domingo, 27 de julho de 2014

Na morte de Salazar


Prof. Doutor Afonso Rodrigues Queiró. 
Doutor em Direito em 1945. 
Professor Catedrático desde 1948. 



Palavras proferidas pelo Director da Faculdade de Direito, Doutor Afonso Rodrigues Queiró, no funeral do Doutor António de Oliveira Salazar, em 27 de Julho de 1970. 

SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA
SENHOR PRESIDENTE DO CONSELHO
SENHORES VICE-PRESIDENTE DA ASSEMBLEIA NACIONAL E PRESIDENTE DA CÂMARA CORPORATIVA
SENHORES MINISTROS, SECRETÁRIOS E SUBSECRETÁRIOS DE ESTADO
SENHORA VICE-REITORA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES

Não sei desde quando vem sendo praxe académica usarem os decanos das Faculdades de Coimbra da palavra na circunstância do enterramento dos seus professores, para exaltarem a sua personalidade e celebrarem seus merecimentos e suas obras; sei apenas que ora me apetece infringi-la, a essa praxe, tanto excede os meus dotes desempenhar-me adequadamente da obrigação de o fazer em relação à figura insigne de professor que foi o Doutor António de Oliveira Salazar. 

Creio, aliás, que, em alturas como esta, se deveriam omitir palavras profanas, que mais nos fazem reparar nas coisas precárias e caducas da existência terrena dos homens do que meditar nas eternas e transcendentes para que o supremo transç da morte inevitavelmente aponta. 

Sem timbre na minha voz nem vigor no meu verbo que me elevem à altura do encargo de traçar aqui o perfil do Homem, em toda a sua grandeza, direi simplesmente, em dois apontamentos, muito breves, do professor — um professor que parecia, em Coimbra, pela austeridade da vida, pela simplicidade quase monacal dos hábitos, pela autoridade moral, pela plena dedicação e amor às tarefas do espírito, pelo equilíbrio do pensamento e da acção, pela dignidade do porte, pela seriedade em tudo posta, um clérigo-doutor que, tendo vivido e ensinado séculos antes no Studiutn Generale, miraculosamente houvesse transposto os sucessivos tempos secularizantes para, em pleno século XX, servir de paradigma a universitários, de exemplo a estudantes e de modelo a todos. 

Ora sucedeu que esse professor o foi de um feixe de disciplinas que imediata ou indirectamente tinham que ver com os problemas mais candentes da existência colectiva do nosso País nos anos vinte e seguintes, quais eram principalmente, como toda a gente sabe, o da situação caótica das suas finanças, o da carência de um mínimo de infraestruturas, o do atraso da sua economia e o da desordem política e social; e que o seu ensino delas — designadamente da Ciência das Finanças, da Economia Política e da Economia Social — não fora teórico e conceptualista, racionalista e livresco: fora vivo e aderente às realidades nacionais, constantemente por ele invocadas para desmentir ou confirmar teses e doutrinas.



Prof. Doutor António de Oliveira Salazar
Doutor em Direito em 1918. Professor Ordinário desde 1918. 
Leccionou: Economia Politica, Ciência das Finanças 
e Economia Social.


Quer dizer: a Escola preparou o estadista em que, passada uma década, pouco mais ou menos, sobre o início da sua docência, veio a transformar-se o professor. As soluções que, primeiro na pasta das Finanças e depois na chefia do Governo, fez consagrar nas leis e na diuturna acção política e administrativa, tinha-as ele perfilhado já nas suas aulas desde que em Coimbra sucedera a Marnoco e Sousa no ensino das disciplinas econó-mico-sociais da Licenciatura em Direito.

De tal modo os cursos de Oliveira Salazar haviam sido já, em si, um projecto de acção política, Logos e Praxis entrelaçados e conviventes, de acordo com a ideia de que «a ciência é uma forma de actuar», que mal daria por que ele passara da cátedra de Coimbra para a cadeira curul do Terreiro do Paço quem pudesse figurar-se a ouvi-lo, sem estar ao corrente desse facto, a fazer certas das suas lições universitárias ou a ler os preâmbulos e exposições de motivos de algumas das suas grandes reformas legislativas ou o texto de determinados discursos seus, sobre temas politico-sociais. 

É que, na verdade, Oliveira Salazar, uma vez no Governo, continuou igual a si próprio: perante o grande auditório do País, continuou a ser o professor que fora, ante os seus alunos, atentos e maravilhados, nas aulas. 

Aliás, não foram apenas a dignidade da palavra e a objectividade imperturbável e intransigente das ideias que fizeram compreender e sentir a toda a gente que o professor universitário se transferira, sem se transmudar, de Coimbra para Lisboa. 

Levou também consigo, para o aplicar e fazer observar no governo e na administração pública, sem desfalecimentos, todo o cabedal daqueles princípios deontológicos que, ele e outros grandes Mestres da Faculdade de Direito, seus contemporâneos, tinham definitivamente firmado e feito triunfar no seio dela, reagindo, obstinada a quase heroicamente, contra as expressões mais degradantes da corrupção que havia penetrado na própria Universidade, a partir da sociedade política da época da baixo liberalismo. 

Mais do que professor, entendido como especialista ou bom conhecedor de certa ou certas matérias, o Doutor Oliveira Salazar foi, porém, um filósofo das coisas sociais e políticas — e foi como tal que ele veio a ser governante excepcionalíssimo. Não é o professor de Finanças, de Economia e de Direito Fiscal que marcou uma época na vida política da Nação, por grandes e benéficas que tenham sido, e foram-no, realmente, no consenso geral, as consequências da sua acção na governação do País, à frente do departamento da Fazenda. Marcou uma época na nossa História, de preferência, o filósofo que se encobria na figura do professor universitário — bastando que o Destino lhe proporcionasse a ocasião, para o poder revelar, à frente do Executivo. Platão disse, no diálogo da República, que seria bom qde os filósofos se tornassem reis ou que os reis e os príncipes se tornassem filósofos. Verificou-se com Salazar, no nosso País, durante dezenas de anos, este voto. Salazar foi filósofo, porque o ornou a sabedoria, a coragem, a temperança e o espírito de justiça — virtudes cardiais do homem de Estado, como nesse diálogo se defende; foi-o, ainda, na medida em que desprezou a opinião e pôs toda a sua fé no saber e na ciência — e foi filósofo, finalmente, enquanto soube elevar-se à altura da expressão teorética das suas próprias ideias e conceitos sobre o Estado e a governação. 

Eis, Senhoras e Senhores, uma das facetas do Homem que vamos deixar aqui, para sempre — a única, repito, que julguei ser do meu dever, na qualidade em que vos falo, pôr muito concisamente em destaque. Esse Homem não morreu. Vive, e viverá, porque subiu e passou definitivamente a pertencer ao mundo imperecível do Espírito. 
Disse. 

(Publicado no Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, vol.46, 1970, pág. 220 e ss)








quarta-feira, 23 de julho de 2014

Modernidade e a decadência



Escreveu Dominique Venner em "O Século de 1914": "Na Europa, a invocação da moral para justificar os sistemas liberais é uma novidade importada dos Estados Unidos com o espírito wilsiano. Antes, invocavam-se os princípios da igualdade, da liberdade ou da soberania popular, mas raramente a moral. Sabia-se que esta pertence ao domínio das normas individuais e não tem lugar na política. Depois operou-se uma alteração do sentido que invadiu tudo, o que tem os seus incovenientes."
Afinal o que hoje é reivindicado como "tradição" (e a palavra perde muito do seu sentido clássico) é a ideia do demo-liberalismo enquanto herança do processo revolucionário de 1789, constantemente reivindicado para justificar a legitimidade dos actuais sistemas. Não é a tradição como a definia Chesterton, como uma "democracia dos mortos", porém usada em prol de um argumento de autoridade. Portanto, apenas "tradição moderna demo-liberal" para quem proclama o que já António Sardinha chamava os "imortais princípios". Ou o que poderíamos talvez denominar de "utopia negativa".
Não podemos usar a palavra "tradição" porque esta está além das leis criadas pelo Estado e o que o momento revolucionário criou foi a deturpação da mesma, por muito que isso enerve o espírito de certo jacobino. O monstro criado pela modernidade, a revolução, faz com que a ideia Europeia habite, então, no vago mundo do revolucionarismo.
Da revolução inglesa, à americana e culminando na revolução francesa (numa tríade inspiradora dos actuais Estados de Direito), ou as três grandes revoluções do século XX, a Bolchevique de 1917, a fascista (na Itália) em 1922, ou a Nacional-Socialista (na Alemanha) em 1933 [1], permitiu concentrar no espírito europeu tanto o seu optimismo mais idealizante, como o seu pessimismo mais característico, hoje visível na luta entre a Europa de Bruxelas e o eurocepticismo, nos Estados-nação a fervilhar em nacionalismos, com nações aguerridas à sua cultura e identidade, face à globalização que visa subjugar os povos à uniformidade cada vez mais sentida nos costumes, a americanização enquanto advento do pós-guerra. O mundo, nas palavras de Mireille Delmas-Marty, " é governado por uma plutocracia cosmopolita suficientemente flexível e ágil para marginalizar os Estados, os cidadãos e os juízes". É a "cosmocracia", de que falava Venner, que fabricou o "homo economicus", "o zombie, o homem novo, sem conteúdo, possuído pelo espírito do mercado (Montocorbier)".
Da contra-revolução, ao repúdio face ao paradigma revolucionario, a Europa viveu a permanente busca de um subterfúgio às crises da civilização, numa acepção próxima a Joseph de Maistre no século XVIII, depois recuperada por Maurras, Taine, Le Bon, ou Leon Daudet (no frémito que foi a actuação da Action Française), não renegando na língua inglesa a acutilância de um Chesterton que, de forma muito singular, é analista crítico e lapidar do mau-senso das sociedades modernas, e, à sua "democracia dos mortos", opõe Evola o seu "radical tradicionalismo", o "Homem entre ruínas", como celebrizou no famoso livro do pós-guerra, em pleno declínio visível da Europa, depois retomado em "Montar o tigre", contrapondo o declínio do mundo moderno à grandeza do mundo antigo, onde o homem encontrava realização à sua existência. 
Apenas duas notas para concluir esta ideia. Primeiro, porque a história Europeia dos últimos duzentos anos construiu-se em torno de revoluções; em segundo, porque lado a lado com a revolução habita a tradição histórica encontrada nos costumes e cultura do povo (cada um com as suas respectivas especificidades). Exemplificando esse contraste está o mais evidente símbolo da tradição cultural europeia: a Igreja Católica Apostólica Romana (certamente esse comum comunitário que foi a Respublica Christiana), mais visível a sul, face ao domínio do protestantismo a Norte (leia-se "Vasco Graça Moura, A identidade Cultutal Europeia), ruptura salientada na primeira das revoluções modernas: a “Reforma”. Porém, já anotava Max Webber ao indicar que os fundadores do Calvinismo não foram reformadores da sociedade porque afinal “a salvação das almas, e só ela, foi o eixo das suas vidas” (Dominique Venner, O Século de 1914). Mas não apenas, também coexiste uma tradição muito mais antiga, marca indelével da nossa existência enquanto comunidade. Há em todos os povos uma marca que os identifica e distingue. Permite assim difundir a diversidade cultural ambientada ao mundo moderno, por viver obscurecida entre as tradições do povo, uma tradição que existe muito antes do próprio Estado, e que se enraíza numa terra porventura mais antiga e por isso de tradição mais viva, anterior e mais remota ao próprio cristianismo.

______________

[1] (sobre as revoluções do século XX leia-se François Furet e Ernst Nolle, "Fascismo e Comunismo")

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Alerta Monárquicos!



“No dia 1 de Fevereiro, às exéquias realizadas em S.Domingos por alma das duas régias Vítimas das balas republicanas, não assistiu senão a quarta parte das pessoas que, todos os anos, lá costumam ir rezar pelos dois Mártires da Pátria - ainda por vingar. 
Era essa uma das formas por que os monárquicos protestavam contra o interregno republicano, contra as suas tiranias, abusos e injustiças. E sempre a Igreja de S.Domingos se encheu de muitos milhares de pessoas, quer estivesses no Poder os democráticos, quer estivesse Pimenta de Castro, Sidonio Paes, Gomes da Costa ou Carmona. 
Foi necessário ano e meio de consulado Salazar, foi necessário que houvesse uma Constituição da República votada por monárquicos (desde ministros e sub-secretários de Estado a directores de Bancos, chefes de repartição, governadores civis, dirigentes da União Nacional, etc.) - foi necessário e bastou tudo isso para que - repetidamente - essas exéquias se fizessem somente perante algumas centenas de realistas mais ardentes! E assim, esse dia que devia ser de revolta fortíssima, em todos os corações monárquicos, decorreu este ano na maior indiferença - o mais republicanamente possivel! 
Esta prova evidente da diminuição da mística monárquica em Portugal, no momento em que, por todo o mundo - principalmente em França - a Ideia Monárquica aparece resplandecente de força e actualidade, é um claro sintoma do erro grave em que os monárquicos portugueses têm caído nos últimos tempos. 

(...)

Eles, que se dizem monárquicos, não têm pejo de colaborar num crime de lesa-Pátria, ou seja, no prolongamento do actual interregno republicano, demorando assim o dia em que Portugal há-de trilhar novamente o seu destino histórico, garantido por oito séculos de glória. 
Ainda há menos dum mês, o jornal órgão oficial do Governo, dizia, num artigo intitulado “Os verdadeiros amigos da República”, que estes eram apenas dois: - o Povo que a implantou e Salazar que a consolida. 
Isto é uma verdade e uma mentira.
Uma mentira porque não foi o Povo Português, profundamente monárquico, que implantou a república, mas sim umas dúzias de ambiciosos sem escrúpulos, que serviram dele e da cobardia dos conselheiros monárquicos de 1910.
Mas é uma verdade no que se refere a Salazar.
Salazar foi a salvação da república. Salvação momentânea e portanto fictícia. Mas o que é indiscutível é que ele veio trazer ao actual regime uma longevidade que, sem a sua acção, seria impossível. 
É indispensável que todos os monárquicos se convençam duma verdade indiscutível: - So a Monarquia é eterna na sua hereditariedade. Os consulados ditatoriais são, por natureza, transitórios, e sempre perigosos quanto aos seus resultados. 
Não é admissível sacrificar-se o definitivo - a Monarquia, ao efémero e passageiro - a actual situação. 

(...)

A Ideia Monárquica não troca a sua eternidade por meia dúzia de anos de calma aparente e de felicidade ilusória. 

(...)

Enquanto os monárquicos têm lugares do Estado, decorativos e chorudos, o Governo proíbe toda e qualquer manifestação da Causa Monárquica, que conta no seu passado com muitas centenas de mártires e sacrificados pela Ordem e pela Nação. 
Monárquicos Portugueses: Urge acordar, olhar com patriotismo e monarquismo para o presente e o futuro. É necessário não deixar que se perca o valor do sangue que já foi vertido pela Sagrada Causa da Nação!
É preciso que não adormeçamos neste momento gravíssimo para Portugal!
O nosso carácter e a nossa dignidade estão postos à prova! Saibamos cumprir o nosso dever!
Não continuemos a concorrer para o enfraquecimento da única força capaz de impedir a total derrocada da Nação no dia da queda inevitável da Ditadura!


MONÁRQUICOS, ALERTA!

TUDO PELA MONARQUIA!

NADA CONTRA A MONARQUIA!


Lisboa, Fevereiro de 1934.


Um grupo de monárquicos."

ler texto completo aqui 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Integralismo Lusitano




"Mais do que um corpo de doutrina, mais do que um breviário de constituição política, mais do que um programa, mais até do que um simples ideário monárquico, o Integralismo Lusitano é uma autêntica forma de viver e de pensar, uma norma moral, uma lição definitiva de síntese sobre o pensamento e a acção, uma alta escola de pensar contra o preconceito, o lugar-comum da época e do meio, uma clara vitória do pensamento contra a ideia-feita, do difícil contra o não-pensar, contra a norma escolar e a cultura oficial ou oficializada. Sem o Integralismo não será possível compreender a história das ideias e dos factos no Portugal do nosso tempo."
Francisco Sousa Tavares in Combate Desigual.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O abandono



"A história de decadência e ruína das nações, como as das pessoas, tendem a perder parte do seu sentido trágico na distância do tempo, ao ponto de a sua narrativa se poder tornar quase serena.As tragédias colectivas, para quem as viveu coerente e empenhadamente na carne e no espírito, podem ser evocadas com a lucidez que nos chega com o seu fim, como se, num torpor lúcido e criativo de droga ou álcool, se tivessem passado com outros.
No processo, podem soltar-se monstruosas criaturas de razão e desrazão e repetir-se receitas normalizadoras, como a sentença, hegeliana de que «todo o real é racional». É uma fórmula erudita do dito popular de que o que é, foi ou teve de ser, « tem muita força» e uma versão filosófica da resignação cristã. Se aceitarmos o acontecido como um guião escrito por um Deus sábio e bom, que conhece os fins últimos de todas as coisas - e se importa até com o papel e a vida dos figurantes secundários - no final, a História terá sempre um sentido para todos, homens e povos.
Assim, podemos hoje olhar com alguma objectividade estes meses do fim do Império, entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, na razão directa do empenho, da esperança e da paixão com que então os vivemos, ou da raiva, da fúria e da sensação de queda final com que lhes vimos o desfecho."

Jaime Nogueira Pinto, "Portugal Ascensão e Queda - Ideias e Políticas de uma nação singular", Publicações D.Quixote.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

João Domingos Bomtempo - Symphony

Na próxima sexta-feira, na Biblioteca Nacional de Portugal, o maestro Pedro Neves e a Orquestra Metropolitana de Lisboa apresentam a 2.ª Sinfonia de Bomtempo!


sexta-feira, 4 de julho de 2014

Recordar Otto von Habsburg






Crónica no Diário de Notícias, do Professor Adriano Moreira, aquando da morte de Otto von Habsburg: 

"Morreu há poucos dias o Doutor Otto de Habsburgo, arquiduque da Áustria, chefe da antiga família imperial, mas sobretudo um cristão que dedicou a longa vida quase centenária à unidade, em paz, da Europa que destruiu a sua proeminência mundial com duas guerras a que chamou mundiais, e foram apenas as guerras civis de piores consequências dos povos europeus. A de 1914-1918, como é frequentemente recordado, teve o início do seu percurso brutal no assassínio do arquiduque Francisco Fernando, e da sua mulher, a duquesa de Hohenberg, quando, na qualidade de príncipe herdeiro, visitava Sarajevo, na Bósnia, morto em 28 de Junho de 1914, por um suposto modesto executor da vontade de outros decisores políticos. Em 23 de Julho a Áustria enviou um severo ultimato à Sérvia, cinco dias depois declarou-lhe a guerra, e a tradicional e abalada balança de poderes foi obedecendo à lei da natureza das coisas até ao desastre chamado paz, que haveria de ser completado pela guerra de 1939-1945. O Império Austro-Húngaro foi desfeito, dando origem a quatro novos Estados, avaliando-se as perdas de vidas em 10 milhões de pessoas, cabendo à Áustria-Hungria 1 100 000. A família imperial abandonou o poder com honra e sem fortuna, recebeu acolhimento em Portugal, tendo o antigo imperador Carlos morrido na ilha da Madeira, onde se encontra e ficará o seu túmulo. O então pequeno Otão teria para sempre uma devoção total por Portugal, cuja língua falava, e, doutorando-se em Lovaina, transformou a tragédia familiar em sabedoria, e assumiu uma luta intelectual, e política, pela unidade europeia, uma decisão reforçada, e não desanimada, pela segunda guerra mundial, muitíssimo mais destruidora de vidas e bens do que a primeira, real ponto final na supremacia mundial europeia, e por isso mais exigente do regresso à regularmente pregada política da unidade. O seu instrumento institucional de intervenção foi principalmente o Centro Europeu de Informação e Documentação, a par da doutrinação em jornais, em conferências e congressos internacionais, em livros doutrinais, tendo criado uma rede de centros na Europa ocidental, incluindo Lisboa, e participado na campanha radiofónica para o Leste europeu no sentido de animar a libertação dos satélites. Muito inspirado pela doutrina social da Igreja, não pode compreender-se totalmente o papel da democracia-cristã, no movimento da unidade europeia, sem ter em conta a sua incansável pregação. Na crise do Império Euromundista, em cujo final se inscreve a retirada portuguesa, ainda neste caso o seu interesse activo se manifestou, quer internacionalmente quer em visitas aos territórios do então ultramar português, inquirindo e sugerindo soluções políticas que abrissem caminho a uma nova solidariedade em paz e cooperação. Nesta cruzada, a sua intervenção não pode ser desassociada da intervenção notável de Richard de Coudenhove-Kalergi, um dos maiores europeístas do século XX, e cuja Fundação ainda se encontra activa, embora sem a visibilidade dos tempos difíceis que o chamaram ao interesse mundial com o 1.º Congresso Pan-Europeu que se reuniu em Viena de 3 a 6 de Outubro de 1926. Uma das afirmações de Otão de Habsburgo, feita no Liechtenstein em 1958, é talvez a síntese da tarefa a que dedicou a longa vida: "O nosso trabalho para o futuro do nosso continente é portanto lutar em favor da Confederação Europeia." A Europa reconheceu o seu contributo, entre outras consagrações, mantendo-o como deputado, no Parlamento Europeu, durante duas décadas. A sua Pátria de origem prestou-lhe tributo com as homenagens fúnebres, para as quais fui convidado e não tive, com tristeza, oportunidade de assistir, para prestar tributo ao amigo de tantos anos. Na sua última visita a Portugal, prestou ele homenagem de gratidão ao povo que o acolheu, declarando, em discurso na Universidade Católica, que o corpo de seu Pai, então beatificado pela Igreja Católica, ficaria para sempre na Madeira. A gratidão também tem lugar no projecto europeu."



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Entrevista a "Dominique Venner" sobre a figura do Rebelde.




Ninguém está mais apto do que Dominique Venner para abrir este tema. Porque ninguém poderia melhor definir o espírito de rebelião…afinal, não é o autor do admirável Le Coeur Rebelle que se dizia rebelde por fidelidade? E no seu Dictionnaire amoureux de la chasse», que é preciso ler página a página, Venner celebra ainda uma espantosa figura de rebelde, o caçador furtivo de Maurice Genevoix em Raboliot.

O que é um rebelde? Nascemos rebeldes ou tornamo-nos assim por causa das circunstâncias históricas? Há vários tipos de rebelde?

Podemos ser intelectualmente insubmissos, à parte do rebanho, sem ser, contudo, um rebelde. Paul Morand é um bom exemplo. Na sua juventude foi um espírito livre, sem mais, e um favorecido pela fortuna, nos dois sentidos do termo. Os seus romances, um pouco desnudados, favoreceram o seu sucesso. Nada de rebelde nem mesmo de insolente nessa época. Ter escolhido involuntariamente o lado dos futuros perdedores entre 1940 e 1944, ter persistido depois nas suas aversões, ter-se sentido um estrangeiro, foi isso que fez dele o insubmisso revelado no seu Diário.

Outro exemplo muito diferente, o de Ernst Jünger,. Ainda que autor de um Tratado do Rebelde muito influenciado pelas inquietudes da guerra-fria, Jünger nunca foi um rebelde. Nacionalista na época do nacionalismo, indiferente ao nacional-socialismo como uma boa parte da “boa sociedade”, ligado durante a guerra aos futuros conspiradores do 20 de Julho de 1944, ainda que nunca aprovando a ideia do atentado contra Hitler, por razões de ordem ética. O seu itinerário, mais ou menos à margem das modas, é precisamente o do anarca, figura da qual foi o inventor e a incarnação a partir de 1932. O anarca não é um rebelde. É um espectador colocado a uma tal altitude que a lama não lhe pode tocar.

Ao contrário de Morand ou Jünger, no seio da geração precedente, o poeta irlandês Pádraig Pearse foi um autentico rebelde. Podemos dizer que o foi de nascença. Em criança havia aprendido a gesta dos combatentes de todas as revoltas da Erin (nome épico da Irlanda). Mais tarde prepara o despertar da língua gaélica associando-o à preparação da insurreição armada. Membro fundador do primeiro IRA, foi o verdadeiro líder da sublevação da Páscoa de 1916 em Dublin. Por essa razão será fuzilado. Morreu sem saber que o seu sacrifício seria o fermento que faria triunfar a sua causa.

Quatro exemplo diferente, o de Alexandre Soljenitsyne. Até à sua prisão em 1945, tinha sido um excelente soviético, pouco se questionando sobre um sistema no seio do qual havia nascido, cumprindo durante a guerra o seu dever de oficial reservista do exército vermelho sem dramas de consciência. A sua prisão e a descoberta do Gulag, do horror acumulado desde 1917, provocam um completo questionamento, tanto de si mesmo como do mundo que até aí ignorava. É então que se torna um rebelde, incluindo contra as sociedades capitalistas, destruidoras de toda a tradição e via superior.

As razões de um Pádraig Pearse não são as de um Soljenitsyne. Foi preciso o choque de um determinado acontecimento, seguido de um esforço interior heróico, para fazer do segundo um rebelde. O que têm em comum é haverem descoberto, por vias diferentes, uma incompatibilidade absoluta entre o seu ser e o mundo no qual lhes cabia viver. Esse é o primeiro traço que define o rebelde. O segundo é a recusa da fatalidade.

Que diferença há entre a rebelião, a revolta, a dissidência, a resistência?

A revolta é um movimento espontâneo, provocado por uma violência injusta, uma ignomínia, um escândalo. Filha da indignação, raramente é durável. A dissidência, como a heresia, é o facto de se separar de uma comunidade, seja política, social, religiosa ou filosófica. Os seus motivos podem ser circunstanciais e não implica o envolvimento na luta. Quanto à resistência, para lá do sentido mítico adquirido durante a guerra, significa apenas oposição, sem mais, a uma força ou a um sistema, mesmo de forma passiva. O rebelde é outra coisa…

Qual é então a essência do rebelde?

Ele rebela-se contra o que lhe parece ilegítimo, a impostura ou o sacrilégio. O rebelde é a sua própria lei. É o que funda a sua especificidade. O seu segundo traço é a vontade de se envolver na luta, mesmo quando não há esperança de triunfar. Se combate uma potência, é porque lhe recusa a legitimidade, aspirando ele próprio a uma outra legitimidade, se necessário, a da alma ou do espírito.

Que modelos de rebeldes ofereceria, escolhendo-os da história e da literatura?

A Antígona de Sófocles é o primeiro que me ocorre. Com ela entramos no espaço da legitimidade sagrada. Antígona é rebelde por fidelidade. Desafia o decreto de Creonte por respeito à tradição e ao mandamento divino – o enterro dos mortos – transgredido pelo rei. Pouco importa que Creonte tenha as suas razões, o seu preço era um sacrilégio.
Antígona crê-se, portanto, legitimada na sua rebelião.

É difícil escolher entre os outros exemplos. Durante a guerra de secessão americana, os yankees designaram os seus adversários sulistas sob o nome de rebeldes, rebs. Era boa propaganda, mas falsa. A constituição dos Estados Unidos reconhecia de facto o direito de secessão aos estados membros. E as formas constitucionais haviam sido respeitadas pelos Estados do Sul. O general Robert Lee, um homem da Virgínia, futuro comandante-chefe dos exércitos confederados, não se considerava um rebelde. Depois da sua rendição em Abril de 1865, ele esforçar-se-á por reconciliar o Sul e o Norte. É nesse momento que se levantaram os verdadeiros rebeldes, homens e mulheres que, depois da derrota, continuaram a luta contra a ocupação do Sul pelos exércitos do Norte e seus protegidos

Alguns caíram no banditismo, como Jesse James. Outros transmitiram aos seus filhos uma tradição que teve uma grande posteridade literária. Em Os Invencidos, o mais belo romance de William Faulkner, descobrimos, por exemplo, o retrato fascinante de uma bela rebelde sulista, Drusilla, sempre segura da justiça da sua causa e da ilegitimidade dos vencedores.

Como podemos ser rebeldes hoje em dia?

Pergunto-me sobretudo como poderíamos não o ser! Existir é combater aquilo que nos nega. Ser rebelde não é coleccionar livros ímpios, imaginar conspirações fantasmagóricas ou resistentes nas montanhas. É ser a nossa própria norma. Mantermo-nos fiéis a nós independentemente do que possa custar. Velar para que nunca nos separemos da nossa juventude. Preferir carregar o mundo às costas do que ajoelharmo-nos. Ser como um corsário. Pilhar tudo o que pode ser convertido à nossa norma, sem nos determos nas aparências.

Nos reveses, nunca colocar a questão da inutilidade de um combate perdido. Olhe-se para Pádraig Pearse. Evoquei Soljenitsyne, que encarna a espada mágica de que fala Jünger, a espada mágica que faz tremer os tiranos. Nisso ele é único e inimitável. Estava, contudo, em dívida para com quem era menos grande que ele. E isso incita à reflexão. No Arquipélago do Gulag, narrou as circunstâncias da sua revelação.

Em 1945 eram uma dezena de detidos na mesma cela da prisão de Boutyrki em Moscovo, rostos pálidos e corpos abandonados. Apenas um, de entre os detidos, era diferente. Era um antigo coronel da Guarda Branca, Constantin Iassevitch. Queriam fazê-lo pagar pelo seu envolvimento na guerra civil, de 1919. E Soljenitsyne diz que o coronel, sem falar do seu passado, mostrava em todas as suas atitudes que a luta, para si, não havia acabado. Enquanto o caos reinava no espírito dos outros detidos, este tinha visivelmente um ponto de vista claro e distinto sobre o mundo que os rodeava. A nitidez da sua posição dava ao seu corpo solidez, suplesse, energia, apesar da sua idade. Era o único a salpicar-se com água fria todas as manhãs, enquanto os outros detidos estagnavam na sua própria porcaria e lamentavam-se.

Um ano depois, novamente transferido para esta prisão de Moscovo, Soljenitsyne descobre que o antigo coronel da guarda branca acabara de ser executado. Ele olhara através dos muros da prisão, com os seus olhos que permaneceram jovens…mas o sentimento incoercível de ter permanecido fiel à via que havia traçado para si mesmo haviam-lhe dado uma força incomum. Meditando sobre este episódio, digo para mim mesmo que não podendo vir a ser outro Soljenitsyne, depende de cada um seguir o exemplo do velho coronel branco.

do blog vulture hooligan

O código de honra Samurai





Eu não tenho pais, faço do céu e da terra meus pais.
Eu não tenho casa, faço do mundo minha casa.
Eu não tenho poder divino, faço da honestidade meu poder divino.
Eu não tenho pretensões, faço da minha disciplina minha pretensão.

Eu não tenho poderes mágicos, faço da personalidade meus poderes mágicos.
Eu não tenho vida ou morte, faço das duas uma, tenho vida e morte.
Eu não tenho visão, faço da luz do trovão a minha visão.
Eu não tenho audição, faço da sensibilidade meus ouvidos.

Eu não tenho língua, faço da prontidão minha língua.
Eu não tenho leis, faço da auto-defesa minha lei.
Eu não tenho estratégia, faço do direito de matar e do direito de salvar vidas minha estratégia.
Eu não tenho projetos, faço do apego às oportunidades meus projetos.

Eu não tenho princípios, faço da adaptação a todas as circunstâncias meu princípio.
Eu não tenho táticas, faço da escassez e da abundância minha tática.
Eu não tenho talentos, faço da minha imaginação meus talentos.
Eu não tenho amigos, faço da minha mente minha única amiga.

Eu não tenho inimigos, faço do descuido meu inimigo.
Eu não tenho armadura, faço da benevolência minha armadura.
Eu não tenho espada, faço da perseverança minha espada.
Eu não tenho castelo, faço do caráter meu castelo.


terça-feira, 1 de julho de 2014

No centenário da Grande Guerra



O suicídio colectivo do nosso mundo (o deflagrar da Primeira Grande Guerra motivo de celebração quando na verdade deveria ser o luto pelo fim do Euromundo e da Europa enquanto civilização) pode não ser a morte derradeira de um espaço que sempre se soube regenerar. Não acabou o mundo com a fuga de Rómulo Augusto, nem com a queda de Constantinopla, nem com o saque de Roma, nem com as barbaridades do ditador Napoleão, nem tão pouco com as duas grandes e monstruosas guerras do século XX (os cem anos de guerra civil europeia). O nosso continente Europeu tem no escopo a grande herança de Homero, Virgílio, Dante, Camões, Shakespeare, do mundo Helénico ao Império Romano legou obras e pensamentos que moldaram a nossa maneira de ser e agir. Da Idade Média legou a memória do Sacro-Império, e depois as grandes dinastias dos reis da França, na Itália concebeu o Renascimento, e de Portugal lançou caravelas ao novo mundo. O continente Europeu é fonte de regeneração, auto-destrói-se e reconstrói-se novamente, como uma Fénix, apesar de ninguém conseguir adivinhar o espaço e duração das crises, como se o armagedão viesse seguidamente e amanhã estaria a nossa pátria ocupada por forças desconhecidas, numa alegoria grotesca ao estilo dos pregadores que anunciavam as fúrias de Deus. Faz parte do nosso pessimismo conceber as maiores catástrofes e o fim dos mundos, porém, um povo suficientemente engenhoso para olhar optimista para o futuro na construção de um mundo melhor.