sábado, 27 de dezembro de 2014

HENRIQUE DE PAIVA COUCEIRO




Em nome do Senhor aqui o emprazo
p'ra que se mostre aos homens outra vez!.
(Do soneto - Na catedral de Toledo - A. Sardinha")

Da raça, a dupla essência.. ei-la integral!
(De Nun'Alvares a fé batalhadora;
do infante a esperança redentora:
relâmpagos de sol sobre o metal!)

É a estátua da Honra... em pedestal;
de uma tão alta glôria imorredoura
que, se como a Verdade oculta fôra,
irradiava luz como um cristal.

A dignidade, o brio sempre a pé;
incarnação da esperança e dessa fé
que não verga a vexames nem desfeitas!

... É o Alcaide, que a muitos causa mêdo,
porque guarda essas chaves que a Toledo
foi levar o leal Martim de Freitas!


Sentinelas no além
(Na segunda edição, depois da morte do heroi)

-Morreu Martim de Freitas outra vez,
Paladino do Rei e do Seu trono!-
...Das torres do Escudo Português,
as chaves ficarão ao abandono?

-Das torres, a poterna embora aberta,
já nenhum inimigo as entrará;
-A alma de Mousinho brada: - Alerta!"
- Responde a de Couceiro: - Alerta está!
C. de A.

in "Um soneto: respeitosa homenagem a um só neto", 1944.
Soneto do Conde de Alvelos, Francisco Perfeito de Magalhães e Menezes de Villas-Boas

com a devida vénia ao blog Pretérito Perfeito 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Ernst Jünger

Documentário alemão "Neunzig Verweht - der Schriftsteller Ernst Jünger", sobre a vida e obra de Ernst Jünger, legendado em inglês. 




sábado, 20 de dezembro de 2014

À Pátria - Vianna da Motta

“A Sinfonia em lá maior "À Pátria" é uma página de um elevado simbolismo, uma síntese luminosa e profundamente sugestiva dum momento histórico determinado; o autor, representando o momento de crise em que a pátria parece soçobrar, fá-la ressurgir de novo para uma vida gloriosa num como rejuvenescimento da alma nacional. Ela divide-se em quatro tempos, os da forma clássica do modelo beethoveniano, tendo cada um a sua significação própria”. - António Arroyo




José Vianna da Motta - Symphony in A major, "A Patria" (1908)

sábado, 13 de dezembro de 2014

Ignorância Republicana e Confusões Monárquicas




Num momento de frémito fui confrontado com o facto de me assumir como monárquico. A verdade é que nas insignificantes conversas de café em que a política vem sempre à baila tornou-se imperioso um ajuste de contas. Defendi-me desajeitadamente. E, conhecendo a minha tendência para os deslizes argumentativos, aguardava já o ridículo. Mea culpa, por não conseguir justificar a instituição monárquica sem cair em lugares-comuns. Mas a verdade é que os meus republicaníssimos interlocutores não faziam melhor figura. 

Os meus bons amigos republicanos nunca ousaram citar um autor republicano, apresentar argumentos ponderosos, exemplificar na história, refutar no Direito, pensar num perspectiva filosófica. Em suma: ausência de conhecimento. 

Com um sorriso amargo saboreio a doce ignorância: ausência de biblioteca, de leitura, de estudo. Procuro extrair o mínimo de conhecimento, da parte rival, “autoproclamada” de republicana, e não encontro. Como defendem então os republicanos a inverosimilhança daquele sistema? Simples, não defendem. Os republicanos, de certa forma, atacam com a “Dialéctica Eiristica”, de que falava Schopenhauer, de modo a tentar convencer que “2 + 2 = 5”. Um exemplo comum: “as repúblicas são democráticas porque qualquer cidadão pode ocupar a alta chefia do Estado, logo as repúblicas são melhores.” Ou então: “as repúblicas são mais igualitárias”, mas porquê? porque sim! As Repúblicas são mais justas do que as monarquias, e porquê? Porque sim! (respondem eles). Nesta falácia ad hominem, ou ad absurdum, apresentado paradoxos de forma abusiva. Está assim demonstrado o terreno infértil dos argumentos dos defensores da república. 

Afinal, atacam com as acusações copiadas aos taberneiros carbonáreos do século XIX: ora porque a monarquia é o poder de uma família, ora porque é arcaica, ora porque vive das tradições (sempre num circundar de acusações falaciosas ad hominem). Veja-se como as três acusações que extrai dos argumentos dos meus amigos-adversários era sintomático do vácuo intelectual em que vivemos. Conceitos como tradição, pátria, costume, sao renegados,  ou rapidamente manipulados para instigar o ódio. O que não admira, dado o atrofio mental que o próprio ensino nacional provoca. O marxismo-cultural empederniu toda uma geração de estupidez e o politicamente correcto lá está, fervilhando de animosidade. Não faltaram olhares de ironia provocatória, indiferença, suspiros, os velhos gracejos. 

O descalabro da discussão deveu-se em grande parte à minha falta de cuidado nas proposições e no arranjo do discurso. Sinto alguma dificuldade em justificar a monarquia, porque para o fazer dependo de um constante arsenal de informação e de conhecimento que os meus interlocutores nem sempre estão dispostos a ouvir, por isso também não me esforço muito. Ao falar no Integralismo Lusitano, grande parte dos meus amigos apenas consegue revolver os olhos na indiferença sem perceber do que estou a falar. Falar de doutrinadores monárquicos ou de batatas saí igual ao litro. 

Citar qualquer autor monárquico é impensável na medida do desconhecimento profundo que grassa - quando muito, mesmo os próprios monárquicos desconhecem os autores da monarquia. Lembrar Charles Maurras é, na verdade, um exercício que conduz a risinhos e escárnio, face a um nome obscuro que à juventude empedernida em telenovelas e em revistas “Maria” pouco simboliza. 

Já constatei que os próprios monárquicos não sabem do que estão a falar, desconhecendo a fórmula, ignorando o pensamento, renegando os valores que a instituição monárquica deve promover. 

Sem suporte intelectual e enfrentando o desinteresse e a impetuosidade dos interlocutores lá procuro o básico argumento monárquico, os argumentos que mais odeio: comparações. Lembrar os regimes da Inglaterra (que me parece insuficiente, com um rei fantoche a imitar encenações), ou aquele tão básico lugar comum, invocando a Noruega e a Suécia (serão prósperos e desenvolvidos por terem monarquias ou terão monarquias por serem prósperos e desenvolvidos?), raramente refiro a Espanha. Um bem haja por me recordar da Tailândia, fugindo assim à tentação eurocêntrica de julgar apenas as monarquias (repúblicas coroadas) desta Europa como modelos à civilização. 

Mereço por tudo isto um belo puxão de orelhas. Discussões vazia de conteúdo mas que, à distância, com a necessária paciência, procuro agora desenvolver. Vou tentar escrever o que não consegui então invocar como defesa da instituição real. 


1. A Monarquia significa um privilégio familiar? 

Os republicanos conhecem o próprio umbigo, por isso repetem-se constantemente, e mal. Querem os bons republicos fazer crer que um rei nasce rei apenas para dizer que é superior a todos os outros homens, inferiores e escravos face à sua pessoa? Não! 

Já Santo Agostinho, em “Do Governo dos Príncipes” refere-se à “Monarquia Temperada”, defendia que a monarquia, “o governo justo de um só, é a melhor forma de Governo” [1], permitindo evitar a ditadura de muitos, ou, paradoxalmente, evitar o excesso de liberdade que conduz a novas manifestações de tirania. A instituição monárquica deve ser tida como um contra-poder, i.e., um poder que impede o populismo e que seja igualmente contrário à ofensiva desagregadora da comunidade. 

Não compreenderam os insignes defensores da eleição da alta Magistratura, sempre preocupados em substituir quanto antes o Chefe-de-Estado, sem atender a outras considerações, sem compreender a constituição própria da comunidade, que a Monarquia é uma “instituição de instituições” (como alguém referiu), o conjunto de instituições, leis, prerrogativas, perante as quais o rei é sempre responsável. 

Esclareço melhor para certos obtusos: o rei não nasceu (não existe) para ser uma espécie de Übermensch da mistificação totalitária (uma espécie de super-homem que muitos identificam na ideia de Nietzsche). O rei não é o homem invulgar, não é o encantador de multidões, nem se julga superior aos demais seres-humano. Ele é o elemento de união entre todos os membros da sociedade, os vivos, os mortos e os que estão para nascer. 

Santo Agostinho admitira que a legitimidade existiria sempre em todo o governo desde que os seus responsáveis administrassem o oficio régio no interesse da colectividade de forma louvável [2]. Daí que defendesse a monarquia, “o governo óptimo de um só”, concebendo-a como a forma de alcançar o equilíbrio e a estabilidade. 

A Realeza do rei obriga-o a servir, não a obedecer, mas a procurar o Bem Comum. Há determinados valores que estão acima do próprio soberano, podemos interpretar essa vontade como proveniente de Deus, ou  como um catálogo de deveres impostos pela moral, pela honra, pela lealdade à Pátria, pela justiça, dos quais o Rei não se pode abstrair ou ignorar. 

Eis a grande certeza: o rei não se pode eximir das suas obrigações, não pode violar as disposições constitucionais a que esta obrigado, sob pena de ser substituído. Parece, tal corolário, demasiadamente metafisico, aos nossos bons republicanos? Então vejamos casos concretos: D. Afonso VI, Filipe III (vide, a restauração da independência em 1640), ou ainda, Eduardo VIII de Inglaterra. Todos os nossos reis juraram as Leis Fundamentais, e todos os reis governavam de acordo com o disposto nas Instituições. Já lá diziam os antigos “Per me reges regnant” (Por mim reinam os reis, e os legisladores decretam a justiça).

Aristóteles também se referia à legitimidade do poder, que podemos depreender como a capacidade de realizar o bem de todos, tanto da cidade como dos cidadãos. Nesse sentido, seria melhor a monarquia. A palavra monarquia surge, na obra de Aristóteles, como “basileia” i.e.: reino. A palavra democracia reserva-a para aquilo que hoje designamos como “demagogia”, traduzida como a forma corrupta ou degenerada [3]. Os antigos desconfiam muito da “democracia” e tecem críticas não menos consideráveis. 

Por fim, uma elementar certeza: a educação do príncipe, preparando-o para o duro oficio de reinar. Desde cedo, o príncipe, ensinado para suceder no trono, é consciencializado para o seu dever, para acatar com as suas obrigações, ideia melhor expressa na fórmula de Henrique Barrilaro Ruas indiciando que o Rei é cativo: “cativo de Deus e da História”. Cativo dos seus deveres e obrigações, cativo das Instituições, das Leis, do Trono. Cativo da história, porque enquanto o Presidente luta por conquistar um lugar na memória da nação, esforçando-se por consolidar a sua imagem na memória colectiva do povo, nem sempre conseguida, ao rei basta apenas reencarnar a história. Ao ser ensinado desde cedo para reinar e para tomar nas mãos a Chefia do Estado, o principe é apresentado às artes da diplomacia, ao desafio da política, ao sentido de dever, elementos importantes num tempo que renegou as soberanias nacionais e que já não compreende a honra do oficio, nem a responsabilidade dos cargos públicos e ridiculariza as identidades pátrias e o amor à nação.

Será então um privilégio: o privilégio de servir o seu povo e procurar alcançar o Bem Comum, a unidade da comunidade. 


2. A monarquia é arcaica?

Em bom rigor, monarquia e república são ambas antigas, ou no dizer dos nossos bons republicanos: "arcaicas". 

A monarquia não será “arcaica” no sentido pejorativo que atribuem à palavra, como retrógrada, velha, ultrapassada, porque a instituição monárquica está no plano do perene, nestes termos, podemos defini-la como uma “instituição que perdura no tempo”, certeza asseverada pelo conjunto de direitos provenientes várias instituições legadas pelos nossos antepassados e que prosseguem no interminável caminho da história. Na feliz expressão dos Carlistas espanhóis, “a tradição é um passado que merece ser futuro”. 

Contra um poder parcial, dividido entre partidos e caciques, tendente aos interesses das oligarquias e do dinheiro, opõe a essa parcialidade, a esse divisionismo, a totalidade, pois o elemento agregador depende do equilíbrio dentro da própria comunidade. 

Já os antigos procuravam contrapor os vários sistemas. Os gregos contrapunham a democracia à aristocracia e à monarquia, estas podiam degenerar em três formas de Estado: demagogia, oligarquia e tirania [4]. Nos estudos de Cabral de Moncada (já citados) o ilustre mestre explica que a palavra “monarquia”, etimologicamente (i.e., remontando à etimologia grega) utiliza o sufixo traduzido actualmente como “ir ou estar à frente” ou “ser o primeiro”. Bem como para a aristocracia usa o sufixo que, traduzido, significa “força”, ou mais propriamente “dominar”, ou “exercer pela força” [5].

Talvez assim se explique que, na antiguidade clássica, enquanto a monarquia não passava, para Aristóteles, de uma forma de governo, o “governo de um só” (em que o rei, o “basileus”, se encontra à frente do governo da cidade) a democracia é uma verdadeira forma de Estado. 

A palavra que melhor expressa a ideia do poder radicado nas mãos de um só homem é “monocracia” (em vez de monarquia [etimologicamente designando a Mono-Archia]).

Para os antigos a democracia era um regime inferior (Strauss), um sistema que se baseava mais na virtude do que na liberdade (não deixa de ser curioso constatá-lo). Os clássicos consideravam a virtude como o fim da vida política e a república aristocrática, assim como a forma mista de governo, os modelos políticos que a ela conduziam [6]. Na visão medieval este era um mesmo preceito. 

Podíamos falar da República Romana, ou nas republicas de Veneza e Florença, nas repúblicas dos Países Baixos, na República de Cromwell em Inglaterra, etc., e, neste prisma, seria impossível não constatar no “ciclo político clássico” identificado por Políbio, e anteriormente referido por Aristóteles, incidindo na evolução dos regimes que, começando na realeza e passado à república aristocrática, se tinham visto, depois da experiência democrática, forçadas a regressar ao sistema monárquico.

É Bodin quem recupera muitos dos conceitos político-jurídicos romanos, usando a palavra república, não no sentido de regime, oposto à monarquia, mas na acepção da comunidade política, de república. Para Bodin o poder do soberano deveria superar as ideologias, os divisionismos, os partidos (diríamos nós), e Bodin refuta: Ce qui n’est pas la Republique, est par l’anarchie. 

Talvez numa mesma acepção tenha pensado, muito tempo antes, Diogo Lopes Rebelo, o autor seiscentista de um dos primeiros manuais de ciência política aparecidos na Península, o “De Republica Gubernada per Regem” (Do bom governo da República pelo Rei). A palavra República (ou Res Pública) aparece com frequência nos textos oficiais, confundida com a palavra Reino. 

A Inglaterra teve uma experiência republicana com Cromwell, tirano opressor para uns, libertador para quem via na ambição desmedida daquele gentry algo de luminoso. Após a sua morte foi restaurada a monarquia, lembrando o “ciclo político clássico” de Políbio. Após um período conturbado, entre Carlos II e Jaime II, é Guilherme de Orange e Maria quem assumem o trono, é a Revolução Gloriosa, que em grande medida representa a evolução de uma sociedade tradicional para uma alternativa Parlamentar, ou, nas palavras de Laski, não era uma atitude contra a monarquia, mas contra aqueles reis que apareciam como um entrave ao comércio. Com Locke a concepção do Estado transforma-se, é a ideia do “justo centro” e de equilíbrio de poderes, a esta forma os contemporâneos descreviam-na como “o desfecho feliz entre a Cila do absolutismo monárquico e a Caribdis do republicanismo igualitário”. 

Russel Kirk e Hannah Arendt referir-se-iam às revoluções Inglesa de 1688 e à Americana de 1776, como “a Revolution not made but prevented”, i.e., revoluções evitadas, contrárias à revolução em França que ambicionava construir um homem novo, numa sociedade nova, esquecendo que as comunidades e as instituições não podem ser criadas ex nihilo, apenas pelo arbítrio do revolucionário, e não nos esqueçamos que a palavra revolução etimologicamente significa “voltar ao ponto de partida”, um retorno ao ponto inicial.  Burke também referia criticamente a sua oposição (e horror) à ideia de fabricar um novo governo destruindo as instituições antigas.  

Nos Federalist Papers a ideia “democrática” (identificada como a “democracia directa”) é recusada em nome da República. Ou como referia um dos pais fundadores dos Estados Unidos, John Adams: “Nenhuma nação na terra nunca foi, nem o é, nem jamais será, qualificada como Governo Republicano, a não ser que queira dizer… resultante do equilíbrio entre três poderes, o Monárquico, o Aristocrático e o Democrático… os Americanos são particularmente inaptos para uma República, antes devemos falar numa Aristo-Democratical Monarchy”. 

Podemos dizer, em suma, que os actuais sistemas, quer republicanos, quer monárquicos, são o resultado das três revoluções modernas: a Inglesa, a Francesa e a Americana, falar em “arcaicos” não faz sentido dado que há um igual movimento de ideias, de acções e de sentidos comuns, contrários todos eles à tradição (católica, evidentemente) e, sem descurar, o resultado do pensamento de três homens: Locke, Montesquieu e Rousseau. As Repúblicas coroadas de hoje a as Repúblicas jacobinas hodiernas têm um mesmo sentido, na diferença particular de as primeiras terem um chefe de Estado vitalício e as segundas um Chefe de Estado eleito. 


3. A monarquia não é democrática?

Não é democrática porque não permite a eleição do Chefe-de-Estado? Têm razão os deturpadores, porém, infelizmente para eles, não pelos motivos que invocam.

A monarquia é um sistema não democrático que garante a liberdade. Contra-senso? Uma lapalissada, talvez, auspiciando já o sorriso de desprezo? A instituição monárquica impede a tendência oligárquica em que sempre tendem a cair as democracias, como identificava Dominico Fisichella, em “O Elogio da Monarquia”, impede assim que a sociedade caia na ruptura ao conceber uma referência agregadora e uma posição pública concreta. 

A monarquia não depende a priori do rei, porque concebe-se primeiro a instituição, por exemplo, o rei não podia ser aclamado sem a prévia autorização dos representantes do Estado, e para ser coroado rei tinha de jurar as leis e respeitar os direitos e prerrogativas a que estava adstrito por força dessa “instituição de instituições”, aniquilá-las foi o que fizeram os liberais e os revolucionários das Repúblicas saídas da Bastilha e do assaltado ao Palácio de Inverno. 

Queria supor uma elementar certeza: não é no assassínio do rei que se assassina a instituição. Tal como podiam supor os regicidas que calculam no assassínio do soberano e da respectiva família um resultado de aniquilar a própria instituição real, quando, na verdade, ela perdura, e continua a perdurar, voltando ao velho exemplo do “ciclo político clássico”. Vai ao encontro dum básico pensamento de que o poder do rei vem do juramento que faz ao ser investido (ver ponto 1).

Não há rei sem instituições, mas as instituições podem prevalecer sem o rei, no interregno tendem a cair no vazio e, com a passagem revolucionária, acabam aniquiladas. Mas temos exemplos de monarquias que rejeitaram a tradição cristã (vide Inglaterra) e repúblicas que abraçaram novamente a tradição cristã após rupturas abruptas, revoluções e crises (vide a Hungria, que chegou a inscrever o nome "Deus" no texto constitucional, e a Rússia, que se reconciliou com a Igreja Ortodoxa).

Há a crise que advém da instituição, que se regenera e transforma, ou negativamente cai no entorpecimento; e outra, que advém da mera substituição do Chefe de Estado vitalício pelo Chefe de Estado eleito. Por exemplo, houve mudanças de dinastia após crises severas, porém sempre a instituição monárquica prevaleceu. Também podemos considerar que o problema da monarquia constitucional não estaria no rei, nem na monarquia per si, mas nos governos rotativos e desacreditados. Que diferença houve entre a monarquia constitucional e a República saída de 1910 a não ser as mudanças de Chefia de Estado e um novo governo entre os conservadores e os democráticos de Afonso Costa?

Alguém dizia, não sem razão, que as monarquias constitucionais são a antecâmara da República.

A morte do rei não é o fim da monarquia (há a sucessão, a eleição do novo rei, desde que as instituições garantam a sua eficiência e eficácia), mas o fim da monarquia (referindo-me à instituição) representa o fim do rei (da monarquia constitucional à república o passo é mínimo, substituir o rei pelo presidente pouco significa face a instituições que já não unem o “príncipe à comunidade”, diria o nosso Infante D.Pedro). 

Ao quebrar os laços que unem a instituição monárquica à comunidade condena-se a sua própria vitalidade e a segurança do trono fica entregue aos bandidos. 

Porque, mesmo nas actuais Repúblicas da Europa encontram-se famílias reais depostas à espera da sorte grande. Renan explicou já a dificuldade em restituir esses regimes uma vez destruídos, o que é uma constatação diferente, mesmo que regresse a monarquia nada será como dantes. Para as actuais monarquias, atestando na sua sobrevivência, apesar de estruturalmente se assemelharem a repúblicas, mas com um rei, desligadas da tradição (exceptuando talvez a própria tradição que advém do trono e que é o elemento fulcral para  sobrevivência da coroa), lembro o que escreveu um General do rei Frederico da Prússia: “a segurança dos tronos assenta na poesia”, para se preservarem, as monarquias têm de assentar a sua existência no amor do povo ao rei, na procura de uma certeza histórica, no valor das acções, na grandeza dos actos e na justiça que devem promover. 

A Instituição Real vive das constituições históricas e morais, assegura o Bem comum da comunidade. Protege o Estado e a Sociedade da cobiça dos políticos, diminuindo a sede de ambição dos homens, ao tornar vitalícia e ininterrupta a Chefia do Estado. Na tradição portuguesa vocacionada para a comunidade e não para o divisionismo ou para o individualismo comum às nações nórdicas e protestantes este seria um fundamento agregador e não separador da comunidade.   

Não se pede a personalização do poder, mas a tradição enquanto elemento que une o homem à comunidade, constituindo-se como uma actualidade no movimento (António José de Brito). Apenas um poder central pode coordenar com rigor, justiça e eficácia o desenvolvimento da sociedade. Deixar o poder nas mãos de muitos tende à anulação do próprio poder.

A instauração do poder real é apenas a chave da abobada em que devemos concluir o nosso pensamento. Às questões políticas, de Direito, à concepção da comunidade e da sua ordem, devemos por fim concluir com a ideia de restituir à nação o Rei legítimo. No mesmo sentido daquele lema tão bem invocado: Deus, Pátria, Foros e Rei Legitimo. 


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[1] Barbuy, Victor Emanuel, ASPECTOS DO DIREITO NA OBRA DE SANTO TOMÁS DE AQUINO

[2] AQUINO, São Tomás de, “Do Reino ou do Governo dos Príncipes ao Rei de Chipre”, onde o pensador adequa a cultura clássica com o cristianismo.

[3] MONCADA, Cabral de, “Problemas de Filosofia Política: Estado-Democracia, Liberalismo-Comunismo”, Arménio Amado Editor, Coimbra (1963).

[4] MONCADA, Cabral de IDEM

[5] MONCADA, Cabral de IDEM

[6] PINTO, Jaime Nogueira, “Ideologia e Razão de Estado” 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

D. João IV


«Àqueles que o acusaram de modéstia no reinar, respondeu: "prefiro parecer menos rei que menos homem". E, assim, foi mais que rei, porque foi sempre homem. Reconhecia-se mais como homem que como soberano.»

- escreveu o jesuíta Francisco Machado,aludindo à hesitação de D. João IV em aceitar encabeçar a causa da Restauração. in, "Mausoleum Maiestatis Ioannis IV"


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Duque de Bragança




"Depositário da legitimidade histórica pela aceitação das leis fundamentais do Reino, só o Sr. D. Duarte pode, em verdade, vir a ser Rei de Portugal e dos portugueses. Rei de Portugal pelo seu direito dinástico; Rei dos portugueses, porque só ele se encontra em condições de realizar a unidade nacional." 

António Sardinha 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Papa Francisco no Parlamento Europeu




Aborto, eutanásia

«O ser humano corre o risco de ser reduzido a uma mera engrenagem de um mecanismo que o trata como um simples bem de consumo para ser utilizado, que modo que – lamentavelmente o percebemos com frequência -, quando a vida já não serve para esse mecanismo, é descartada sem muitos reparos, como no caso dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem atenções, ou das crianças assassinadas antes de nascer.»

 
Abuso de poder

«Que dignidade é possível sem um enquadramento jurídico claro, que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder?»

 
Alargamento

«A consciência da própria identidade é necessária também para dialogar de modo propositivo com os estados que pediram para fazer parte da União no futuro. Penso especialmente naqueles dos Balcãs, para os quais a entrada na União Europeia poderá responder ao ideal da paz, numa região que sofreu enormemente pelos conflitos do passado.»

 
Cristianismo

«Uma história bimilenária liga a Europa e o cristianismo. Uma história que não é privada de conflitos e de erros, também de pecados, mas sempre animada pelo desejo de construir para o bem. Vemo-lo na beleza das nossas cidades, e mais ainda na das múltiplas obras de caridade e de edificação humana comum que constelam o continente. Esta história, em grande parte, está ainda por escrever. Ela é o nosso presente e também o nosso futuro. Ela é a nossa identidade. E a Europa tem forte necessidade de redescobrir o seu rosto para crescer, segundo o espírito dos seus pais fundadores, na paz e na concórdia, porquanto ela própria não está ainda isenta de conflitos.»

 
Deus

«Uma Europa que não é capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida, é uma Europa que corre o risco de perder lentamente a própria alma, e também aquele “espírito humanista” que, todavia, ama e defende.» 
«Um dos mais célebres frescos de Rafael que se encontram no Vaticano retrata a denominada “Escola de Atenas”. No centro estão Platão e Aristóteles. O primeiro com o dedo que aponta para o alto, para o mundo das ideias, podemos dizer para o céu; o segundo estende a mão para a frente, para quem olha, para a terra, a realidade concreta. Parece-me uma imagem que descreve bem a Europa e a sua história, feita do contínuo encontro entre céu e terra, onde o céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre distinguiu o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas.»

 
Dignidade humana

«Promover a dignidade da pessoa significa reconhecer que ela possui direitos inalienáveis de que não pode ser privada pelo arbítrio de alguém, e muito menos em benefício de interesses económicos.»


«Afirmar a dignidade da pessoa significa reconhecer a preciosidade da vida humana, que nos é dada gratuitamente e não pode, por isso, ser objeto de troca ou de comércio.»

 
Discriminação

«Que dignidade pode alguma vez ter um homem ou uma mulher que são objeto de todo o género de discriminações?»

 
Economia

«Chegou a hora de construir a Europa que gire não em torno da economia, mas em torno da sacralidade da pessoa humana.»

 
Esperança

«Ao dirigir-me hoje a vós, a partir da minha vocação de pastor, desejo enviar a todos os cidadãos europeus uma mensagem de esperança e de alento. Uma mensagem de esperança baseada da confiança de que as dificuldades podem converter-se em fortes promotoras de unidade, para vencer todos os medos que a Europa – juntamente com todo o mundo – está a atravessar. Esperança no Senhor, que transforma o mal em bem e a morte em vida.»

 
Família

«A família unida, fértil e indissolúvel transporta com ela os elementos fundamentais para dar esperança ao futuro. Sem tal solidez acaba-se por construir sobre a areia, com graves consequências sociais. Por outro lado, sublinhar a importância da família não só ajuda a dar perspetiva e esperança às novas gerações, como também aos numerosos idosos, muitas vezes obrigados a viver em condições de solidão e de abandono porque deixou de existir o calor de um lar doméstico capaz de os acompanhar e apoiar.»

 
Fome

«Não se pode tolerar que milhões de pessoas no mundo morram de fome, enquanto toneladas de sobras de alimentos se descartem diariamente das nossas mesas.»

 
Liberdade religiosa

«Que dignidade existe quando falta a possibilidade de exprimir livremente o próprio pensamento ou professar sem limitações a própria fé religiosa?»

 
Migrantes

«Não se pode tolerar que o mar Mediterrâneo se converta num grande cemitério. Nas barcaças que chegam diariamente às costas europeias há homens e mulheres que necessitam de acolhimento e ajuda. A ausência de um apoio recíproco dentro da União Europeia corre o risco de incentivar soluções particulares do problema que não têm em conta a dignidade humana dos imigrantes, favorecendo o trabalho escravo e contínuas tensões sociais.»

 
Parlamento Europeu

«Vós, na vossa vocação de deputados, sois chamados também a uma grande missão, ainda que possa parecer inútil: tomar-vos de cuidados pela fragilidade, pela fragilidade dos povos e das pessoas. Tomar-vos de cuidados da fragilidade quer dizer força e ternura, quer dizer luta e fecundidade no interior de um modelo funcionalista (...) que conduz inexoravelmete à “cultrua do descartável”. Tomar-se de cuidados pela fragilidade das pessoas e dos povos significa proteger a memória e a esperança; significa encarregar-se do presente na sua situação mais marginal e angustiante, e ser capaz de ungi-la de dignidade.»

 
Perseguições (por motivos religiosos)

«Não podemos esquecer aqui as numerosas injustiças e perseguições que sofrem diariamente as minorias religiosas, e em particular as cristãs, em diversas partes do mundo. Comunidades e pessoas que são objeto de violências cruéis: expulsas das suas próprias casas e pátrias; vendidas como escravas; assassinadas, decapitadas, crucificadas e queimadas vivas, sob o vergonhoso e cúmplice silêncio de muitos.»

 
Solidão (idosos, jovens, pobres, migrantes)

«Uma das doenças que vejo mais espalhada hoje na Europa é a solidão, própria de quem está privado de laços.» 
«Isto vê-se particularmente nos idosos, muitas vezes abandonados ao seu destino, como também nos jovens privados de pontos de referência e de oportunidade para o futuro; vê-se nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades; vê-se nos olhos perdidos dos migrantes que vêm cá à procura de um futuro melhor.»

 
Trabalho

«Que dignidade pode alguma vez encontrar uma pessoa que não tem o alimento ou o mínimo essencial para viver, e, pior ainda, o trabalho que o unge de dignidade?» 
«É tempo de favorecer as políticas de emprego, mas sobretudo é necessário voltar a dar dignidade ao trabalho, garantindo também condições adequadas para a sua execução. Isto implica, por um lado, encontrar novas maneiras para conjugar a flexibilidade do mercado com a necessidade de estabilidade e certezas de perspetivas laborais, indispensáveis para o desenvolvimento humano dos trabalhadores; por outro lado, significa favorecer um adequado contexto social que não esteja apontado à exploração das pessoas, mas a garantir, através do trabalho, a possibilidade de construir uma família e educar os filhos.»

 
União Europeia

«[Trago uma mensagem de] encorajamento a voltar à firme convicção dos pais fundadores da União Europeia, que desejavam um futuro baseado na capacidade de trabalhar em conjunto para superar as divisões e para favorecer a paz e a comunhão entre todos os povos do continente. No centro deste ambicioso projeto político estava a confiança no homem, não tanto enquanto cidadão, nem enquanto sujeito económico, mas no homem enquanto pessoa dotada de uma dignidade transcendente.»
«O moto da União Europeia é “Unidade na diversidade”, mas a unidade não significa uniformidade política, económica, cultural ou de pensamento. Na realidade, cada unidade autêntica vive da riqueza das diversidades que a compõem: como uma família, que é tanto mais unida quando mais cada um dos seus membros pode ser ele próprio até ao fundo, sem medo.»

 
Uma longa ovação dos deputados, de pé, saudou o discurso do papa, depois de uma intervenção pontuada por aplausos do hemiciclo, especialmente nas passagens sobre a imigração, o trabalho e a pobreza.

A personalidade de Francisco «orienta em momentos de perda de orientação», comentou o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, que acrescentou: «As suas palavras ajudar-nos-ão».

O programa do papa em Estrasburgo prossegue com a visita ao Conselho da Europa. A partida para o regresso ao Vaticano está marcada para as 12h50 (hora de Lisboa), prevendo-se que o avião chegue a Roma pelas 14h50.

 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

As Virtudes



O cavaleiro e as sete virtudes acompanhado pelo Espírito Santo (século XIII).
Peraldus Knight. An armed knight standing behind the seven virtues ("cardinal virtues") provided by the Holy Spirit in the form of doves from heaven. 2nd or 3rd quarter of the 13th century, after c. 1236.

Fides vs. Veterum Cultura Deorum
Pudicitia vs. Sodomita Libido
Patientia vs. Ira
Mens Humilis et Spes vs. Superbia et Fraus
Sobrietas vs. Luxuria
Ratio et Operatio vs. Avaritia
Concordia et Fides vs. Discordia cognomento Haeresis
Psychomachia, Prudêncio (348-c.410)


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Monarquia e República Coroada






“Se república quer dizer não-monarquia, em Portugal a república data de Évora Monte. O último Rei de Portugal foi Dom Miguel e não Dom Manuel, como é corrente ensinar-se. Comemorar o advento da república em 2010 não passa de uma dispendiosa (cem milhões, ao que parece) fantasia.”


António José de Brito
Revista Nova Águia
Número 6

domingo, 23 de novembro de 2014

Poesia "Carlo-Miguelista"




Sem dúvida, a história,
Faz-nos mais irmãos,
Porque o trovão carlista,
É o miguelista clarão,

Dois reis, duas pátrias,
Uma aliança peninsular,
Uns povos hispânicos,
Santa Causa para brigar,

Dom Miguel e Dom Carlos,
A real legitimidade,
A usurpação liberal,
Miséria e falsidade,

Conspirações liberais,
Ditaduras e golpismos,
Com seus pedreiros-livres,
Levaram-nos ao abismo,

Dom Carlos tinha,
Zumalacárregui e Cabrera,
E Dom Miguel, pois
O Remexido e os Silveiras,

Autênticos movimentos populares,
Herança do ardor da luta,
Contra o tirano Napoleão,
Que não deixou a Peninsula muda,

Portugal e Espanha,
Tinham católicos reis,
E tudo foi afastado,
Pelo estrangeiro sem lei,

E não só o estrangeiro,
Também a traição, também,
De muitos iberos falsos,
Entretanto, hoje tem que ver...

Contra a nossas terras,
Não podem vir mais enganos,
Porque até na história,
Somos -- gémeos ?-- irmãos,

Dom Miguel reconhecia a Dom Carlos,
E os miguelistas entravam na Espanha,
Povos de causas irmãs,
Duas margens do Guadiana,

Portugal queria aos carlistas,
E os miguelistas queriam a Espanha,
E por esta nobre luta vinham,
A combater realistas da França,

Na Corte de Madrid,
E na corte de Belém,
Espanha e Portugal dizem,
Que não desejam morrer,

Que temos ganhado com
Dois seculos de revolução?
Deus, Patria e Rei,
É a nossa salvação !

As bandeiras que um día,
Ondearam os realistas,
Voltam a ser ondeadas,
Por portugueses e carlistas !

O tradicionalismo (pan)hispânico,
É a única solução,
Pela memória de nossos reis,
Força, luta, benção !


(desconheço o autor)

sábado, 22 de novembro de 2014

Literatura



De Jaime Nogueira Pinto, um romance imprescindível, "Novembro", e um ensaio extraordinário que merece ser lido e pensado "Ideologia e Razão de Estado". Já tenho leitura para os próximos dias, ou melhor dizendo, próximos meses, ou mesmo, para o próximo ano, quando acalmar a febre dos exames e avaliações.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Maria da Fonte


Viva a Maria da Fonte,
a cavalo sem cair
com a corneta na boca,
a tocar a reunir.

e avante portugueses,
e avante sem temer,
pela pátria lusitana,
triunfar ou perecer,
triunfar ou perecer!

viva o rei viva a rainha,
viva a família real.
viva a casa de Bragança,
viva o rei de Portugal!

e avante portugueses,
e avante sem temer,
pela pátria lusitana,
triunfar ou perecer,
triunfar ou perecer!




– A contribuição de repartição, e o imposto  sobre os mortos foi o rastilho...o cálice das amarguras estava cheio, e a bolsa dos povos inteiramente vazia... era todo um povo em massa, todas as Cidades, Vilas e Aldeias de um reino a exprimirem o mesmo pensamento com a mesma energia e pela mesma forma. Foi um facto grandioso e virgem (palavras do miguelista João de Lemos, em 18 de Março de 1847, em carta a D. Miguel). 


terça-feira, 18 de novembro de 2014

Salazar ao encontro de Maurras



Ce que j’ai pris à Maurras...

Ce que j’ai pris á Maurras, c’est l’idée de l’autorité nécessaire, de l’Etat fort. J’ai été également touché par la distinction si nette qu’il établit entre la démophilie et la démocratie.[7] La confusion entre ces deux termes qui est courante chez les politiques et qu’ils ont intérêt à entretenir est la source de beaucoup d’hérésies. Certes, nous aimons tous le peuple.

Mais c’est parce que nous l’aimons que nous ne voulons pas, nous, que le gouvernement soit éparpillé sur toutes les têtes. La Science Sociale m’a fait comprendre que les régimes politiques sont variables selon les circonstances de temps et de milieu. Il n’y a pas de régime politique idéal qui vaille également dans les temps et dans tous les pays, mais il y a certains principes fondamentaux communs à tous les régimes politiques, même les plus opposés, et sans lesquels il n’y a pas de gouvernement possible si l’on entend par gouvernement un gouvernement qui gouverne.

L’entêtement monarchique de Maurras me fait songer á cet élève des encyclopédistes français à qui on commandait des constitutions comme on commande un veston. Maurras est l’inspirateur, d’ailleurs remarquable, des royautés. Ce logicien n’en demeure pas moins l’un des esprits les plus clairs d’aujourd’hui. Son « Politique d’abord » qui, pris absolument, est un point de vue faux, m’a fait du bien en corrigeant l’excès contraire de la Science Sociale qui n’accordait pas assez d’importance au facteur politique.

texto citado de: Au Portugal
Une heure avec M. Oliveira Salazar  
Professeur et dictateur mystique          
par Frédéric Lefèvre 

ler texto completo no blog Malomil 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O Universo da Direita - por Jaime Nogueira Pinto




Uma das características do universo da Direita é haver, várias, muitas direitas. É um espaço livre como o resumiu, esse "italiano útil", como lhe chama o João Bigotte Chorão, que foi Giuseppe Prezzolini. E nós procuramos, neste espaço receber, "todas as direitas, as que existem e as que já esquecemos". Falámos disto, há dez anos, em A Direita e as Direitas.
A Esquerda tinha, à partida, uma vocação unívoca, um modelo evolutivo, uma "marcha da História", que ela sabia de onde vinha e (depois de Marx) para onde ia. Não foi assim, como sabemos, para bem de todos.
Mas na Direita essa diversidade sempre foi reconhecida, até nas dicotomias académicas: direita tradicionalista e direita liberal; direita conservadora e revolucionária; direita religiosa e laica; direita realista e idealista; "Nova Direita" e Direita tout court e as "clássicas" divisões de René Rémond, "legitimista", "orleanista" e "bonapartista". A bibliografia sobre estas matérias é imensa e disponível para quem quiser informar-se e estudar.
Os últimos 150 anos da História europeia, a partir dos modelos "constitucionalismo estabilizado", documentam essa profusão e proliferação das direitas: como elas se entenderam, se combinaram, se aliaram, se guerrearam. Como reagiram ao industrialismo, ao urbanismo, à mudança tecnológica, ao socialismo, à Revolução soviética, ao fascismo, à militarização da política de entre guerras. E como resistiram e se adaptaram, em épocas próximas de pensamento único.
Esta diversidade das "direitas" - supõe um denominador comum - a Direita - que, na medida em que conhece estas modalidades político-operativas e "ideológicas", tem que ser "metapolítico" ou "filosófico". Logo o que nos pareceu ser um denominador comum, presente em todas as "direitas", é o nó do problema. Como na Esquerda.
Tal denominador tem a ver com "fundamentos" como o pessimismo antropológico, quer o augustiniano quer o maquiavélico, que desconfia da natureza humana e lhe põe regras e controles - o Estado, as Leis, as instituições intermédias; o realismo, no sentido da linha hegeliana de que "todo o real é racional"; a consideração dos conjuntos metapolíticos e político-territoriais em que precisamente estão os indivíduos, e que são superiores a eles - a Religião, a Nação, a Família; o reconhecimento das desigualdades úteis (Maurras); a análise dos "custos da mudança". E há o historial das direitas anglo-saxónicas, que é diferente. E há o fascismo e a sua classificação à direita ou à esquerda que também é problemática.
Isto é o abc do problema, e está estabelecido, há muitos anos e tratado em centenas de títulos - editados em línguas cristãs e em latitudes civilizadas. Que haja ignorantes arrogantes que queiram fazer de tudo isto tábua rasa, arrombar alvoraçados portas abertas, chegar a casa alheia e dispor dela, sem legitimidade de ser, ou de saber, é que é surpreendente. Portugal no seu melhor..


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Salve Rei!


D. Miguel de Portugal, Queluz, 26 de Outubro de 1802 — Jagdschloss Karlshöhe, Esselbach, Grão-ducado de Baden, 14 de Novembro de 1866.


Rei! no dia em que descestes
Do Vosso throno real
Apagou-se a luz da gloria,
Cerrou-se o livro da historia
Do Reino de Portugal.

Camilo Castelo Branco




sexta-feira, 7 de novembro de 2014

João de Lemos - poeta miguelista e patriota



Poema do poeta miguelista João de Lemos (Peso da Régua, 1819 — 1890), conhecido como "o Trovador", nos seus tempos de Coimbra, e, até ao fim da vida, um tradicionalista estrénuo, tendo desempenhado algumas funções diplomáticas ao serviço do rei D.Miguel. Na literatura foi cultivador de uma poesia ultra romântica e delicada, por vezes marcado pela nostalgia da pátria e da terra natal, e, no combate político, uma pena feroz e acutilante. Homem de cultura, marcadamente um dos poetas"malditos", riscados do mapa literário por imposição dos vencedores, não fosse João de Lemos a voz dos miguelistas resistentes. Permaneceu, até ao fim, fiel aos seus ideais, sempre fiel ao seu Rei.

"Portugal"

Quem sou... quem fui? Toda a terra
Que o diga, que o aprendeu;
Diga-o na paz e na guerra,
Diga-o ela, que não eu!
Quem fui, que o digam cem povos,
Que o digam os climas novos
Por onde primeiro andei;
Que o digam cristãos e mouros,
Que o digam troféus e louros,
Que eu nem dizê-lo já sei!

domingo, 26 de outubro de 2014

O fenómeno Maurras



The Maurras phenomenon deserves to be studied seriously for an understanding of European history in the first half of the twentieth century—the struggle for and against democracy—and also because ignoring it leaves a vacuum for misjudgments in political theory and practice. Half a century after his death, the picture is rather clear even if it has to be unearthed from under layers of taboo and other layers of newspeak. Like all the important political writers—Plato, St. Augustine, Machiavelli, Hobbes, Max Weber—Maurras reacted to what he perceived as a dangerous decline of sobriety in politics, but he refused to become “universally valid” in a century demanding global diagnoses and global remedies. His sole interest was France. 

In the eyes of his critics, he thus became a narrow nationalist, but not in the eyes of those aware of his enormous influence and of his attempt to integrate political thought with a Mediterranean overview, and thus with a classical vision. In a romantic and sentimental age, Maurras tried to rehabilitate rationality as a political interpretation of the real, although he was not too sanguine about the “future of intelligence,” the title of one of his volumes (L’avenir de l’intelligence, 1905). 

Much more influential was the above mentioned Démocratie religieuse (1906–1913) in which he tears to shreds the utopian infiltration of Church doctrine and politics. In a way, Maritain’s public writing career was an answer to the thesis of these volumes, and it is perhaps not incorrect to opine that the second Vatican Council (1962–1965) itself meant to be a final liquidation of the Maurrassian critique of a social and sentimental Catholicism. The controversy is not likely to end soon. 

in, Charles Maurras, Shaper of an Age
Thomas Molnar (MA 41:4, Fall 1999) - 12/11/08

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Ainda Alfredo Pimenta



"Era para substituir um Rei sem coroa por um Presidente coroado, que nós andávamos na brecha pregando doutrinas sãs, estabelecendo princípios úteis ? Era para voltarmos à nefasta política do Rei que reina mas não governa, do Rei chancella, do Rei-abulico, do Rei-irresponsável, do Rei-phantasma, que nós todos nos andávamos a sacrificar dia a dia? Era para Voltarmos ao regime das clientellas, das camarilhas, dos grupelhos, das burlas eleitoraes, das conspiraçoens palacianas, das pressoens sobre o Rei, das chantages de corredores parlamentares, da farçada democrático-constitucional, que nós todos andávamos a alimentar esperanças em melhores dias? Era para Voltarmos à Monarchia sem monárchicos que sepultou D. Carlos e atirou para o exílio com o Sr. D. Manoel, que nós combatíamos?
Pois quê?! Ainda se estava nessa illuzão, nessa dissolvente cegueira,— a ponto de, logo, com pressa, com receio de que não houvesse tempo, se restaurar a Carta Constitucional, fonte primária de República? 
Oitenta annos de realidade constitucionalista seguidos de oito annos de experiência republicana, não bastavam para convencer a mentalidade portugueza, de que a Nação tem de procurar em moldes differentes dos da Carta Constitucional, a sua organização política? Esse longo calvário de sophismas não foi o bastante para nos desilludir, e dar ao nosso espírito um rumo diverso? Ainda há uem não esteja convencido de que o regime republicano é filho directo do liberalismo constitucionalista?
Pois quê ? ! HaViamos de voltar ao regime das facçoens e das intrigas, em que o Rei era cabeça de turco entre as ambiçoens dos políticos? HaViamos de regressar àquela atmosphera mephítica que nos envenenou, que nos subverteu, que nos anarchisou, que nos trouxe ao estado deplorável em que nos encontramos hoje? Desconhecemos porventura que o hoje de hoje é filho de hontem ? HaViamos de continuar na situação estructuralmente revolucionária que 1820 iniciou, e que 1910 consa- 
grou ?
Não ignoramos que as condiçoens actuais da política mundial exigem um regime político baseado numa constituição. Simplesmente essa constituição não poderia de maneira alguma ser a Carta Constitucional, — a não ser que quizessemos voltar ao Erro, regressar ao Mal, repetir a Aventura criminosa.
Noutra occasião, pudemos nós dizer o que pensávamos sobre quais deviam ser as bases do Estatuto fundamental da Monarchia• Quem conheça esse nosso trabalho facilmente comprehende que não podíamos de maneira alguma sancionar uma revolução que tivesse por fim restaurar a Carta Constitucional. Para isso, não daríamos o nosso mais ligeiro voto. Para isso, não daríamos o nosso mais fraco apoio. Queriamos e queremos o Rei. 
Mas não queriamos, não queremos, e não queremos nunca o regime da Carta Constitucional que uma longa experiência desacreditou no espírito de todos os homens, que se não movem por interesses partidários, por ambiçoens mesquinhas, por intençoens inconfessáveis, ou por ficçoens.
Fazer uma revolução para salvar a Nação, — Vá ! Obrigar a Nação a correr os riscos de uma guerra civil, para restabelecer a Ordem e a Disciplina, para estimular o sentimento da Obediência, — seja ! Mas fazer uma revolução para restaurar a Carta e os actos adicionais, — não, não e não !"

"A revolução monarchica" (1919), Alfredo Pimenta.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Palavras de Alfredo Pimenta



"Eu não Vim para a Monarchia simplesmente como um descrente na República : eu Vim para a Monarchia, como um crente em certos princípios monárchicos. O meo acto não foi um acto negativista de desgostado e sceptico: foi um acto affirmativo de combativo e crente. Trouxe princípios — não princípios abstractos ou subjectivos, mas sim princípios produzidos pelo estudo reflectido, e corrigidos e modificados pelos factos. Eu cri e creio nas vantagens, na superioridade theórica e prática da Monarchia, mas de uma Monarchia monárchica, e não de uma Monarchia republicana.

Proclamar a Monarchia era o acto essencial, fundamental, primário. Manter a ordem pública, era o acto immediato. Tudo o mais era ou secundário, ou dispensável, ou episódico. Proclamar a Monarchia, e assegural-a. Restabelecer a ordem, e mantel-a.

O resto — só depois de ella proclamada e assegurada, da ordem estabelecida — e não era com os revolucionários, mas com os pensadores, os estadistas, os responsáveis."

"A Revolução Monarchica" (1919), Alfredo Pimenta
(clique no link para ler texto integral)

domingo, 19 de outubro de 2014

Vive Louis XVI ! 1789




Vive Louis XVI ce bon roi citoyen
son coeur est aise de faire notre bien
vive Louis XVI ce bon roi citoyen

vive sans cesse nos dignes députés
dont la sagesse fait nos félicités
vive sans cesse nos dignes députés,

vive la France , vive la liberté
paix, abondance,justice , égalité
vive la France , vive la liberté


Vive Louis XVI
Marcha monárquica, 1789


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O que a surdez de Charles Maurras nos revelou





Ainda duas palavras sobre a figura de Charles Maurras, ou até sobre o segredo de sua grande alma.
É coisa sabida que a surdez, embora menos grave, predispõe mais do que a cegueira à irritação e à amargura. Mas a "tragi-comédie de la surdité" produziu em Maurras efeitos e reações que só se explicam pela incomum grandeza d'alma. Pierre Gaxotte, que foi seu secretário, comentando a extraordinária paciência com que Maurras atendia os mais importantes visitantes na redação, disse-lhe um dia:
— O senhor é a Providência dos maçantes.
E logo Maurras explicou-lhe.
— Eu tenho necessidade de ouvir, de me informar. Todas as
pessoas que recebo me ensinam alguma coisa que vocês podem ouvir de longe. Eu as ouço de perto... Nunca saiu alguém de meu escritório sem me deixar enriquecido... 
E em outra circunstância, mais liricamente, ele explicava que ademais os "importunos" lhe traziam um consolo especial. Os amigos, os companheiros de luta, especialmente na redação, já se haviam habituado a lhe falar num estilo condensado e reduzido ao essencial, mas os "raseurs" lhe traziam o supérfluo; ora, o supérfluo era o que importava, era o que lhe trazia a notícia deliciosa do modo comum com que os homens não murados conversavam.
Henri Massis (19) descreve maravilhosamente a atenção com que Maurras ouvia os moços, e a delicadeza... ah! quem poderá dizer o que era a cortesia, a polidez incansável desse homem que muitos só conhecem pelas furibundas manifestações de cólera!
E assim, por toda a sua longa vida, sofrendo todas as espécies de injustiças e perseguições, o pletórico, o vulcânico Charles Maurras sempre guardou intacta uma reserva de profunda doçura para a cortesia e para a amizade, essas antigas virtudes dos franceses da antiga França. E é assim que lá adiante, no auge do sofrimento, no topo dos arcabouços da mais cruel injustiça, é assim que o encontraremos quando a Fé recalcada, murada, ensurdenizada, misteriosamente emerge, aflora, e o velho soldado pode dizer.. . 
Mas não antecipemos, que ainda é preciso percorrer um grande lanço de estrada.


in, Gustavo Corção, "O Século do Nada" 

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

As virtudes do príncipe



«O século XVI foi peculiarmente fecundo em produção literária no âmbito da teorização política. Particularmente nos tratados de educação de príncipes, como o demonstrou no seu estudo Nair Castro Soares, o modelo de príncipe do humanismo português configura um tipo de governante que ‘se impõe como exemplo para todos e detém nas suas mãos o destino da república’, por isso se lhe exigem ‘as virtudes morais, a bondade cristã, uma cultura egrégia adequada à formação do carácter e ao melhor discernimento, uma preparação cívica e política que o levem a desempenho digno do mais alto cargo nacional’ (Soares: 1994, 439).
A imagem de D. João IV espelhada no Mausoleum, se não coincide exactamente com a imagem do príncipe ideal do humanismo português, em nada contrasta com ela, pelo contrário. A pedagogia jesuítica em cujo contexto Francisco Machado compõe o Mausoleum, baseada em Aristóteles, no humanismo ciceroniano e nos Exercícios Espirituais, recebe esta imagem de 'princeps christianus', dominado pelo primado da virtude, necessariamente levada à prática. Neste ideal, a educação para a virtude completa a formação intelectual e religiosa do príncipe, cuja formação integral tem como sentido último o serviço à comunidade. 
Este ideal de princeps que sobrevive no séc. XVII está presente no ideal de ‘rei cristianíssimo’ retratado no Mausoleum, como veremos, e partilha do generalizado influxo ético em todos os domínios da acção humana, influxo que a pedagogia jesuítica configurou plenamente. Basta recordarmos o ideal de perfeição activamente procurado numa educação para o heroísmo e para a santidade, dirigida às novas gerações de membros da Companhia ou, de um modo geral, numa educação para a excelência dirigida a todos os alunos dos seus colégios.
(...)
Essas virtudes são: Felicitatem, Modestiam, Charitatem, Prudentiam, Providentiam, Iustitiam,b Clementiam, Affabilitatem, Fortitudinem, Constantiam, Longanimitatem, Veritatem, Liberalitatem, Magnificentiam, Religionem e Pietatem.
(...)
Somam-se ainda outras virtudes especialmente adequadas e necessárias ao príncipe. São elas a Liberalidade, a Magnificência, a Honra (em Francisco Machado designada como Verdade) e a Clemência. A este elenco, Francisco Machado acrescenta ainda a Afabilidade, a Longanimidade, a Providência, a Constância, a Caridade e a Felicidade. 
A simples enunciação destas virtudes permite-nos reafirmar que o opúsculo de Francisco Machado deve ser lido, necessariamente, à luz do ideal humanista do príncipe, mas mais especificamente ainda à luz da concepção de ‘política cristã’ desenvolvida nos séc. XVI e XVII numa linha anti-maquiavélica. Dessa concepção de política cristã temos exemplos em autores peninsulares como o jesuíta Pedro Ribadeneira ou António de Sousa de Macedo, entre outros, cujas obras nos apresenta Luis Reis Torgal no seu estudo "Ideologia política e teoria do Estado na Restauração".»

Carlota Miranda Urbano, Universidade de Coimbra (2011).

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Mais um 5 de Outubro...

 


Cedo percebi como era difícil ser monárquico em Portugal, quando esse ensejo não é motivado por genealogias ou por ficções familiares, nem tão pouco exibicionismos baratos entre brasões e heráldicas, mas pelo puro interesse intelectual, livre e esclarecido, uma forma de pensar e agir, sem partidarismos, ou, mais generalizadamente, a compreensão de uma história de oito séculos motivada pelos trinta e quatro reis que edificaram a nação, de 1143 ao fatídico dia na rotunda em 1910. Mas a história continua, sem "rei nem lei, nem paz nem guerra", nas sombrias palavras do poeta que anunciava "é a Hora". O interregno dura e com ele o nosso descontentamento, a frustração de viver agrilhoado a este regime vendido e corrupto.

Reconheço a história de Portugal no valor dos seus monarcas que ao longo de quatro dinastias delimitaram as fronteiras de Portugal, concebendo a independência da pátria. E, mesmo quando perdida a independência, em 1580, logo a coroa lusa foi restaurada em 1640, na pessoa de El-rei D.João IV, a quem o jesuíta Francisco Machado cognominou "um rei para a res publica", ideia associada a uma matriz ética e cristã ao exercício do poder político. Ainda à salvaguarda da independência, soube D, João VI reagir às ambições do ditador Napoleão, colocando-se no outro lado do mar, feito que apenas beneficiou as terras do Brasil, depois idealizado como Reino Unido de Portugal e do Brasil. Ou os feitos gloriosos que tanto entusiasmam a memória colectiva, motivados pela visão de um Infante D. Henrique e daqueles milhares de homens que lançaram obra e esforço além-mar, legando às gerações vindouras um Portugal maior, e que hoje representativamente enlaça povos e culturas distintas, conquanto se reconheçam nesse comum da língua portuguesa. Passada a fase dos heróis das "Descobertas", dos vice-reis da índia, dos capitães do Brasil, dos “africanos” e do sonho do Império, novamente ficámos entregues às fronteiras anteriores a 1415, ao Portugal peninsular voltado para o Atlântico.

Foi a monarquia portuguesa quem conduziu a liberdade, hoje confundida nos slogans abrileiros repetidos ad nauseam, e até o totalitarismo comunista é justificável. Antes dele já a república pululava em demagogia e em pequenos tiranetes, herdeiros da ignomínia de  1820, liderada por homens irresponsáveis nas reformas perpetradas pela força.  A verdadeira liberdade fora já conhecida em 1385 e em 1640, celebrada nas palavras de Francisco Machado, que associava a virtude ao vínculo que unia o rei à "respublica", dizendo: "O direito hereditário unido ao amor da pátria afastou o perigo, reclamou a liberdade e firmou a coroa."

Por ora resta-me proferir que, em nome da liberdade, monárquico me confesso. Aos mais incautos adverte-se, que não se trata aqui de defender o apanágio do sacro-santo demo-liberalismo, mas invocar a liberdade da pátria sempre ameaçada pelo império de Castela, a liberdade que apenas a hereditariedade e a tradição podem garantir. Não a liberdade usurpada pelos interesses do nosso "arco da governação", nem as indiferentes celebrações de cravo na lapela, ou tão pouco a confraternização com essa maçonaria burguesa e serôdia de avozinhos gritando vivas à república...

A verdade é que, se não me confessasse monárquico, tão pouco me julgaria (jamais) republicano, porque « quand je songe que j'ai été républicain, je me battrais. » (diriam os militantes da Action Française). Ao invocar o nome República invoco a expressão latina Res publica, um conceito desvirtuado pela propaganda jacobina, copiosa daquele galicismo revolucionário de Robespierre, Marrat, Danton. A República de barrete frígido que procurava imitar a França revolucionária na sua simbologia e na sua mística, num tempo em que as alegorias à revolução francesa pareciam tão retrógradas como ultrapassadas. Tal como os liberais, os Republicanos, seus afilhados, não passavam de plagiadores políticos dos modelos estrangeiros.

 Já não se conhece a "Respublica" idealizada pela pena de Diogo Lopes Rebelo, pelo Infante D. Pedro, pelo jesuíta Francisco Machado, ou as "almas republicanas" (assim atacou António Sérgio) de António Sardinha, Luís de Almeida Braga, Hipólito Raposo, verdadeiramente crentes na superioridade da instituição monárquica.

Ao passar os olhos por vários textos do Professor José Adelino Maltez, de Mário Saraiva, ou de Henrique Barrilaro Ruas, descubro o revigoramento desses paradoxos semânticos (por vezes acusados de contra-senso), apenas compreensíveis numa leitura mais atenta relativamente às especificidades da nossa origem e da nossa organização política, que, desde Afonso I a Afonso IV afirma Portugal como reino independente, num paradigma diferente ao da Europa de então. Em Portugal torna-se perceptível a precoce centralização do poder, a criação de uma administração que muito deveu à subjugação dos interesses nobiliárquicos e à afirmação do poder Real.

Juristas e teorizadores políticos souberam pensar a “Res publica”. Diogo Lopes Rebelo, cujo tratado “De republica gubernanda per regem” (“Do bom governo da República pelo rei”) é característico, vem ao encontro da tradição portuguesa. Os próprios monarcas empregavam a palavra “República” como sinónimo de “Reino”, tão bem expresso na fórmula usual: “para serviço de Deus, meu e bem da República...” A realeza do rei completava a República, uma certeza tão elementar e uma realidade tão bem aceite que o próprio padre António Vieira chegou a escrever: “temos um rei muito repúblico”.

Não perdi, porém, o meu cepticismo, nem vejo na nostalgia de épocas passadas a solução aos dilemas do presente. Não enlaça, portanto, imperialismos ou exacerbações políticas duvidosas., os modelos copiosos do estrangeiro, a xenofobia e o extremismo. Desprezo o radicalismo vácuo, a grande mobilização da multidão acéfala (o totalitarismo moderno), como já enunciara Le Bon. E não suporto tão-pouco os apóstatas que se servem da instituição monárquica apenas para minar as suas forças.

Da monarquia não espero a solução aos nossos dramas presentes, nem a finalidade última que nos conduzirá a uma felicidade eterna (ironizando o ensejo ingénuo de muitos). A viva crença que vem urgindo pela substituição do presidente, dito, "da república", por um rei, chamado, "constitucional", não me convence de todo, por muito “Realista” que seja. Diria Maurras:  La nécessité d'un recours au Roi. 

Os meus amigos republicanos, quando num momento de maior tolerância, olham a monarquia apenas como constitucional, admirando-a de forma passível, na sua inércia, com uma "rainha à inglesa", i.e., que "reina, mas não governa", um símbolo jocoso e fácil de tolerar, dizem tratar-se de desígnios do tempo, no fundo, não vislumbrando alternativas aos sistemas republicanos hodiernos.

Falando agora  nos próprios monárquicos, estes anseiam pela “nova constituição”, isto é: substituir o presidente pelo rei, aplaudindo as monarquias nórdicas como exemplares, mas podiam também aplaudir a "republicanissima" Finlândia, o que me leva a perguntar, com amarga ironia: se esses países são desenvolvidos por serem monarquias, ou se têm monarquias por serem desenvolvidos? Nada mais absurdo nestas comparações. Nada mais incómodo do que ignorar a nossa própria herança histórica, os nosso padrões, os nosso valores, sempre renegados em nome de cópias estrangeiras.

Pergunto-me se estará a sociedade portuguesa preparada para abraçar a instituição monárquica. Eis o meu cepticismo e os meus receios maiores, ao constatar no desvirtuamento das ideias, na vacuidade mental, no ódio, nos recalcamentos aditados ao rancor para com todas as formas de poder. Uma herança grandemente devida à literatura positivista do século XIX.

A historiografia desde o liberalismo, e depois com a “Geração de 70”, assombraram o passado português com as mais obscuras memórias. Oliveira Martins analisou a história de Portugal imbuído num profuso“pessimismo critico” (Jesus Pábon), reconhecendo apenas indivíduos imorais, juízes corrompidos, aristocratas apodrecidos, sacerdotes de vocação duvidosa e a decadência dos reis a quem apontava loucuras, defeitos e vícios. Para este historiador o “passado é sombrio”.

As gerações que vibraram com a Questão Coimbrã e, mais tarde, com o Ultimatum Britânico, depressa nomearam três figuras representativas da iminente decadência portuguesa: o Rei, o jesuíta e o Inglês. Desta historiografia, desta intelectualidade abusiva, ainda não nos livrámos, e muitos dos preconceitos hoje criados em torno da instituição Real a ela se devem.

Quanto ao 5 de Outubro, este passou a ser conjurado pela mítica republicana como um dia de “liberdade” que apenas pode ser compreendido à luz da propaganda da época. Se é certo que a literatura republicana se recheou dum patriotismo exaltante, dum anticlericalismo fanático, e de uma retórica vibrante, proclamando os “imortais princípios” (António Sardinha dixit), “liberdade, igualdade e fraternidade”, indubitavelmente constata-se que esses “princípios” não se realizaram na prática. Nem podiam, tão pouco, realizar-se, na confusão em que se enlaçou o regime, caricaturalmente parlamentar, por vezes sujeito à “ditadura das ruas”, aliás, sistema completamente desfasado da realidade portuguesa e longe de ser compreendido pelo próprio povo.

O dia 5 de Outubro como início da República apenas lembra a divisão, e não a união dos portugueses. Como português de cepa que sou celebro o 5 de Outubro de há oito séculos, aquele dia em que foi reconhecida a realeza de D. Afonso Henriques, confirmando assim a independência do Reino, depois consagrada pela Bula Manifestis Probatum de 1179. Prefiro celebrar Portugal, a "Lusitânia antiga liberdade", a celebrar a "República-que-se-diz-portuguesa", uma cerimónia fúnebre de discursos ocos lembrando a morte de um rei e de um jovem príncipe, o terrorismo, a institucionalização da desordem, o caciquismo militar, as perseguições às ordens religiosas.  É preciso ressuscitar Portugal, com o Rei, tal como ficou imortalizado no grito de Almacave: "Nos liberi sumus, Rex noster liber est, manus nostrae nos liberverunt" (Nós somos livres, nosso Rei é livre, nossas mãos nos libertaram).

Lembro as palavras de Francisco Sousa Tavares: "E a Coroa não pode nem deve ser um sinal de divisão, ou uma sigla de partidos. Mas sim o cristal em que todos os portugueses possam encontrar a sua imagem. O cristal é frágil. E não sei até que ponto, quando se quebra pode readquirir o seu brilho e a sua transparência."


pelo rei e pela grei