sexta-feira, 13 de junho de 2014

«Uma República com um Rei»:








"A partir de 1834, o título de liberal foi reclamado por gente que queria coisas muito diversas. Uns, mais conservadores, estavam sobretudo em garantir aos indivíduos uma esfera de autonomia privada sob o império da lei. Outros, mais revolucionários, desejavam principalmente destruir a cultural tradicional, dinástica e católica. Havia quem visse os dois projectos como complementares: como garantir a autonomia individual, sem destruir uma ordem que submetera os indivíduos ao rei e aos padres? Mas também havia quem quem notasse a contradição: como garantir a autonomia individual, quando o estado se propunha a alterar o modo de vida e as crenças dos indivíduos?


Surgiram assim uma esquerda e uma direita liberais. A direita tentou reforçar a componente monárquica e religiosa do estado liberal, de acordo com a Carta Constitucional de 1826. Falhou, porque não podia apelar para as forças socialmente mais conservadoras, comprometidas no miguelismo. O estado liberal acabou por resvalar para a esquerda. A esquerda desistiu da revolução violenta, mas não da revolução gradual. Apesar das resistências da direita, o liberalismo português foi-se identificando com o reformismo igualitarista e populista. (...) O Reino de Portugal adquiriu assim características singulares na Europa. Entre as monarquias, era aquela onde a nobreza titular menos relevância tinha na vida pública, e onde as defesas da ortodoxia religiosa eram menores. O princípio monárquico não correspondia de facto a uma verdadeira cultura de fidelidade dinástica. Portugal era, como muitos diziam, «uma república com um rei». Por isso, quando veio a república no sentido literal da palavra, em 1910, pôde ser inicialmente recebida por muitos como a consequência lógica do estado liberal. O 5 de Outubro começara em 1833." 






- Rui Ramos, "Outra Opinião - Ensaios de História", O Independente, Lisboa, 2004.

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