sábado, 28 de junho de 2014

O século de 1914





"Os dois tiros em Sarajevo precipitaram a Europa, um mês depois, na mais terrível das guerras: nove milhões de mortos, sofrimentos e perturbações de uma extensão impossível de imaginar, a revolução russa de 1917, a desaparição do Império da Áustria-Hungria, da Alemanha imperial e do Império Otomano e o completo desmembramento da Europa central. Tem como consequências directas a ascensão do hitlerismo, em 1933, a Segunda Guerra Mundial, em 1939, o fim da civilização europeia e o abalo geral do universo. Nenhum destes acontecimentos estava escrito nos astros. Foi preciso um excepcional concurso de circunstâncias e o detonador de um atentado fortuito de consequências desmesuradas. 
Nesse Verão de 1914, o equilíbrio frágil e complicado da Europa, os arranjos das chancelarias e os cálculos dos homens políticos foram varridos pela conjura de um obscuro grupúsculo de oficiais e de adolescentes de um remoto país balcânico, que não sabiam nada de política internacional e não queriam senão uma coisa: saciar o seu ódio ao Império austro-húngaro."

Dominique Venner, "O Século de 1914 - Utopias, Guerras e Revoluções na Eruropa do século XX", editora Civilização. 



quarta-feira, 25 de junho de 2014

Ser reaccionário (Erik von Kuehnelt-Leddihn)




O Credo do Reacionário (Por Erik von Kuehnelt-Leddihn).


"Pessoalmente, sou um reacionário da fé Cristã Tradicional, com uma perspectiva liberal e com propensões agrárias. Onde tantos ao redor adoram o "novo", eu respeito as formas e as instituições que têm crescido organicamente por um longo período de tempo. Os períodos que precederam as duas grandes tempestades - a Idade Média e a Renascença, terminadas pela Reforma e no século XVIII, terminada pela Revolução Francesa – essas são ricas em formas e ideias de importância duradouras. A universalidade de Nicolas de Cues ou de um Alberto Magno, a glória da Catedral de Chartes e o barroco tardio da Áustria, figuras inspiradoras como a Maria Teresa, Pascal, George Washington ou Leibnitz fascinam-me mais do que os três "homens comuns" do nosso tempo - Mussolini, Stalin e Hitler ou o esplendor democrático de uma loja de departamentos ou o vazio espiritual dos comícios comunistas e fascistas magnetizados por uma multidão em êxtase.

(...)

Como um reacionário, acredito em liberdade, mas não igualdade. A única igualdade posso aceitar é a igualdade espiritual de dois bebês recém-nascidos, independentemente da cor, credo ou raça de seus pais. Não aceito nem o igualitarismo degradante dos "democratas", nem as divisões artificiais do racistas, nem as distinções de classe dos comunistas e esnobes.

Seres humanos são únicos. Eles devem ter a oportunidade de desenvolver suas personalidades -- e isso significa responsabilidade, sofrimento, solidão. Não somente gosto do princípio da monarquia como também gosto de todas as pessoas que são coroadas. E há todos os tipos de coroas, a mais nobre delas, composta por espinhos. O Homem Moderno -- este animal dócil, "cooperativo" e urbanizado -- não é preferência de um reacionário.

Eu acredito na família, na hierarquia natural dentro da família e no abismo natural entre os sexos. Eu amo os velhos cheios de dignidade e pais orgulhosos, mas também adoro crianças corajosas e justas. Em uma hierarquia o membro mais inferior é funcionalmente tão importante quanto o mais elevado. E o abismo entre os homens e as mulheres me parece uma coisa boa também. Não há triunfo na construção de uma ponte sobre uma mera poça.
(...)

O que nós reacionários queremos, é liberdade e a diversidade. Nós acreditamos que existe uma força peculiar na diversidade. St. Estevão, Rei da Hungria, disse a seu filho: "Um reino de apenas uma linguagem e um costume, é tolo e frágil". Isso é contrário a crença supersticiosa demo-totalitária de nossa época da uniformidade. Os fascistas italianos que destruíram todas as instituições culturais de não-italianas. Os Tecnocratas progressistas clamavam que, uma vez que essa guerra chegasse à América, iriam confiscar toda a impressa de língua estrangeira.

Como um reacionário, gosto de patriotas; que ficam entusiasmados com a sua pátria, sua terra natal; e não gosto de nacionalistas, que ficam excitados com sua língua e seu sangue. O reacionário defende a ideia de solo e liberdade, ele luta contra o complexo de sangue e igualdade.

(...)

Hoje, um grupo de genuínos reacionários carregam o peso da luta contra o super-progressismo na sua forma totalitária. Eles sabem que a democracia, como força, não pode lidar com os totalitários; formas embrionárias não podem ter sucesso contra manifestações mais maduras. Platão, de Tocqueville, Donoso Cortes, Burckhardt sabiam disso. A democracia progressista como um pseudo-liberalismo nada mais é que um Girondino, um precursor do Terror.


Entre este punhado estão Winston Churchill e o Conde Galen, Conde Preysing e yon Faulhaber, Niemoller e Georges Bermanos, Giraud e d'Ormesson, Conde Teleki, Calvo Sotelo, Schuschnigg e Edgar Jung. Nenhum deles fez compromisso com a perversidade quer dos Girondinos ou com o Terror em suas formas modernas; vivos ou mortos, eles não iram ceder. Eles não acreditaram necessariamente em um Passado Glorioso em oposição a um Admirável Mundo Novo, mas eles viram as calamidades do presente, crescendo dos erros do passado, nas catástrofes do futuro. Eles estão isolados pela suspeita que os rodeia. Eles são considerados desmancha-prazeres por não entrar na apologia universal do Progresso. Eles se tornaram inflexíveis e apaixonados. Eles vão levar suas bandeiras até a morte, e suas bandeiras são muito antigas, vaidosas e ilustres."

domingo, 22 de junho de 2014

Éclogas de Agora - Afonso Lopes Vieira




(...)
Mordaças não convêm a lusas bocas;
e senão vêde aqueles
grandes zagais antigos,
glórias desta ribeira,
chamados Gil Vicente
e Luís de Camões
e padre António Vieira,
que todos foram bravos,
todos falaram rijo
na Portuguesa Língua forte e clara
ou no paço dos reis
ou no divino Poema
ou na defesa épica de escravos!...
(...)

Éclogas de Agora (2ª) de Afonso Lopes Viera (1º ed., Set-Out., Edição de Autor, 1935) que foram "retiradas da distribuição" pouco depois de publicadas.  

sábado, 21 de junho de 2014

Alfredo Pimenta, Doutrinador de Portugalidade




"Antes de sermos uma nacionalidade, já éramos um Estado, já éramos uma Monarquia. A Nação, isto é, a consciência de um passado comum, de interesses e de aspirações comuns, surgiu mais tarde e foi obra dos seus Reis e da Igreja Católica. Eis porque um doutrinador de Portugalidade, como o foi Alfredo Pimenta, tem de, fatalmente, defender a Igreja e defender a Realeza. Defender a Igreja, primeiro, porque esta representa Deus na terra, e as sociedades humanas nascem, desenvolvem-se e existem, para servir um fim espiritual, ou seja, para servir a Deus. Depois, porque é em Deus que reside a origem do Poder, para a Monarquia hereditária. E, finalmente, porque, como Alfredo Pimenta escreveu, se «foi a espada dum Rei que fez Portugal», fê-lo «por amor da Cruz e para servir a Cruz». E acrescentava: «Português que não seja fiel a esta dupla tradição religiosa e política, é português transviado por influências estrangeiras ao espírito, aos sentimentos e ao sangue de Portugal, seja qual for o seu valor particular».
Defender a Realeza, porque uma Nação não é o dia de hoje, é o que passou e é o que virá, os seus mortos e os seus heróis, a sua saudade e as suas esperanças. E se «o Rei é anterior à Nação», é, também, o representante visível de uma Dinastia, isto é, e ainda empregando uma expressão de Alfredo Pimenta, «o elo vivo e activo que liga o Passado ao Futuro».
Na actividade doutrinária de Alfredo Pimenta, se há, como não podia deixar de ser, um aspecto positivo, há também um aspecto negativo.
As ideias da Revolução penetraram profundamente nos espíritos, dementaram a Nação, foram consagradas nas constituições, o Estado aceitou-as e obedeceu-lhes. Era preciso, pois, antes de mais, destruir todas as suas influências perniciosas e funestas, pôr a nu os seus sofismas e as suas mentiras. Eis o aspecto negativo, importantíssimo como pressuposto de toda a acção positiva.
Era preciso combater o espírito democrático, provar que a Democracia não passa de uma mistificação — aspecto negativo — e opor-lhe a Monarquia Tradicional e o Nacionalismo Integral — aspecto positivo. Era preciso condenar o liberalismo político, estrangulador das nossas regalias municipais e das nossas liberdades profissionais e corporativas, denunciando a burla do Poder que emana da Urna e do Voto, para se lhe opor o Autoritarismo contra-revolucionário. «O homem, munido do papelinho branco, é omnipotente, é omnisciente»? Oiçam, ainda, Alfredo Pimenta: «Um milhão de homens de um lado, outro milhão de homens de outro lado. Empate. Quem vai desempatar? O Pistautira (oh!) que se esquecera de que era o grande dia do Povo Soberano. Vão chamar o Pistautira! E o Pistautira chega, e vota. E desempata... Quem foi omnipotente? Quem foi omnisciente? O Pistautira...»
Foi, assim, orientada nestes dois aspectos, a acção doutrinária de Alfredo Pimenta: desfazer os mitos e refazer as realidades, combater os desvios nefastos e apontar o caminho verdadeiro. Numa época desorientada e quase demente, a sua palavra firme, de razão e coerência, foi como fio de água límpida onde irão sempre refrescar-se os que estejam fartos de malabarismos e tenham sede de verdade e de raciocínios claros.
E, para terminar, duas palavras mais. Apenas duas.
Há homens de quem se pode dizer, em verdade, que valeu bem a pena terem passado neste mundo, quanto mais não fosse, ou que mais não valessem, pelo exemplo que deixaram. Alfredo Pimenta pertence incontestavelmente, a esta categoria.
Está, ainda, fresca a terra da sua sepultura. Ainda não cessaram, à volta do seu nome, os ódios e os despeitos. Rugem, ainda, as vozes de rancor. Mas nem os ódios, por mais ferozes, nem os despeitos, por mais ignóbeis, nem o rancor, por mais repugnante, conseguirão, de forma alguma, diminuir a memória do homem, cuja vida foi magnífica lição de carácter, de coragem e desassombro; cuja vida foi exemplo verdadeiro de trabalho exaustivo, de estudo sério e consciente. 
Uma vida inteira dedicada ao serviço da Verdade, à Cultura do seu País, ao combate leal pelas suas ideias, à ternura e ao carinho do seu lar. Há ideal mais belo? Há exemplo melhor, agora, que o carácter é feito de transigências, de falsificações e de renúncias? Há exemplo melhor, agora, que a coragem e o desassombro dependem da maior ou menor capacidade do cordão umbilical? Há exemplo melhor, nestes tempos, em que a Verdade anda arrastada pelas ruas da amargura, mutilada e esquecida ?"

Júlio Evangelista, "Alfredo Pimenta Doutrinador de Portugalidade" 

(1 — Discurso proferido na homenagem ao Dr. Alfredo Pimenta, promovido pela Junta Escolar Monárquica do Porto, em 28 de Abril de 1951)

(Publicado in «Gil Vicente», vol. II — 2.ª série, págs. 185/195, nº 11/12, Novembro/Dezembro de 1951)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

«Uma República com um Rei»:








"A partir de 1834, o título de liberal foi reclamado por gente que queria coisas muito diversas. Uns, mais conservadores, estavam sobretudo em garantir aos indivíduos uma esfera de autonomia privada sob o império da lei. Outros, mais revolucionários, desejavam principalmente destruir a cultural tradicional, dinástica e católica. Havia quem visse os dois projectos como complementares: como garantir a autonomia individual, sem destruir uma ordem que submetera os indivíduos ao rei e aos padres? Mas também havia quem quem notasse a contradição: como garantir a autonomia individual, quando o estado se propunha a alterar o modo de vida e as crenças dos indivíduos?


Surgiram assim uma esquerda e uma direita liberais. A direita tentou reforçar a componente monárquica e religiosa do estado liberal, de acordo com a Carta Constitucional de 1826. Falhou, porque não podia apelar para as forças socialmente mais conservadoras, comprometidas no miguelismo. O estado liberal acabou por resvalar para a esquerda. A esquerda desistiu da revolução violenta, mas não da revolução gradual. Apesar das resistências da direita, o liberalismo português foi-se identificando com o reformismo igualitarista e populista. (...) O Reino de Portugal adquiriu assim características singulares na Europa. Entre as monarquias, era aquela onde a nobreza titular menos relevância tinha na vida pública, e onde as defesas da ortodoxia religiosa eram menores. O princípio monárquico não correspondia de facto a uma verdadeira cultura de fidelidade dinástica. Portugal era, como muitos diziam, «uma república com um rei». Por isso, quando veio a república no sentido literal da palavra, em 1910, pôde ser inicialmente recebida por muitos como a consequência lógica do estado liberal. O 5 de Outubro começara em 1833." 






- Rui Ramos, "Outra Opinião - Ensaios de História", O Independente, Lisboa, 2004.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

D. Carlos




"D.Carlos não era de modo nenhum um indolente. O excesso de peso nunca lhe diminuiu a energia e a actividade. Tratava da sua própria toillette, como qualquer “burguês” sem recurso a criados: era ele mesmo que se barbeava e preparava o banho. Dispensou sempre que o vestissem ou calçassem. Quando em Lisboa, a primeira coisa que fazia de manhã era examinar, na companhia do seu secretário, o conde de Arnoso, os documentos que lhe tinham chegado dos ministérios. Depois, pintava ou praticava desporto. À tarde, se o tempo estivesse bom, ia ver «a rapaziada» (como ele dizia), isto é, passear na Baixa de Lisboa, no seu fréton atrelado a dois cavalos de Alter. Escolhia a hora em que as equipagens da gente elegante apareciam entre a Praça dos Restauradores e o Campo Grande. Não levava escolta, apenas um ajudante-de-campo. O percurso era sempre o mesmo: «descia vagarosamente o Chiado, subia a Avenida da Liberdade e regressada às Necessidades». Durante o Inverno, em Lisboa, frequentava à noite os teatros, especialmente a opera de São Carlos, ponto de reunião da “alta sociedade”, e a zarzuela do teatro D. Amélia (depois Sao Luís). Por volta das 11, recolhia aos seus aposentos para tratar da correspondência e ler jornais. Segundo um cortesão, «lia tudo, até a “Medicina Contemporânea”. » E não lhe escapava «uma notícia, um local, insignificante que seja!» Deitava-se quase sempre por volta das 2 horas da manhã, mas às 7 já estava de pé. Dormia pouco: «cinco horas [de sono] eram para ele suficiente repouso»." 
- Rui Ramos, "D.Carlos", colecção "Reis de Portugal", Círculo de Leitores, 2006.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Dia de Portugal


"Morro, mas morro com a pátria" (Camões)


CAMÕES NO SEU LEITO DE MORTE

F. Monteiro - Paris, 1883.

Dimensões: Alt. 1200 mm X 1630 mm Larg.
Óleo, sobre tela de linho.
Representa Camões, no seu leito de morte expirando ante o olhar dum amigo que o contempla, respeitoso. Um sacerdote, por trás do leito, faz menção de retirar-se, depois de cumprida a sua missão.

domingo, 8 de junho de 2014

Qual é o regime perfeito?



King with sword and a pair of scales (Justice), chancellor and noblemen. Le Livre de l'information des princes. Translation from the Latin by Jean Golein. Place of origin, date: Paris, Master of Étienne Sanderat de Bourgogne (illuminator); 1453.


Le Livre de l'information des princes (1453). O rei, empunhando a espada e a balança, simbolizando a justiça e a ordem, ao seu lado o Chanceler e a nobreza, imagem próxima à ideia de Monarquia Temperada, na acepção de São Tomás de Aquino. Argumenta que o homem será mais bem governado pelo rei, i.e., defende o "governo de um só", em oposição ao "governo de muitos" (in, "Do Governo dos Príncipes", São Tomás de Aquino). Considera, pois, a monarquia e a aristocracia, porque o fundamento da democracia está aí formulado. No pensamento de São Tomás a mono-arquia será a melhor das formas de governo, não obstante, concebe a "organização dos poderes", na mesma linha de Aristóteles, entre os quais, "os mais notáveis são a realeza, ou 'dominação dum só segundo a virtude', a aristocracia, isto é, o 'governo dos melhores', ou 'dominação de um pequeno número segundo a virtude'." O regime misto seria a súmula destes regimes: "Eis portanto a melhor organização para o governo duma cidade ou de um reino: à cabeça está colocado, em razão da sua virtude, um chefe único. Evidentemente, a multidão não é estranha ao poder assim definido, todos têm a possibilidade de ser eleitos e eleitores. Esse é o regime perfeito, uma mistura de monarquia, pela preeminência dum só, de aristocracia pela multiplicidade de chefes virtuosamente qualificados, de democracia ou de poder popular, pelo facto que simples cidadãos poderem ser escolhidos como chefes e que a escolha dos chefes pertence ao povo” (São Tomás de Aquino). 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Monarquia e o não-assunto dos orçamentos





O debate dos orçamentos entre República e monarquia é talvez o mais comum, com o bom republicano constantemente a pregar a humildade e, quando muito, a austeridade do regime, argumentos que apenas correspondem ao folclore de certa propaganda jacobina, habituados a encontrar ilustrações plausíveis ao seu ódio pela instituição monárquica em exemplos refinados como a distante corte de Versalhes ou nas excentricidades dos Czares, na opulência do Palácio de Inverno, sem atender a realidades mais concretas.

Exemplos que os republicanos desconhecem, como Oscar da Prússia, filho de Guilherme II, homem de hábitos simples e verdadeiramente austero, viajava sempre em terceira classe. Uma vez, quando questionado sobre este seu modo de vida respondeu: "Não quero viver melhor do que qualquer dos meus soldados" (a descrição é feita por August von Kageneck, no seu livro "Lieutenant de Panzer").

Ou mesmo quem ler as memórias de Marion Donhoff, uma aristocrata prussiana nascida no castelo de Friedrichstein, pode constatar numa mesma acepção. No livro "Une enfance en Prusse-Orientale" Marion Donhoff descreve a educação severa, cheia de proibições, mas também a aptidão que tinham para as desafiar, ao mesmo tempo, a força dos laços que uniam os senhores aos servidores (cai por terra neste trecho o mito marxista da luta de classes, e note-se que Dunhoff além de aristocrata era uma mulher de esquerda, não tivesse sido ela uma das fundadoras do semanário liberal de esquerda "Die Zeit"), um mundo onde a nobreza tem tantos privilégios como consideráveis deveres, onde está banida a servidão do dinheiro. Danhoff resume numa frase esse estilo de vida: "uma mistura de despesas ostentatórias e de simplicidade espartana no dia a dia".

Otto von Habsburgo também recordava no seu livro "Mémoires d'Europe, Entretiens avec Jean-Paul Picaper", essa austeridade comum, a negação da ostentação, o sentido do dever e de respeito: "A minha avó materna tinha educado a minha mãe e os irmãos e irmãs segundo métodos quase espartanos, e essa tradição manteve-se em nossa casa. As recordações que me foram transmitidas não eram de brincadeiras nos palácios nem de festas brilhantes para jovens ociosos (...) a minha mãe e a minha avó do que falavam era de trabalho, trabalho e mais trabalho. Os estudos eram muito severos e, além disso, as crianças das família real tinham de coser, remendar e arranjar a sua própria roupa, incluindo as meias, e fazer o mesmo à das pessoas idosas ou doentes da aldeia onde viviam. (...)".
Claro que nem tudo era austeridade, um dos sobrinhos de Francisco José era conhecido como devasso e gastador, em oposição ao seu filho Carlos de Habsburgo-Lorena, esse sim homem de dever, com o verdadeiro espírito do soldado, que se tornará imperador em 1916.

Estes são talvez exemplos que faltem à lógica republicana. A diferença está entre uma Instituição antiga e enraizada na tradição do povo, que compreende o seu sentido de dever e fidelidade, face ao poder dos banqueiros, do novo-riquismo exibicionista, o individualismo das sociedades hodiernas cada vez mais corruptor, à ânsia de poder e falta de escrúpulos dos políticos que invadem o espaço mediático e fazem da política um circo.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Juan Carlos abdicou, a monarquia continua

"Hoy, cuando vuelvo atrás la mirada, no puedo sino sentir orgullo y gratitud hacia vosotros. Orgullo, por lo mucho y bueno que entre todos hemos conseguido en estos años. Y gratitud, por el apoyo que me habéis dado para hacer de mi reinado, iniciado en plena juventud y en momentos de grandes incertidumbres y dificultades, un largo período de paz, libertad, estabilidad y progreso." - discurso de abdicação do Rei Juan Carlos.