segunda-feira, 22 de abril de 2013

Carta aos monárquicos portugueses





"Como em muito povos, também em Portugal há monárquicos sem doutrina, que vulgarmente se designam pelo nome de thalassas, e monárquicos doutrinados. O meu malogrado amigo Calaínho de Azevedo era implacável. Nas nossas reuniões da Acção Realista, quando conversávamos sobre o que havia a fazer para salvar a Causa Monárquica da catástrofe, ele tinha uma palavra, uma palavra só, que cortava o espaço como uma espada: «doutrina!» Foi a falta de doutrina que entregrou a monarquia aos caprichos da República, e a vitimou; foi a falta de doutrina que arrastou à falência da República de 1910; e as dificuldades em que se debate o Estado Novo devem-se unica e exclusivamente à falta de doutrina que caracteriza a quase totalidade dos seus elementos marcantes (...) A monarquia caiu em 1910 (...); uma monarquia de perto de oito séculos de vida sucumbiu às mãos da Carbonária de Lisboa. Porquê? Perdera a fé em si própria, nos seus destinos históricos, no poder das suas virtudes essenciais, numa palavra, abastardara-se. O veneno que a consumia instilara-lho a Revolução, em 1820. Instituição natural, tradicional, coeva da Nacionalidade, a Monarquia nunca precisara de formular os seus princípios vitais. Quando a Revolução surge, arvorando doutrina própria, a Monarquia acordou da sua inércia. A Revolução era a Liberdade ou a Anarquia; a Monarquia era a autoridade e a ordem. É mais fácil conquistar um milhão de homens para a Anarquia, do que convencer um só, dos benefícios da Ordem, porque é mais fácil soltar os instintos, do que dominá-los. (...) E esses mesmos que tinham os seus alicerces fundamentais no Trono e no Altar, puderam observar que o Trono se entregava, e o Altar se desleixava. (...) Caiu a Monarquia, mas ficou a Causa Monárquica, constituida não por monárquicos doutrinados, mas, de um modo geral, por monárquicos... (...) O Integralismo Lusitano, primeiro, a Acção Realista, depois, quiseram dar alma, directriz, finalidade, à Causa Monárquica. Não ponho em dúvida a boa fé do Integralismo Lusitano dos primeiros tempos. Mas o que é certo é aquele que ainda hoje, em certos meios, é tido por Condutor supremo do Integralismo, a certa altura, deixava-se seduzir pelo social, envolvia no mesmo epíteto sarcástico de «cadáver», a Monarquia e a República, e renegava a sua acção de alguns anos. (...) Para um monárquico, porém, para um monárquico que tenha luzes, ainda que superficiais, mas, essas, firmes, do que é a doutrina monárquica, o palavreado da República não tem pés nem cabeça: nem teoricamente, nem historicamente - e muito menos em Portugal. (...) O princípio liberal de que todas as opiniões são legítimas é uma camuflagem reles que só convence os tolos. (...) A superioridade teórica da Monarquia sobre a República é irrefutável para qualquer inteligência convenientemente mobilada. (...) O Governo do Universo é uma monarquia, o Governo da Igreja é uma monarquia vitalícia, o Governo da família é uma monarquia. A unidade de Governo, de direcção, de comando, é sempre, e em toda a parte, superior à pluralidade." in, Carta aos Monárquicos Portugueses, Alfredo Pimenta, 1947 (página 1 a 9)

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