domingo, 2 de março de 2014

Algumas notas sobre a Rússia




"Durante muito tempo, a propaganda soviética, repetida em França por uma historiografia servil, deformou a realidade da Rússia de antes da Revolução, apresentada como um sombrio universo de atraso. É certo que que o passado da Rússia não era o da Inglaterra ou da Alemanha, e era titânica a tarefa de preencher uma distância multissecular provocada nomeadamente por uma prolongada dominação mongol. A nobreza russa não beneficiou da tradição das liberdades feudais e nunca exerceu as funções senhoriais de justiça e de protecção que caracterizam as outras nobrezas europeias. As posições e os bens que detém dependem do arbítrio do Czar, que é, no sentido próprio da palavra, um autocrata, único detentor de todos os poderes, que só tem como correia de transmissão junto das massas camponesas, acabadas de sair da servidão, a burocracia e a Polícia. No entanto, a partir de finais do século XIX, os ministros do Czar iniciaram reformas rápidas e profundas em todos os domínios.
A Rússia bateu assim, entre 1898 e 1913, todos os recordes mundiais de crescimento industrial com uma taxa de 10% ao ano. Esse desenvolvimento será, de resto, uma das causas das perturbações sociais que conduzirão à situação revolucionária de 1917. O esforço mais espectacular foi o realizado na construção de caminhos-de-ferro. (...)
Desde fins do século XIX, a população do império tinha-se multiplicado de forma fulgurante. Nos dez anos que precederam a guerra, passou de 125 para 167 milhões de habitantes. Com uma taxa de 18 por mil, o seu crescimento é o mais elevado do continente europeu. Em 1913, prevê-se que, por volta de 1980, a população seja de cerca de 350 milhões de habitantes. (...)
Ao longo de dúzias de anos (1892-1903) durante os quais o conde de Serge de Witte domina a vida política russa, são lançado gigantescos empréstimos, subscritos nomeadamente por muitos aforradores franceses, que permitem financiar as obras públicas. O seu sucessor depois dos distúrbios revolucionários de 1905-1906, Pierre Stolypine, empreende por seu lado uma vasta reforma destinada a atribuir aos camponeses a propriedade da terra. Se não tivesse sido interrompida pela guerra e a revolução teria modificado de alto a baixo a sociedade russa. Denunciados como kulaks (camponeses ricos), os beneficiários das reformas agrárias serão mais tarde sistematicamente massacrados pelos bolcheviques."

Dominique Venner, "O Século de 1914 - Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX", Civilização Editora, 2006.

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