

A "antiga ordem", ou aquilo que se chamou um "antigo regime desenvolvido e corrigido", a expressão é de Renan, era exactamente o oposto daquele mundo que décadas mais tarde seria erigido dos escombros das duas grandes guerras.

O exemplo de Renan incide sobre a Prússia, explica: Aqui o indivíduo é empregado, educado, trabalhado, ensinado, disciplinado, requerido constantemente por uma sociedade derivada do passado, moldada em velhas instituições, arrogando-se o domínio da moralidade e da razão. (...) Estas sociedades são especialmente nobres; criam a ciência; orientam o espírito humano; fazem história." Para Renan, um sistema como este, uma vez destruído, não poderia mais ser reconstituído. Numa visão profética acrescentava, advertindo relativamente à destruição deste sistema (que se veio a verificar logo em 1918): "uma série de ditaduras instáveis, um cesarismo de baixa extracção, eis tudo o que se vislumbra como hipótese de futuro".

Na Alemanha preservava-se uma antiga aristocracia prussiana, ainda de costumes militares e, contudo, no século da unificação por Bismarck, constituindo uma elite das mais invejáveis, mantinha viva a ordem antiga. A "velha ordem" ainda não tinha sido destituída da sua verdadeira importância, tão-só, a aristocrata ainda era tida como um exemplo da “moral” e do “dever”. Hoje irrita-nos ambas as palavras, como tantas outras: "ordem", "autoridade", "hierarquia" e, até mesmo, "espírito de sacrifício". Mas no mundo de 1800 e inícios de 1900 os nossos antepassados compreendiam-nas bem, nesse sentido eram superiores a nós. Ademais, uma certa historiografia marxista tem alimentado demasiados mitos. Ou mesmo procurando fazer uma leitura da história pelo lado dos vencedores. O maior erro que podemos incorrer é procurar traduzir a história numa constante marcha onde no fim triunfa iluminado o demo-liberalismo desde Wilson a Obama. Outro erro é procurar ler os acontecimentos do passado à luz da nossa própria era e do nosso próprio conhecer dos factos, condenado uns, vangloriando outros, e, quando muito, ajuizar moralmente numa reprovação ética completamente descontextualizada dos acontecimentos e da sua época histórica. Não há nada mais frustrante do que um historiador ideológico que pretende ilustrar a longa marcha dos povo num eterno esforço de combate entre os senhores e os servos, para tal efeito procurando resquícios e pequenas notas, desde Spartacus (a luta dos escravos contra os seus amos) ao feudalismo, da Idade Médida à afirmação do Terceiro Estado na França Revolucionária de 1789. Tão elementar na leitura de Hegel que referia o “fim da história”, por ver as revoluções liberais como um ponto de não retorno. E a mesma acepção preservou Fukuyama ao analisar o fim do bloco Soviético como “o fim da história”, por acreditar que o demo-liberalismo é o grande vencedor da secular guerra europeia, dos impérios aos estados totalitários  e, nesta última fase, o declínio do euromundo.




O Euromundo 

Os impérios euromundistas foram uma realidade histórica, não há que ter vergonha - hoje falar nos impérios coloniais quase que cria escárnio. Temos de recordar este nosso passado e perceber as origens da sua decadência.

Entre 1880 e 1918 é perceptível o arranque das civilizações europeias na industrialização e o progredir das grandes potências, desde a unificação de impérios na sua continuidade continental ate à formação de impérios extracontinentais, que se prolongavam por continentes e territórios longínquos, onde “o sol nunca se punha”. Tais constatações levavam Dismaeli a referir-se ao progresso do ocidente como aquilo que separava o nosso continente, do que se chamava então “o resto do mundo”.  Ou ainda a declarar quer "o mundo é Paris e Londres e o resto é paisagem".

A grande civilização cresce através do fumo espesso das chaminés das grandes fábricas, das locomotivas e estradas, da expansão urbana e a frutificação da grande massa proletária,obrigada muitas vezes a viver em guetos e subúrbios em condições desumanas. Ao mesmo tempo, a percepção das questões sociais e as exigências que o Direito vai procurar para as resolver. Começa-se então a pensar no Direito do Trabalho (uma novidade dentro do milenar Direito Civil), também salientado pelo crescimento dos movimentos sindicais e, paralelamente, forjam-se as bases do Estado Providência (cujos primeiros traços são rasgados pelo prussiano Bismarck décadas antes da republicana e revolucionária França).

Os católicos não são indiferentes à questão, a encíclica Rerum Novarum incidirá numa demolidora critica ao capitalismo que amordaçava os trabalhadores e na desconfiança que mantinha relativamente ao socialismo, advertindo para o perigo das utopias que depois se veio a verificar verdadeiro: Por tudo o que Nós acabamos de dizer, se compreende que a teoria socialista da propriedade colectiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles membros a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranquilidade pública. (Leão XIII, Encíclica Rerum Novarum) 


As críticas à modernização descontrolada e à proliferação da miséria, perceptível nas grandes urbes da Europa, levantará movimentos de reacção quer à esquerda quer à direita.

Esta dicotomia política hoje tão apreciada, ainda que cada vez com menos sentido, representa a linha divisória entre os que se sentavam ao “lado direito do rei” e os que se “sentavam à sua esquerda”, no período de derradeira crise de consciências que foi 1789. Na Inglaterra eram Wing e Tories, respectivamente a esquerda e a direita (usando a nossa dicotomia continental e depois exportada para o "restante mundo").

A palavra liberal surge aquando da constituição de Cádis, em 1812, adaptada depois pelos Wing, do Reino Unido, que se denominavam "Wing Liberale". Liberais e Tradicionalistas são duas linhas conflituantes e antagónicas, estes últimos representando a contra-revolução, pela pena de Joseph de Maistre, mais tarde continuada por Maurras, a questão do regime será sempre recolocada: monarquia orgânica, tradicional, anti-parlamentar, descentralizada; ou a monarquia constitucional e liberal, onde "o rei reina, mas não governa"; ou a república, como os Estados da América do Norte então deram a conhecer? Outros preferirão a abolição de toda a ordem, a construção de um "homem novo", procurando intrínseco e obscuro esse "bom selvagem" de que falava Rousseau, paladino das esquerdas e dos inocentes que acreditam nessa "bondade humana" (porque o homem é bom por natureza mas a sociedade é que o corrompe - assim apregoam aos quatro ventos).

 Quanto aos liberais franceses, estes constituíam o Terceiro Estado, tão heterogénio entre si, mas no qual sobressai a burguesia (entre proprietários, comerciantes ou académicos) e que, triunfando sobre milhões de assassinados, vai simplesmente mover as fronteiras sociais para ocupar então um espaço antes reservado à aristocracia e ao clero. A restante base permanecerá igual ao que fora.

Liberais também os seguidores do laissez-fairre laissez-passer, críticos do mercantilismo e do proteccionismo estatal, antagónicos a Colbert e que terão primeiro em Quesnay e depois no escocês Adam Smith a sua inspiração. O liberalismo político que convenceu as consciências da sua superioridade, quando pode até ser mais destrutivo do que qualquer outra ideologia, que moldou os Estados-Direito modernos, com todo o seu individualismo e a lamechice do personalismo na sua vocação universalista, que foi iniciado na guilhotina e lançou a guerra civil, que promoveu a igualdade porém, na prática, constatou-se que "uns eram mais iguais do que outros" e promoveu a liberdade desde que controlada pelas oligarquias, que foi legalista nos primeiros tempos, positivista no áureo século XIX, e hoje um Estado de Direito de legalidade material, democrático e liberal, convencido da sua superioridade, e destituído de qualquer certeza por viver aparelhado à partidocracia, aos grupos de interesses, e sem outra forma para se legitimar que não sejam as estatísticas e os cálculos, reduzindo o homem a um gráfico. Que despreza a ideia de nação (coisa de fascista), ou tem medo de falar em "pátria" (velho arcaísmo), que tem horror à monarquia (forma que dizem "não democrática" até causa repulsa na burguesia arrogante e invejosa) e que vende as soberanias nacionais em nome da "aldeia global", que sente escárnio ao passado (mundo retrógrado e obscuro).

Sem ideia que lhe valha, o Estado de Direito que foi revolucionário e hoje vive agarrado a legislações avulsas internacionais, a leis Europeias que se sobrepõe às leis internas e põe em causa a soberania das nações, sem outro caminho senão sobreviver, ir sobrevivendo, resistir e procurar a sua legitimidade cada vez mais contestável.

Contudo, somos herdeiros da Revolução Francesa no sentido da estrutura e dinâmica do poder, na relação do homem com o Estado e a influência que o Estado tem nas nossas vidas, uma relação que começou na procura desse "homem novo" revolucionário - o cidadão de hoje, tão passivo e carente - e também na reacção ao mesmo Estado revolucionário, desprovido de consciência, e que se consolidou nos parlamentos e partidos políticos que hoje dominam as estruturas do poder. Hegel tinha razão, foi o “fim da história”, e 1991 salientou (duzentos anos passados sobre o escrito de Hegel) a verdade do filósofo.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Derrocada





Se o homem de há cem anos nos viesse visitar certamente preferiria morrer uma segunda vez, e parece esta afirmação condicente com a vivência do nosso mundo ao atestar nas profundas modificações sociais, na mutabilidade dos costumes, na dinâmica do pensamento. Um mesmo homem de há cem anos podia regozijar no seu espírito progressistas e depressa desiludir-se, como nos ensina o Eclesiastes "nada de novo debaixo do sol".

Desde há cem anos o mundo europeu ceifou a própria cabeça e deixou para trás um corpo moribundo. Sobre a nossa civilização caiu o dilúvio e nós, a posteridade dos que ontem lutaram para manter o antigo e aqueles que lutaram para o destruir, somos o resultado, o mais exemplar produto, dessa condição demasiadamente monstruosa que foi o século XX.

Há cem anos o nosso continente atravessava porventura a mais terrível das guerras. A Europa caminhava, ainda sem o saber, para o seu suicídio colectivo. O fim do mundo velho, o que restava do Congresso de Viena (de 1814-15) e anteriormente, a paz de Vestefália (os princípios da soberania dos Estados e do Estado Nação) e aquela ordem que resistiu aos furiosos ventos da história, com a mais totalitária das revoluções pronúncio da monstruosidade que se libertaria no século XX, a revolução de 1789 (na França), também esse corpo foi destruído e não houve cinza que almejasse ressuscitar a Fénix.

Depois de 1918 tudo decorreu como numa grande bebedeira festiva, pelo cansaço da guerra, que depressa despertou na ressaca totalitária dos anos 30 e 40. Podíamos julgar a historia do nosso continente como um sonho, tudo decorrendo como numa paisagem exótica e demasiadamente distante para que nos possamos preocupar com ela. A verdade é que foi a destruição desse mundo que criou a nossa nova identidade, somos filhos e herdeiros do século XX, mas essa é apenas a “chave para o destino do continente europeu”, nas oportunas palavras do historiador francês Dominique Venner.

O demo-liberalismo venceu a grande guerra do século XX, esse “século” que poderíamos forçosamente consubstanciar entre os anos de 1914 a 1991, este é o facto constatado e que merece ser analisado.