segunda-feira, 28 de outubro de 2013

El-rei prossegue o seu caminho...



"El-Rei olha à sua volta, e sente-se prisioneiro. Prisioneiro da História, prisioneiro da Nação – está bem que o seja. Para isso é Rei. Mas são outras as cadeias que o prendem. D. Carlos I está preso no Sistema, preso na dourada prisão de uma corte inútil, na malha subtil de uma Constituição envelhecida; preso na decrepitude de um tempo sem alma; preso na pior das cadeias – no silêncio, na ausência, ou na indiferença dos seus. De quando em quando, vemos vencer esse terrível isolamento uma voz austera e, ao mesmo tempo, amiga, a voz de um Oliveira Martins ou de um Mouzinho de Albuquerque. Depois, tudo regressa ao mesmo silêncio. O Povo não conhece o Rei. O Rei, sim, conhece o Povo, sabe que ele é bom – mas já não o sente junto de si.

A liberdade de mentir e caluniar continua a progredir. Está quase pronta a sua obra. D. Carlos não reclama. Pode pedir ao Presidente do Conselho (José Luciano de Castro) que proíba os jornais de propalar notícias alarmantes a respeito da epidemia de cólera que enlutou a cidade do Porto. Mas não pede que se ponha cobro à campanha de vilezas que o atingem.

Com uma serenidade invencível, El-Rei prossegue o seu caminho. Desde o limiar do Trono, habituou-se a ser mal julgado – por vezes pelos que a maior preparação pareciam ter para uma adequada visão dos [-187] factos políticos. À crise profunda da Aliança Inglesa; às exigências de uma efectiva presença no Ultramar – El-Rei responde com prontidão e sabedoria, com energia e bom senso. Mas o mundo emaranhado do Terreiro do Paço, por muito que ele o conheça, acabará por perdê-lo. D. Carlos conhece o intriguista; mas não conhece a intriga. Conhece o vilão; mas não a vilania. Conhece o desleal; mas só pratica a lealdade."

Henrique Barrilaro Ruas, 1ª ed. In Gil Vicente, Setembro-Outubro de 1965; 2ª ed, in A liberdade e o Rei, Lisboa, 1971, pp. 172-190; 3ª ed, com prefácio de Dom Duarte de Bragança, Lisboa, Occidentalis, 2008

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