sábado, 21 de junho de 2014

Alfredo Pimenta, Doutrinador de Portugalidade




"Antes de sermos uma nacionalidade, já éramos um Estado, já éramos uma Monarquia. A Nação, isto é, a consciência de um passado comum, de interesses e de aspirações comuns, surgiu mais tarde e foi obra dos seus Reis e da Igreja Católica. Eis porque um doutrinador de Portugalidade, como o foi Alfredo Pimenta, tem de, fatalmente, defender a Igreja e defender a Realeza. Defender a Igreja, primeiro, porque esta representa Deus na terra, e as sociedades humanas nascem, desenvolvem-se e existem, para servir um fim espiritual, ou seja, para servir a Deus. Depois, porque é em Deus que reside a origem do Poder, para a Monarquia hereditária. E, finalmente, porque, como Alfredo Pimenta escreveu, se «foi a espada dum Rei que fez Portugal», fê-lo «por amor da Cruz e para servir a Cruz». E acrescentava: «Português que não seja fiel a esta dupla tradição religiosa e política, é português transviado por influências estrangeiras ao espírito, aos sentimentos e ao sangue de Portugal, seja qual for o seu valor particular».
Defender a Realeza, porque uma Nação não é o dia de hoje, é o que passou e é o que virá, os seus mortos e os seus heróis, a sua saudade e as suas esperanças. E se «o Rei é anterior à Nação», é, também, o representante visível de uma Dinastia, isto é, e ainda empregando uma expressão de Alfredo Pimenta, «o elo vivo e activo que liga o Passado ao Futuro».
Na actividade doutrinária de Alfredo Pimenta, se há, como não podia deixar de ser, um aspecto positivo, há também um aspecto negativo.
As ideias da Revolução penetraram profundamente nos espíritos, dementaram a Nação, foram consagradas nas constituições, o Estado aceitou-as e obedeceu-lhes. Era preciso, pois, antes de mais, destruir todas as suas influências perniciosas e funestas, pôr a nu os seus sofismas e as suas mentiras. Eis o aspecto negativo, importantíssimo como pressuposto de toda a acção positiva.
Era preciso combater o espírito democrático, provar que a Democracia não passa de uma mistificação — aspecto negativo — e opor-lhe a Monarquia Tradicional e o Nacionalismo Integral — aspecto positivo. Era preciso condenar o liberalismo político, estrangulador das nossas regalias municipais e das nossas liberdades profissionais e corporativas, denunciando a burla do Poder que emana da Urna e do Voto, para se lhe opor o Autoritarismo contra-revolucionário. «O homem, munido do papelinho branco, é omnipotente, é omnisciente»? Oiçam, ainda, Alfredo Pimenta: «Um milhão de homens de um lado, outro milhão de homens de outro lado. Empate. Quem vai desempatar? O Pistautira (oh!) que se esquecera de que era o grande dia do Povo Soberano. Vão chamar o Pistautira! E o Pistautira chega, e vota. E desempata... Quem foi omnipotente? Quem foi omnisciente? O Pistautira...»
Foi, assim, orientada nestes dois aspectos, a acção doutrinária de Alfredo Pimenta: desfazer os mitos e refazer as realidades, combater os desvios nefastos e apontar o caminho verdadeiro. Numa época desorientada e quase demente, a sua palavra firme, de razão e coerência, foi como fio de água límpida onde irão sempre refrescar-se os que estejam fartos de malabarismos e tenham sede de verdade e de raciocínios claros.
E, para terminar, duas palavras mais. Apenas duas.
Há homens de quem se pode dizer, em verdade, que valeu bem a pena terem passado neste mundo, quanto mais não fosse, ou que mais não valessem, pelo exemplo que deixaram. Alfredo Pimenta pertence incontestavelmente, a esta categoria.
Está, ainda, fresca a terra da sua sepultura. Ainda não cessaram, à volta do seu nome, os ódios e os despeitos. Rugem, ainda, as vozes de rancor. Mas nem os ódios, por mais ferozes, nem os despeitos, por mais ignóbeis, nem o rancor, por mais repugnante, conseguirão, de forma alguma, diminuir a memória do homem, cuja vida foi magnífica lição de carácter, de coragem e desassombro; cuja vida foi exemplo verdadeiro de trabalho exaustivo, de estudo sério e consciente. 
Uma vida inteira dedicada ao serviço da Verdade, à Cultura do seu País, ao combate leal pelas suas ideias, à ternura e ao carinho do seu lar. Há ideal mais belo? Há exemplo melhor, agora, que o carácter é feito de transigências, de falsificações e de renúncias? Há exemplo melhor, agora, que a coragem e o desassombro dependem da maior ou menor capacidade do cordão umbilical? Há exemplo melhor, nestes tempos, em que a Verdade anda arrastada pelas ruas da amargura, mutilada e esquecida ?"

Júlio Evangelista, "Alfredo Pimenta Doutrinador de Portugalidade" 

(1 — Discurso proferido na homenagem ao Dr. Alfredo Pimenta, promovido pela Junta Escolar Monárquica do Porto, em 28 de Abril de 1951)

(Publicado in «Gil Vicente», vol. II — 2.ª série, págs. 185/195, nº 11/12, Novembro/Dezembro de 1951)

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