quinta-feira, 27 de março de 2014

Austria-Hungria, a Monarquia Dual.



Pátria de muitas pátrias (do seu cadáver nasceriam muitas das nações da actual Europa), o Império Austro-Húngaro edificou-se em torno do compromisso entre Viena e Budapeste, a "Dupla Monarquia", Imperial e Real, cruzando espaços distintos, entre culturas tão discrepares, e territórios que, mal sucumbida a coroa, edificariam fronteiras entre si, desde o norte da Itália à Ucrânia, alcançando as montanhas da Transilvânia, 50 milhões de súbditos pertencentes a onze nacionalidades diferentes. O seu imperador, Francisco José qualificava-se como um "Monarca da velha guarda", na longa vida deste soberano encontramos traços do drama romântico, desde assassinatos e conspirações, dramas passionais e desentendimentos familiares, culminando por fim no drama de Sarajevo que conduzirá o continente europeu para o desastre. 

Mas o império é também fonte de equilíbrio entre as nações da velha Europa e a sua cultura é fonte de inspiração para o ocidente. A sociedade do Império é composta por uma elite que remonta ao feudalismo. Porém, desgastada pelos séculos, a antiga elite procurará sangue novo entre banqueiros e industriais, mormente, desde o exército à burocracia, a pequena nobreza vai ganhando influências. 

Francisco José mantinha a unidade entre territórios tão hostis entre si. O velho Imperador era um homem austero e digno, tradicionalista, verdadeiramente majestático, porém desentendido com o herdeiro, o arquiduque Francisco Fernando, idealista e "revolucionário pelo topo" , não que possamos qualificá-lo como liberal, porém aristocrata e militar, aproximava-se do jeito prussiano de Bismarck, se tivesse sobrevivido àquele dia fatídico na rua de Sarajevo a história da Europa teria sido, com toda a certeza, muito diferente.

Mas as tensões do século sentiam-se, particularmente num Império que dentro das suas fronteiras procurava amenizar as tensões e exaltações cada vez mais tendentes ao fanatismo. Equívocos, fatalidades, enganos, fanatismo ou inconsciência, a Europa prepara-se em 1914 para um conflito relativamente ao qual não compreende a dimensão, os dirigentes políticos, desde São Petersburgo a Viena, são incapazes de medir conscientemente os acontecimentos. Francisco José, o velho Imperador é um homem velho e cansado, na restante Europa o cenário político não é melhor. A "Dupla monarquia" conheceria o seu desfecho final após quatro anos de guerra. 



domingo, 23 de março de 2014

Maria José Nogueira Pinto - "Nada me faltará"

Maria José Nogueira Pinto faria hoje 62 anos de idade, uma vida invulgar, como oportunamente a biografia de Maria João da Câmara veio revelar. Uma mulher destemida, que soube lutar pelo que acreditava, corajosa até ao fim. Deixo aqui as últimas palavras, o seu último texto, testamento de esperança e alegria de ter permanecido fiel aos seus princípios, às suas causas, na comunhão com a civitas, porque é na cidade que se combate pela coisa pública e pelos interesses da comunidade. [Nota]



1952-2011


Acho que descobri a política - como amor da cidade e do seu bem - em casa. Nasci numa família com convicções políticas, com sentido do amor e do serviço de Deus e da Pátria. O meu Avô, Eduardo Pinto da Cunha, adolescente, foi combatente monárquico e depois emigrado, com a família, por causa disso. O meu Pai, Luís, era um patriota que adorava a África portuguesa e aí passava as férias a visitar os filiados do LAG. A minha Mãe, Maria José, lia-nos a mim e às minhas irmãs a Mensagem de Pessoa, quando eu tinha sete anos. A minha Tia e madrinha, a Tia Mimi, quando a guerra de África começou, ofereceu-se para acompanhar pelos sítios mais recônditos de Angola, em teco-tecos, os jornalistas estrangeiros. Aprendi, desde cedo, o dever de não ignorar o que via, ouvia e lia.
Aos dezassete anos, no primeiro ano da Faculdade, furei uma greve associativa. Fi-lo mais por rebeldia contra uma ordem imposta arbitrariamente (mesmo que alternativa) que por qualquer outra coisa. Foi por isso que conheci o Jaime e mudámos as nossas vidas, ficando sempre juntos. Fizemos desde então uma família, com os nossos filhos - o Eduardo, a Catarina, a Teresinha - e com os filhos deles. Há quase quarenta anos.
Procurei, procurámos, sempre viver de acordo com os princípios que tinham a ver com valores ditos tradicionais - Deus e a Pátria -, mas também com a justiça e com a solidariedade em que sempre acreditei e acredito. Tenho tentado deles dar testemunho na vida política e no serviço público. Sem transigências, sem abdicações, sem meter no bolso ideias e convicções.
Convicções que partem de uma fé profunda no amor de Cristo, que sempre nos diz - como repetiu João Paulo II - "não tenhais medo". Graças a Deus nunca tive medo. Nem das fugas, nem dos exílios, nem da perseguição, nem da incerteza. Nem da vida, nem na morte. Suportei as rodas baixas da fortuna, partilhei a humilhação da diáspora dos portugueses de África, conheci o exílio no Brasil e em Espanha. Aprendi a levar a pátria na sola dos sapatos.
Como no salmo, o Senhor foi sempre o meu pastor e por isso nada me faltou -mesmo quando faltava tudo.
Regressada a Portugal, concluí o meu curso e iniciei uma actividade profissional em que procurei sempre servir o Estado e a comunidade com lealdade e com coerência.
Gostei de trabalhar no serviço público, quer em funções de aconselhamento ou assessoria quer como responsável de grandes organizações. Procurei fazer o melhor pelas instituições e pelos que nelas trabalhavam, cuidando dos que por elas eram assistidos. Nunca critérios do sectarismo político moveram ou influenciaram os meus juízos na escolha de colaboradores ou na sua avaliação.
Combatendo ideias e políticas que considerei erradas ou nocivas para o bem comum, sempre respeitei, como pessoas, os seus defensores por convicção, os meus adversários.
A política activa, partidária, também foi importante para mim. Vivi--a com racionalidade, mas também com emoção e até com paixão. Tentei subordiná-la a valores e crenças superiores. E seguir regras éticas também nos meios. Fui deputada, líder parlamentar e vereadora por Lisboa pelo CDS-PP, e depois eleita por duas vezes deputada independente nas listas do PSD.
Também aqui servi o melhor que soube e pude. Bati- -me por causas cívicas, umas vitoriosas, outras derrotadas, desde a defesa da unidade do país contra regionalismos centrífugos, até à defesa da vida e dos mais fracos entre os fracos. Foi em nome deles e das causas em que acredito que, além do combate político directo na representação popular, intervim com regularidade na televisão, rádio, jornais, como aqui no DN.
Nas fraquezas e limites da condição humana, tentei travar esse bom combate de que fala o apóstolo Paulo. E guardei a Fé.
Tem sido bom viver estes tempos felizes e difíceis, porque uma vida boa não é uma boa vida. Estou agora num combate mais pessoal, contra um inimigo subtil, silencioso, traiçoeiro. Neste combate conto com a ciência dos homens e com a graça de Deus, Pai de nós todos, para não ter medo. E também com a família e com os amigos. Esperando o pior, mas confiando no melhor.
Seja qual for o desfecho, como o Senhor é meu pastor, nada me faltará.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O Barbeiro da Sibéria



O filme "O Barbeiro da Sibéria", do cineasta russo Nikita Mikhalkov, não deixa de ser relevante e simbólico. O cineasta Nikita Mikhalkov é um antigo dissidente soviético, monárquico convicto, um dos defensores de Vladimir Putin. É um artista de grandes qualidades e méritos, aliás, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1994, com o filme "O Sol Enganador”. 
Na sua arte incide de forma incisiva na crítica à modernidade, ao isolamento do homem nas sociedades hodiernas, a falência dos regimes políticos ocidentais (a crítica às democracias). Porém é na recriação histórica que Mikhalkov é exímio, comprovando particularmente a beleza de "O Barbeiro da Sibéria". Além do drama romântico, também o conflito de mundos e de civilizações: o Ocidente que descobre o mistério profundo da Rússia, simbolicamente representado na paixão entre uma americana, Jane Callagha, e um jovem cadete russo, Andrei Tolstoy, demonstrando as dualidades de carácter e de sentimento, as suas dúvidas e apreensões, até aqui o mero drama, a mais singela das historias, porém supera-o, e extravasa-o, vai de encontro às próprias características do povo russo, os seus excessos, o enaltecimento do simbolismo, o lado mítico, por vezes um certo dogmatismo, quando muito o exagero (como Berdiavec também indicava), são estes elementos próprios e característicos, não despiciente à obra de Mijhalkov. 
A comprovar o seu monarquismo sugere a parada militar, quando os cadetes gritam Hurrah!, ao Czar, seguidamente acompanhado pelo hino da Rússia, "Deus Salve o Czar", por curiosidade é o próprio Mikhalkov quem interpreta o Czar Alexandre III, junto a si transporta o filho grão-duque Miguel, irmão do Czarevich Nicolau - futuro Nicolau II. O Grão-duque Miguel seria assassinado em 1918 pelos bolcheviques. É a prossecução da história, a sua dinâmica, mormente enaltecendo uma época de glória da Rússia, época que, num espaço de décadas, entraria em crise, mas essa é uma memória nossa conhecida e apenas deduzida pela sequência dos acontecimentos apresentada pelo artista, este preferirá meditar nas grandezas passadas enquanto manifesto a uma redescoberta do mais profundo e mítico passado pátrio. "O Barbeiro da Sibéria" fica como uma referência.



segunda-feira, 10 de março de 2014

Retratos de um Império



Sergei Prokudin-Gorski, 1912


Ninguém melhor do que Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii (1863-1944) para captar a diversidade do Império Russo, as diferentes etnias e tradições que constituíam o mosaico cultural do império.
Descobre-se um mundo pré-guerra mundial, a alguns anos da revolução ainda, esplendoroso nas tradições, as quais são formas perfeitamente reconhecíveis, comprovando talvez um certo dualismo comum à alma russa, ora a modernização acelerada, ora a intransigência face à mesma e o profundo enraizamento na tradição, um mundo ainda agarrado à sua força espiritual, ao seu simbolismo, o dogmatismo, por vezes o exagero, como um certo Berdiavec também indicava. 
Império de grandes riquezas, mas também de grandes misérias, rural e retrógrado, ou industrializado e moderno, autocrático e despótico, ou lentamente aceitando a abertura ao liberalismo político, ainda que agarrado à autocracia, mas preparado para ir de encontro aos desígnios políticos do mundo moderno. São acusações e elogios, divisões políticas e sectárias que analisam, cada uma à sua maneira, as grandes mutações da época. 
O certo é que Prokudin-Gorskii fotografa os resquícios do mundo antigo, viajando por um Império que desde Nicolau I e Alexandre II se transformava... 
Dez anos antes do começo da Primeira Grande Guerra, a população do império passava de 125 para 167 milhões de habitantes. É também a época em que são financiadas as grandes obras públicas, com um crescimento industrial de 10% ao ano (como indicou Georges Sokoloff em "La pruissance pauvre, une histoire de le Russie de 1815 à nos jours").
Entre os anos 1905 a 1906, o ministro do Czar, Pierre Stolypine empreende uma reforma profunda nas propriedades, permitindo a muitos camponeses adquirir terras, são os "kulaks" (camponeses ricos) que depois os bolcheviques tratarão de matar. 
O período anterior à revolução conhece um seu momento áureo, é uma época de grande florescimento intelectual e artístico com nomes como Dostoievski, Tolstoi, Tchaikovski, aos quais sucederá uma nova geração de artistas: Scriabine, Stravinsky, Biély, Blok, Bunine, Briussov, a mesma época em que Paris descobre o ballet russo, desenvolvido por Diagegilev, criador dos "Ballets Russes", esta arte aristocrática floresceu nas últimos anos do império graças ao patrocínio dos Romanov. 
O crescimento do Império Russo era tão impressionante que um reputado economista francês, Edmon Théry, escreveu, em 1914, na sua obra "Transformation économique de la Russie": "Se entre 1912 e 1950 as coisas se passarem nas grandes nações europeias como acabam de se passar entre 1900 e 1912, em meados do presente século a Rússia dominará a Europa tanto do ponto de vista político como do ponto de vista económico e financeiro."



domingo, 9 de março de 2014

Rússia, na alvorada do século





Uma rara gravação onde se ouve a voz do Czar Nicolau II, é interessante notar que nos gritos de "Hurrah Hurrah!" ouve-se também a voz de uma criança, talvez do Tsarevich Alexei Nikolaevich, seguindo-se a orquestração com toda a pompa, são ovações de um império ainda sólido e de elites confiantes. Debaixo da autocracia do Czar as transformações aceleravam, a sociedade transformava-se, ainda que se descobrissem grandes antagonismos entre as classes possidentes e aqueles mais desfavorecidos - porém, não se compare: desde meados do século XIX mais de 23 milhões de pessoas tinham alcançado a liberdade graças ao fim da servidão, permitindo também que milhões consigam (e venham a conseguir) adquirir terras. Graças às grandes reformas, perpetradas desde a era de Alexandre II, o Czar liberal, até Pierre Stolypine, o ministro de Nicolau II, o grande reformador das propriedades, a paisagem do império transforma-se, dinamiza-se, o crescimento económico impressiona as nações ocidentais, e o poder do Czar está bem sedimentado e enraizado entre a população, e apenas as novas tendências intelectuais, as influências que desde Napoleão e a descoberta, por uma certa elite russa (a inteligentsia que constitui também uma categoria social), das novas ideias vindas da França, primeiro, e, mais atarde, com a divulgação do socialismo, vão por em causa. Não fosse um século dramático, com um Czar amável, mas fraco face ao cataclismo que se avizinhava, a história da Rússia podia ter sido bem diferente. 









domingo, 2 de março de 2014

Algumas notas sobre a Rússia




"Durante muito tempo, a propaganda soviética, repetida em França por uma historiografia servil, deformou a realidade da Rússia de antes da Revolução, apresentada como um sombrio universo de atraso. É certo que que o passado da Rússia não era o da Inglaterra ou da Alemanha, e era titânica a tarefa de preencher uma distância multissecular provocada nomeadamente por uma prolongada dominação mongol. A nobreza russa não beneficiou da tradição das liberdades feudais e nunca exerceu as funções senhoriais de justiça e de protecção que caracterizam as outras nobrezas europeias. As posições e os bens que detém dependem do arbítrio do Czar, que é, no sentido próprio da palavra, um autocrata, único detentor de todos os poderes, que só tem como correia de transmissão junto das massas camponesas, acabadas de sair da servidão, a burocracia e a Polícia. No entanto, a partir de finais do século XIX, os ministros do Czar iniciaram reformas rápidas e profundas em todos os domínios.
A Rússia bateu assim, entre 1898 e 1913, todos os recordes mundiais de crescimento industrial com uma taxa de 10% ao ano. Esse desenvolvimento será, de resto, uma das causas das perturbações sociais que conduzirão à situação revolucionária de 1917. O esforço mais espectacular foi o realizado na construção de caminhos-de-ferro. (...)
Desde fins do século XIX, a população do império tinha-se multiplicado de forma fulgurante. Nos dez anos que precederam a guerra, passou de 125 para 167 milhões de habitantes. Com uma taxa de 18 por mil, o seu crescimento é o mais elevado do continente europeu. Em 1913, prevê-se que, por volta de 1980, a população seja de cerca de 350 milhões de habitantes. (...)
Ao longo de dúzias de anos (1892-1903) durante os quais o conde de Serge de Witte domina a vida política russa, são lançado gigantescos empréstimos, subscritos nomeadamente por muitos aforradores franceses, que permitem financiar as obras públicas. O seu sucessor depois dos distúrbios revolucionários de 1905-1906, Pierre Stolypine, empreende por seu lado uma vasta reforma destinada a atribuir aos camponeses a propriedade da terra. Se não tivesse sido interrompida pela guerra e a revolução teria modificado de alto a baixo a sociedade russa. Denunciados como kulaks (camponeses ricos), os beneficiários das reformas agrárias serão mais tarde sistematicamente massacrados pelos bolcheviques."

Dominique Venner, "O Século de 1914 - Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX", Civilização Editora, 2006.