segunda-feira, 17 de março de 2014

O Barbeiro da Sibéria



O filme "O Barbeiro da Sibéria", do cineasta russo Nikita Mikhalkov, não deixa de ser relevante e simbólico. O cineasta Nikita Mikhalkov é um antigo dissidente soviético, monárquico convicto, um dos defensores de Vladimir Putin. É um artista de grandes qualidades e méritos, aliás, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1994, com o filme "O Sol Enganador”. 
Na sua arte incide de forma incisiva na crítica à modernidade, ao isolamento do homem nas sociedades hodiernas, a falência dos regimes políticos ocidentais (a crítica às democracias). Porém é na recriação histórica que Mikhalkov é exímio, comprovando particularmente a beleza de "O Barbeiro da Sibéria". Além do drama romântico, também o conflito de mundos e de civilizações: o Ocidente que descobre o mistério profundo da Rússia, simbolicamente representado na paixão entre uma americana, Jane Callagha, e um jovem cadete russo, Andrei Tolstoy, demonstrando as dualidades de carácter e de sentimento, as suas dúvidas e apreensões, até aqui o mero drama, a mais singela das historias, porém supera-o, e extravasa-o, vai de encontro às próprias características do povo russo, os seus excessos, o enaltecimento do simbolismo, o lado mítico, por vezes um certo dogmatismo, quando muito o exagero (como Berdiavec também indicava), são estes elementos próprios e característicos, não despiciente à obra de Mijhalkov. 
A comprovar o seu monarquismo sugere a parada militar, quando os cadetes gritam Hurrah!, ao Czar, seguidamente acompanhado pelo hino da Rússia, "Deus Salve o Czar", por curiosidade é o próprio Mikhalkov quem interpreta o Czar Alexandre III, junto a si transporta o filho grão-duque Miguel, irmão do Czarevich Nicolau - futuro Nicolau II. O Grão-duque Miguel seria assassinado em 1918 pelos bolcheviques. É a prossecução da história, a sua dinâmica, mormente enaltecendo uma época de glória da Rússia, época que, num espaço de décadas, entraria em crise, mas essa é uma memória nossa conhecida e apenas deduzida pela sequência dos acontecimentos apresentada pelo artista, este preferirá submergir na dimensão ideal enquanto manifesto a uma redescoberta do mais profundo e mítico passado pátrio. "O Barbeiro da Sibéria" fica como uma referência.



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