segunda-feira, 30 de setembro de 2013

António Sardinha: O Hispanismo e as teorias da Monarquia tradicionalista (breve referência)



1. Enumeram-se alguns pontos relativamente ao pensamento de António Sardinha (1887-1925), nomeadamente a concepção de “hispanismo” e de “lusismo”, enquanto problematização de Portugal quanto ao seu passado e ao caminho a trilhar no futuro. De Teófilo Braga (1843-1924) aceita alguns pontos iniciais mas rejeita as suas conclusões. De Oliveira Martins rejeita as suas análises vestibulares, porém aceita as suas conclusões. Porque Teófilo já referia a origem étnica da nacionalidade, ponto de partida aplaudido por Sardinha, contrariando Oliveira Martins, no entanto, volta-se para este último nas conclusões, quando refere a existência de um “génio peninsular”.

Debruçando-nos, ainda que insuficientemente, sobre as ideias de António Sardinha, depreende-se o sentido que procura inculcar na sua análise. Para o autor de “A Aliança Peninsular” o hispanismo, enquanto complemento do lusitanismo, consiste numa ideia moral, cultural e sentimental, não equivalendo a federações políticas, aliás, podemos considerá-lo na mesma acepção do Padre António Vieira, a esfera armilar enquanto paradigma da reinvenção de Portugal como nação de todo o mundo. O hispanismo estender-se-ia à América Latina e ao Brasil, longe de federal, é antes uma concepção fraternal, sem os perigos de conflitos ou anexações.

A aliança entre Portugal e Espanha assentaria na própria matriz histórico-cultural, e não político-económica (não passaria por tratados de comércio ou federações politicas), porém, essa comum convivência partiria do próprio mundo criado pelas duas nações. Em “A Aliança Peninsular” não deixa de expor a sua visão, aquilo a que chama o “instinto da unidade peninsular”, súmula deste referencial comum comunitário luso-hispânico. Escreve: 

“Pela espontânea e natural aliança do génio Hispânico com o cristianismo, portugueses e castelhanos fizeram sempre seus inimigos os inimigos tradicionais da fé cristã”. Acrescenta: 

“(…)contra a palavra ‘Hispanismo’ – a única que exprime e coordena todas as aspirações criadoras não só das duas pátrias peninsulares, como das nacionalidades hispano-americana, Brasil incluído, que um ‘latinismo’ hipócrita intenta roubar-nos e assimilar?” (in, “A Aliança Peninsular”, António Sardinha). 

Na esteira de Oliveira Martins, o autor de “O Valor da Raça” concebe o hispanismo enquanto filho do “génio peninsular” (Oliveira Martins), representando o “renascimento do velho guerreiro de Deus, mas já despido da sua pesada armadura para fecundar a secura da vida moderna pela profundidade de uma concepção ideal de vida, permitindo ao ocidente banhar-se nas águas da sua mocidade (…)” (em “A Aliança Peninsular” citada por Pedro Calafate no livro “Portugal como Problema, volume IV”). 

2. No âmago desta concepção reside esse “reservatório de energias” a que chama “o valor da raça”. As ideias de António Sardinha não podem ser afastadas desse ideal pátrio relativamente ao qual sustém o discutido "problema da identidade da raça portuguesa", nesse âmbito, procura na própria estrutura espiritual do povo a sua razão de ser. O poeta repete constantemente a ideia da “raça”. A expressão “Valor da raça” vinha identificar a “Verdade Portuguesa”, portanto, para compreender esta concepção é necessário ler a palavra “raça”, enquanto “Grey”, extraído naturalmente do ex libris de D.João II (Pola Ley, Pola Grey), nas palavras do poeta: “a concepção jurídica dum todo uno idêntico na composição e no destino”, numa mesma acepção tal ideia pode ser encontrada na filosofia tomista, e vem novamente o poeta declarar: “as instituições dum país são a criação do seu génio. Tal é o mandamento a arvorar como primacial artigo da nossa fé. Segue-se-lhe o valor da Raça como razão indiscutível de existência”. (leia-se “O «Valor da Raça» segundo António Sardinha e o Integralismo Lusitano” José Manuel Quintas, em “Una Semper Avis”). 

3. Não obstante, enquanto municipalista, Sardinha é herdeiro de Alexandre Herculano, no qual, o poeta de Monforte, reencontra as teses da democracia orgânica e tradicionalista. Na obra de Herculano o poeta justificará a importância do municipalismo medieval. A liberdade que podia ser encontrada no municipalismo, nas suas formas sociais, apenas existiria se considerada a autoridade, não confundida com o autoritarismo - não destrói, portanto, os valores da democracia orgânica. Em suma, é a autoridade intrínseca à vida do homem em sociedade, deste princípio ressalta a defesa do regime monárquico, ensinamentos que beberá de Gama e Castro, Agostinho de Macedo ou do Marquês de Penalva, mas também de Maurras, Taine, Renan, entre outros autores, sobretudo franceses. Mormente, não foi de relegar a influência de Teófilo Braga, emérito como era tal referência intelectual. Mas a relação com as ideias de Teófilo não foi pacífica: Teófilo refere um “federalismo”, ao jeito da Suíça, aí Sardinha não o contesta, porém, critica o “lusismo” de Teófilo por ausentar-se esse “justo remate” (José Manuel Quintas), faltava a imagem do rei. Apenas o rei poderia constituir a nação portuguesa. Não obstante, relativamente às ideias de Teófilo Braga, tal influxo seria notório essencialmente no campo da historiografia e da filologia, investigando uma reconstrução da identidade nacional, pois sabiam os Integralistas (e sabia-o bem António Sardinha), que, a superação do marasmo burguês, apenas seria alcançado mediante o regresso à tradição ancestral, i.e., a consumação da revolução tradicionalista (leia-se também, Rui Ramos, Prefácio à obra de DESVIGNES, Ana Isabel Sardinha, Correspondência de António Sardinha para Ana Júlia Nunes da Silva (1910-1912)). 

 4. A monarquia integral, concebida e pensada na pena dos ilustres filósofos integralistas, trata de pôr termo à falsa dicotomia liberdade e autoridade, partindo da noção de ordem, entendendo o rei como o unificador dos “municípios, [d]as províncias e [d]as corporações autónomas na sua esfera, toda esta grandiosa hierarquia desenvolvendo-se” (14), o soberano agregaria esse todo que é a pátria. Não deixa de criticar ousadamente o individualismo burguês e capitalista, nesse ponto aproximando-se da tradição escolástica portuguesa na sequência de Frei João de São Tomás, já anunciado como alternativa à modernidade. Sardinha valoriza a “pessoa” em detrimento do “individuo”, cruzando-se com o personalismo cristão e, subsequentemente, com as doutrinas do neotomismo (para São Tomás a dignidade da Pessoa radica na ordem do ser e não na do fazer) (Vide, CALAFATE, Pedro, Portugal como Problema, Fundação Luso-Americana, Jornal Público; e ainda BRITO, António José, Homenagem a António, Jornal "Mensagem", 1948). 

Muito havia a dissertar relativamente ao ilustre poeta e pensador de Monforte, porém aqui ficam algumas notas, ainda que insatisfatórias e incompletas, porém apenas sumariando brevemente alguns pontos do pensamento de António Sardinha. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Santos Mártires da Rússia


Mártires do Comunismo, são também as primeiras vítimas do totalitarismo moderno, quando o século veio aniquilar as tradições na edificação do mundo novo, que exigia na primeva exaltação do constituído estádio revolucionário, o sacrifício dos antigos filhos para, da carcaça despojada, pudesse então reclamar o seu lugar no mundo, usurpado e portanto procurando legitimá-lo com o sangue dos inocentes. Esse sacrilégio é sentido ritualístico da passagem do homem velho para um presumível homem novo, liberto de todas as amarras, sentido já compreendido desde a revolução francesa, a primeira revolução totalitária da história. A família Romanov representa a lealdade e a união em tempos de crise, símbolo espiritual de uma nação que procura reencontrar as suas crenças, vai ao encontro do mito quando já se esgotam as esperanças e a civilização, cansada do sofrimento, é obrigada a expiar as suas mágoas. Afinal, o passado é o espaço onde o diálogo começa para apaziguar o futuro, e na fé pode o homem brandir as suas dúvidas e os seus pecados. Nicolau II não foi o déspota esclarecido, nem o Czar iluminado, nem tão pouco o líder intransigente capaz de manejar com firmeza o poder. Pode alguém lamentar que Nicolau II não esteve à altura dos seus antepassados. Nicolau II não foi o Czar sanguinário, como Ivan, o Terrível, nem o senhor da guerra ambiciosos e megalómano, como Pedro, o Grande, não tendia para os hábitos intelectuais e filosóficos, de um Alexandre I, glorificado pela luta contra Napoleão, nem os sucessos militares do irmão deste, Nicolau I (o que torna o nome de Nicolau II uma triste ambivalência, também ironia de sangue e martírio) nem a capacidade política de um Alexandre II, seu avô, com tendências mais liberais, homem decidido e esclarecido, conseguiu no seu jeito firme abolir a servidão no império, nem tão-pouco Nicolau II possuía o carácter autoritário de seu pai, Alexandre III, ainda que o título de Imperador e Autocrata exigisse a tanto. Nicolau II, homem de dúvidas e apreensões, dividido entre o amor à família e o amor à pátria (e veja-se como os dois também se conjugam) não compreendeu, pelo menos imediatamente, a pressão dos acontecimentos. O Czar no traje divino que o reveste tem de encarnar a nação, é o seu mais pesado fardo, a sua missão no mundo, liga-o por vínculo profundo ao seu povo, porque dele dependem milhões, ele reveste a imagem paternal, debaixo dele todos os homens procuram a segurança e a fé, procuram respostas, procuram a figura da nação, que também é a sua, mas nesses sentidos, profundos e bem enraizados, Nicolau II se desliga, percebia o seu dever, e percebia a origem do poder, mas não compreendeu como manipulá-lo, nem como ajuizar os factos à luz dessa tradição. O século XX vinha incomodar essas antigas instituições, o mundo estremecia, e o Czar, maniatado à sua condição, que o tornaram irresolúvel face à exigências, afastou-se dos ventos da história. Acabou por sucumbir, num corpo onde repousavam 300 anos da história da Rússia, não era apenas um homem, era todo um Império, era um povo, uma fé, uma origem antiga que se misturava no próprio solo pátrio, morto, ressuscitaria depois, mártir redentor e luz para o futuro. 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Especificidades da cultura portuguesa




"Portugal tem uma cultura sua. Da língua e de mil factores partiu Portugal para uma cultura diferente de outras, e que lhe é inerente. Há uma 'expressão' portuguesa em prosa como a há em poesia. Não é somente uma expressão em língua própria; é uma expressão em 'linguagem' própria. Decerto: nos seus primórdios sofreu influências, embates, interpretações, como acontece em todas as formas culturais vivas. Mas desde muito cedo se afirmaram características suas apenas. Isto é, há uma maneira portuguesa de exprimir ideias, comunicar sentimentos, descrever factos, reconstruir ambientes. Há um matiz ou um estilo português de recriar realidades. Fernão Lopes já é claramente português na sua expressão, e não é como 'outro'. Fixam os grandes cronistas posteriores uma língua e a matriz própria de a utilizar culturalmente. Camões assenta firmemente não só a língua como a poética portuguesas e, muito mais do que isso, talha um 'modo português' de ver, de sentir, de comunicar, de interpretar; e a tal ponto que, sem embargo de haver absorvido a grande cultura do seu tempo, ficou medularmente português, e por essa via soube reflectir ressonâncias universais. Deu à cultura portuguesa uma actualidade permanente e um valor planetário; e, os símbolos camonianos são assim válidos para as literaturas cultas." 

Franco Nogueira, "Juízo Final", Livraria Civilização Editora, 2007

sábado, 21 de setembro de 2013

António José de Brito, Presente! 1927-2013


Morreu o mais extraordinário pensador português do século XX,  professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, foi considerado "um dos maiores pensadores portugueses vivos" na década de 1990 por António Braz Teixeira, então presidente da Imprensa Nacional Casa da Moeda. Homem de pensamento corajoso e arrojado, intelectual de ideias profundas tal como é notório na vasta obra publicada, da qual se destaca "Sobre o Momento Político Actual" (1969), ou o sempre citado "Diálogos de Doutrina Anti-democrática" (1975) e os seus textos de filosofia do direito. Não partilho de muitas ideias do professor, mas isso pouco importa para ajuizar o seu mérito e a sua grande personalidade, importa sim recordar o pensador. Fica aqui a homenagem. António José de Brito, Presente!  


»Portugal é o quê, então?
É um triângulo anárquico que vive habilmente à custa da Europa. Daqui a algum tempo deixará de viver e, então, ver-se-á em grandes dificuldades e terá um nível de vida idêntico ao de algumas repúblicas da América Central. Costumam perguntar-me coisas sobre os últimos escândalos, mas normalmente não vejo televisão, excepto filmes policiais e futebol. Sou um exilado do interior. Vivemos num regime onde não pode haver uma autêntica oposição de extrema-direita, porque a lei é severa. Mas também não há pessoas suficientes. Quando nos encontramos, trocamos impressões saudosas sobre isto e aquilo, falamos de obras que vão saindo, aprofundamos os filósofos, vivemos exilados num regime de pluralismo condicionado. De ideologia única, que é a ideologia democrática. Quem não for democrata, pois recolha à privada.»

da entrevista feita ao Professor Doutor António José de Brito, ler aqui

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cem anos de Integralismo Lusitano




Foi há cem anos que um grupo de jovens irreverentes e idealistas, antigos estudantes de Direito, na Universidade de Coimbra, se reuniram para apresentar uma proposta de alternativa quer à Monarquia Constitucional, quer à República, então recém-implantada (diga-se: imposta em Lisboa pelas armas e na província e nas colónias pelo telégrafo). Essa proposta enumerou-a Alberto Monsaraz na revista "Nação Portuguesa": Integralismo Lusitano, "monarquia tradicional, orgânica e anti-parlamentar". Um ano antes, em 1913, Luís de Almeida Braga, no exílio na Bélgica cunhara o nome "Integralismo Lusitano", identificando um projecto de reanimação da alma nacional. 
Evoluiu, como referira António Sardinha, do mundo das ideias, para a política. Os jovens integralistas começaram por reagir, culturalmente, contra o movimento saudosista de Pascoaes e contra o movimento da "Nova Renascença". Propunham procurar o "reaportuguesamento de Portugal", ideia ulteriormente conhecida a partir do pensamento dos "Vencidos da Vida". Animado por esse ressurgimento face à antipatia republicana vai Ramalho Ortigão saudar os jovens integralistas em "Carta de um velho a um novo", aplaudindo aquela energia, aquele saudável idealismo. Agora, a geração que se deparava com o marasmo lusitano, no entorpecimento da raça, podia finalmente regozijar com uma terceira via, que não fosse a constitucional, ou a liberal, uma corrente não democrática, mas tradicionalista, que novamente apresentava os autores, então esquecidos, do Legitimismo: Gama e Castro, Frei Agostinho de Macedo, Frei António de Beja, Jerónimo Osório, Diogo de Paiva...
Aqueles jovens assumiam-se como católicos e monárquicos, num tempo que renegara a fé, e que perdera os sentidos mais profundos da tradição pátria. Um século que lhes queimara "as asas de fé" (adaptando as palavras de António Sardinha à sua esposa). Ao assumir esta posição os integralistas demonstravam-se verdadeiramente combativos para devolver à pátria a identidade roubada por cem anos de estrangeirismo liberal revolucionário. Entende-se que esta demanda demonstrava-se porventura mais árdua, não era tão-apenas restaurar a monarquia barbaramente deposta (essa era uma ideia demasiadamente simplista), antes, significava recuperar a antiga tradição. Na esteira desta concepção pretendiam reconhecer os foros e liberdades da Res pública, das comunas urbanas, dos conselhos rurais, dos municípios, mormente estabelecer a representação destes em Cortes e definir o papel que o Rei representaria. Em suma, a proposta integralista subjazia à defesa da realeza do rei consubstanciada na origem divina do monarca, pelo que rejeitaram o paradoxo de Thiers que estabelece que "o rei reina, mas não governa", em oposição defendiam a ideia de Gama e Castro: "O rei governa, mas não administra". 
Foi um movimento de resistência, primeiro contra a República jacobina e maçónica de 1910, depois oporia alguns dos principais ideólogos contra o Estado Novo. Hipólito Raposo e Luís de Almeida Braga vincaram pé ao regime nascido da Constituição de 1933, denominado pelo próprio Hipólito como "salazarquia", imputando contradições insolúveis à nova ordem, contrária à concepção integralista. Verdadeiramente, muitos monárquicos apoiaram o novo regime. Num estado apaziguado com a fé católica, que procurava enaltecer a história  e a tradição, que no alto desígnio do estado forte recuperava a ordem e a estabilidade, parecia inevitável. Para monarquia, ao Estado Novo faltava sagrar a hereditariedade que apenas a realeza pode constituir, no fundamento, contudo, almejava a superior realização.
Tão pouco o Integralismo foi um movimento de massas, como muitos dos que emergiram nesse século, permaneceu elitista, inalcançável para um povo ainda maioritariamente analfabeto, ademais a linguagem académica, o profundo sentido filosófico e os estudos tão dedicadamente elaborados, nem sempre às massas interessava ou despertava interesse. Porém, motivou-os as circunstâncias: as incursões monárquicas de Paiva Couceiro, a questão da sucessão real, o sidonismo, depois a ditadura militar, o próprio Estado Novo enquanto especificidade tão própria motivada pela visão superior de um estadista, Salazar.
Face a esta enumeração, cabe prosseguir com cautela e apresentar alguns factos. A questão da sucessão real lançou os integralistas para o campo da politica ainda antes de assumirem derradeiramente a sua postura combativa. A desconfiança face às pretensões de D.Manuel II dividiu muito os monárquicos, entre manuelistas e miguelistas. Os integralistas acabaram, entretanto, por se afastar do rei exilado. Esta ruptura com os manuelista levou-os a preferirem a linha miguelista dos Bragança, ligação proposta através do Acordo de Bronnbach (1920). A questão controversa ficaria apenas resolvida em 1926, apesar de tudo, não impediu muitos integralistas de se manterem fieis a D.Manuel II, grupo esse que, mais tarde, viria a constituir a Acção Tradicionalista Portuguesa, pela mão de Alfredo Pimenta e Caetano Beirão.
Os membros do Integralismo Lusitano apoiariam também o sidonismo, no encontro desejado à realização plena do pensamento. Certamente próximo em muitas considerações, apesar de salientes divergências: os integralistas pretendiam que o regime sidonista fosse mais anti-republicano e anti-democrático, queriam mais ainda, exigindo que Sidónio impedisse as eleições, exigências nunca correspondidas naquele curto espaço de tempo em que durou a República Nova de Sidónio.  Rendidos, acabaram por aceitar a integração na Comissão Eleitoral Monárquica. Todavia admiravam a postura autoritária do regime e viam-se mesmo como os "inspiradores políticos do sidonismo" (nas palavras de Sardinha no jornal "A Monarquia"). 
Entretanto, morre António Sardinha (em 1925), o principal ideólogo do movimento, o autor de "O Valor da Raça" e  "Ao Ritmo da ampulheta", poeta também de meritória qualidade, como são exemplo "A Epopeia da Planície"  ou "Na Corte da Saudade", privando o movimento de uma das suas mais carismáticas figuras. Os integralistas continuam a luta e, a 28 de Maio de 1926, estão ao lado de Gomes da Costa, quando este parte de Braga, descendo pelo país (em Coimbra os estudantes estendem-lhe as capas, como é tradição na recepção a figuras ilustres) para depois entrar, triunfante, em Lisboa. Lograram o seu objectivo, destruir a República arcaica e jacobina, que imitava ridiculamente a França no uso do barrete frigio. Na ditadura militar podiam já desenhar um projecto futuro para reanimar a pátria.
O papel dos integralistas não pode ser reduzido nestas circunstancias, foi a sua persistência em debater a situação nacional, o esforço de formular um pensamento, na constituição de uma alternativa política, nas armas que muitos deles não temeram em arremessar para bater-se na Galiza ao lado de Paiva Couceiro, foi essa energia quem permitiu fazer do Integralismo uma vanguarda de combate pela monarquia tradicional e orgânica. Utopia que fosse, doutrina, política ou idealismo vibrante, foi o Integralismo o projecto nunca concretizado, ainda que muitas das suas ideias fossem adaptadas por quem conviesse, ou as suas doutrinas constantemente citadas desde admiradores a deturpadores.
Nos anos subsequentes à ditadura a instabilidade doutrinal agudizava-se na efervescência dos ventos soprados de além-pirinéus. Os próprios integralistas dividiram-se com a evolução dos acontecimentos, alguns acabaram mesmo por se confundir com o fascismo no uso de camisas azuis (como foi o nacional-sindicalismo de Rolão Preto) já numa fase tardia em que os ideais lançados em 1913 se esgotavam. Afinal uma aventura muito quixotesca, alto pitoresca no folclore, animada pelos mais altos propósitos. O Nacional-sindicalismo terá sido o mais próximo a um movimento de massas que por aqui grassou, com um Chefe (Rolão) animador empertigado e carismático, cuja audácia ainda agitou a sociedade portuguesa. Em 1933-34 os camisas azuis são perseguidos, Rolão Preto e Alberto Monsaraz vão para o exílio, ainda que, em 1935, Rolão Preto regresse para participar numa nova conspiração contra o regime. 
Com a morte de D. Manuel II, sem descendência, já muitos integralistas se tinham voltado para a Causa Monárquica, constituída em torno de D. Duarte Nuno. Depressa os integralistas desiludiram-se com o caminho tomado pela ditadura militar. Luís de Almeida Braga e Hipólito Raposo lançam a revista "Integralismo Lusitano", de modo a apresentar com clareza os ideais do movimento acusando o Estado Novo de não o compreender. Será de todo lícita a acusação?
O corporativismo que defendiam, por exemplo, não se associava àquele consagrado pela Constituição de 1933, sentiam que os seus ideais estavam a ser deturpados pelo regime. Aqui debruçamos algumas críticas: as concepções nacionalistas, orgânicas, tradicionalistas, corporativistas, não eram monopólio do integralismo e perpassam grande parte da intelectualidade anti-democrática e anti-liberal que naqueles anos, entre a República e o Estado Novo, floresceu. O corporativismo realizado pela Constituição de 1933 foi o mais próximo ao ideário do movimento, concretizado da forma mais realista possível, positivado dentro do consenso permitido, dentro da ordem necessária. 
Acuse-se: ainda que o salazarismo pretendesse alinhar com alguma doutrina do integralismo, como o corporativismo ou o nacionalismo, não os realizou como os principais mentores do movimento o haviam pretendido. Mas Salazar não se iludia, o Presidente do Conselho esclareceu mesmo que, a moral, estava acima da política, numa demanda para a "reconstrução nacional". Salazar pretendia apaziguar o país depois da balburdia da república. O idealismo, ora mais romântico, ora mais empolgado do integralismo requereria um maior esforço. A sua dinâmica prevalecia no plano das ideias, mas Salazar debruçava-se sobre o mundo dos factos. Os integrlaistas eram doutrinadores, mas Salazar era um concretizador, um técnico, um pessimista realista educado no pensamento dos papas sociais anti-modernos e do maurrasianismo.
Então, o regime consolidado e procurando acomodar as várias tendências desde a direita republicana, até aos monárquicos da Causa, esforçava-se por apresentar um modelo que fosse de encontro à união nacional de todos os portugueses, e não a ruptura, a revolução, ou a guerra civil. Os integralistas, movidos pela enérgica vontade que inspira os sonhos mais provectos, esses que fazem girar o mundo na procura de novas idealidades, lutavam pelo que parecia difícil de alcançar - o viver perigosamente, como era ensejo de alguns, contrário ao regime que idealizava o viver habitualmente, como confessou Salazar a Massis. Compreende-se certamente que de anarquia já estava o país cansado, de idealismos desenraizados já muitas boas intenções tinham singrado em Portugal sem grande sorte. Salazar apaziguava os espíritos inquietos e oferecia-lhes a condição de servirem o país dentro das estruturas do regime.
Também se afastaram de Salazar, os integralistas, pela demora deste em restaurar a monarquia, para eles o verdadeiro chefe, o verdadeiro poder paternal, seria o rei. Luís de Almeida Braga escreve mesmo sobre as insuficiências do regime, i.e., a sua fragilidade por depender da figura de um único homem, Salazar, e como tudo se desmoronaria após o seu desaparecimento. Não obstante, para os integralistas, havia uma diferença entre o exercício pessoal da autoridade e a sua corporatização institucional. De facto a monarquia, conditio sine qua non de qualquer grande reforma, não era adoptada na sua institucionalização, para Salazar o reforço da autoridade não dependia da forma de governo (1). Porque monarquia queria a Causa restaurar? Ontem como hoje era a "monarquia" proto-republicana dos monárquicos endeusados com o demo-liberalismo. Entende-se a resolução de Salazar.
Para os integralistas, o Estado Novo pecava igualmente por não garantir as liberdades institucionais da descentralização monárquica, as liberdades locais (não confundidas com as liberdades individuais), assim criticou Pequito Rebelo em O meu testemunho. Há aqui uma "ideia falsificada" do integralismo, como acusou António José de Brito (2), entre a monarquia pura e a monarquia falseada, entre a doutrina do integralismo anti-liberal e da geração do pós-guerra que reverteu a ideia para subverter o princípio.  
Descobrimos integralista a apoiar o Movimento de União Democrática em 1947 e podemos perguntar que apoplexia deu nas mentes ilustres para um desfalque destes? Em 1959 surgem novas publicações, como a Cidade Nova e O Debate, novos nomes dão à estampa, um sangue rejuvenescido no debate monárquico, dos quais se salienta Mário Saraiva, Afonso Botelho e Henrique Barrilaro Ruas. É o movimento dos denominados "monárquicos independentes". Ainda no anos de 1958, Almeida Braga e Rolão Preto aparecem a apoiar Humberto Delgado às presidenciais. Outros integralistas, apesar de críticos ao regime, não deixam de oferecer o seu apoio, como é o caso de Pequito Rebelo, que, com o início da guerra em África apresenta-se como voluntário para a guerra, mas veja-se que eram interesses históricos e nacionais, acima da própria política, esta opção não deixou de ter a sua razão quando a pátria corria perigo. Tal como os integralistas que se juntaram a Paiva Couceiro décadas antes, agora as armas novamente tinham de se tornar operativas em nome da nação. Ou, sem esquecer, como os monárquicos (e sobretudo os integralistas) viam o ultramar num panfleto intitulado "Manifesto dos Candidatos Independentes Sobre a Questão do Ultramar", neste texto, os monárquicos não vêem o Ultramar como um problema específico, mas como um problema de "toda a nação" e, aqui, a doutrina integralista dá todo o seu apoio intelectual. Mesmo os integralistas mais críticos não deixavam de reconhecer que uma pátria não se vende, ao contrário do vitorioso "anti-Portugal" que veio com a abrilada. 
O que significará neste tempo o integralismo, já longínqua a República, passado o Ultramar, passada a ditadura militar, o Estado Novo, passada a revolução nefasta que nos reduziu ao rectângulo? Podemos dizer que integralismo continua vivo nas páginas que à nova mocidade é dado a revelar, batendo-se pelos mesmos ideais de há cem anos, porque estes não se esgotam, não se extinguem numa explosão de força e luz como as estrelas, porque são sempre os ecos do passado quem vêem advertir o homem para a nova alvorada, inspirá-los sempre para a demanda a prosseguir, como Lancelot que em Arthur sagrou novo rei, é a idealização do sonho movendo o homem para o combate, como os mitos fecundos alimentadores das aspirações do povo. A história do integralismo não terá tão depressa o seu fim, enquanto houver quem leia os seus autores e se bata pelas suas crenças. O integralismo será sempre a inspiração para o ideal monárquico. 


Bibliografia:

(1) BRITO, António José, In «Agora», n.º 347, 09.02.1968. 




CRUZ, Manuel Braga, O Integralismo Lusitano nas Origens do Salazarismo, Análise Social vol xviii (70), 1982-1.º, 137-182

Manifesto dos Candidatos Independentes, sobre o Ultramar  http://www.angelfire.com/pq/unica/il_1969_manifesto_ultramar.htm