sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Santos Mártires da Rússia


Mártires do Comunismo, são também as primeiras vítimas do totalitarismo moderno, quando o século veio aniquilar as tradições na edificação do mundo novo, que exigia na primeva exaltação do constituído estádio revolucionário, o sacrifício dos antigos filhos para, da carcaça despojada, pudesse então reclamar o seu lugar no mundo, usurpado e portanto procurando legitimá-lo com o sangue dos inocentes. Esse sacrilégio é sentido ritualístico da passagem do homem velho para um presumível homem novo, liberto de todas as amarras, sentido já compreendido desde a revolução francesa, a primeira revolução totalitária da história. A família Romanov representa a lealdade e a união em tempos de crise, símbolo espiritual de uma nação que procura reencontrar as suas crenças, vai ao encontro do mito quando já se esgotam as esperanças e a civilização, cansada do sofrimento, é obrigada a expiar as suas mágoas. Afinal, o passado é o espaço onde o diálogo começa para apaziguar o futuro, e na fé pode o homem brandir as suas dúvidas e os seus pecados. Nicolau II não foi o déspota esclarecido, nem o Czar iluminado, nem tão pouco o líder intransigente capaz de manejar com firmeza o poder. Pode alguém lamentar que Nicolau II não esteve à altura dos seus antepassados. Nicolau II não foi o Czar sanguinário, como Ivan, o Terrível, nem o senhor da guerra ambiciosos e megalómano, como Pedro, o Grande, não tendia para os hábitos intelectuais e filosóficos, de um Alexandre I, glorificado pela luta contra Napoleão, nem os sucessos militares do irmão deste, Nicolau I (o que torna o nome de Nicolau II uma triste ambivalência, também ironia de sangue e martírio) nem a capacidade política de um Alexandre II, seu avô, com tendências mais liberais, homem decidido e esclarecido, conseguiu no seu jeito firme abolir a servidão no império, nem tão-pouco Nicolau II possuía o carácter autoritário de seu pai, Alexandre III, ainda que o título de Imperador e Autocrata exigisse a tanto. Nicolau II, homem de dúvidas e apreensões, dividido entre o amor à família e o amor à pátria (e veja-se como os dois também se conjugam) não compreendeu, pelo menos imediatamente, a pressão dos acontecimentos. O Czar no traje divino que o reveste tem de encarnar a nação, é o seu mais pesado fardo, a sua missão no mundo, liga-o por vínculo profundo ao seu povo, porque dele dependem milhões, ele reveste a imagem paternal, debaixo dele todos os homens procuram a segurança e a fé, procuram respostas, procuram a figura da nação, que também é a sua, mas nesses sentidos, profundos e bem enraizados, Nicolau II se desliga, percebia o seu dever, e percebia a origem do poder, mas não compreendeu como manipulá-lo, nem como ajuizar os factos à luz dessa tradição. O século XX vinha incomodar essas antigas instituições, o mundo estremecia, e o Czar, maniatado à sua condição, que o tornaram irresolúvel face à exigências, afastou-se dos ventos da história. Acabou por sucumbir, num corpo onde repousavam 300 anos da história da Rússia, não era apenas um homem, era todo um Império, era um povo, uma fé, uma origem antiga que se misturava no próprio solo pátrio, morto, ressuscitaria depois, mártir redentor e luz para o futuro. 

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