terça-feira, 30 de abril de 2013

Os anjos na representação




 "Os anjos voam porque se encaram a si próprios com ligeireza, porque não se levam excessivamente a sério. (...) O céu que cobre as figuras das antigas pinturas cristãs parece um pára-quedas azul ou dourado. As figuras dão todas a impressão de estarem a prepara-se para levantar voo, para flutuar nos céus. A capa esfarrapada do pedinte do pedinte há-de elevá-lo, como as plumas raiadas dos anjos os elevam a eles. Os reis, porém, cobertos de ouro e orgulhosos nas suas vestes de púrpura, estão, pela sua natureza própria, condenados a afundar-se, porque o orgulho não consegue prover à ligeireza nem à levitação."

G.K. Chesterton, in "Ortodoxia":

domingo, 28 de abril de 2013

Eu não sou um rebelde




«Se o Rei, que temos proclamado, tinha um direito legitimo
para o ser; o dever dos Súbditos era segui-Lo, e obedecer-Lhe.»

(Manifesto authentico da Nação Portugueza á 
Europa, em 1641, na occasião de se subtrahir ao intruso 
dominio da Hespanha.)


Quanto são néscios e estúpidos nossos bons Liberais! (falo dos Liberais Portugueses.) Entretanto que eles falam a torto e a através de direitos do Povo e da Nação, de liberdades públicas, de limites do poder, etc. etc.; pretendem privar, e vão despojando a Nação Portuguesa de seus direitos, de suas prerrogativas, únicos Foros, que podem dar uma verdadeira eficácia à Constituição do Estado, .e dela serem os garantes. Dizei-me, Senhores Liberais, ou antes Despóticos Liberais, se, conforme vossa opinião (do dia de hoje), o Senhor D. Pedro, mesmo sem haver sido proclamado Rei, nem reconhecido pela Nação, pode alterar e mudar à Sua vontade a Constituição do Estado, fundada em actos solenes e respeitáveis, em convenções tão antigas, como a mesma Monarquia; com que direito pretendereis vós negar a mesma faculdade a qualquer Sucessor do Senhor D. Pedro (concedendo por um momento que Ele fosse Rei de Portugal), a Sua Filha, por exemplo? Outro Rei de Portugal será menos Rei, que o Senhor D. Pedro? E se imaginasse, ou lhe visse à cabeça, despedaçar vossa Carta, despedirvossas duas Câmaras e dizer: Hei por bem decretar, outorgar, e mandar jurar à Nação Portuguesa a Constituição de?... ( como o Senhor D. Pedro disse: Hei por bem decretar, dar, e mandar jurar a Carta Brasiliense); que teríeis vós a opor-lhe? Oh! Meu Deus! quanto tremo dessa Carta, dessas Câmaras e desses quatro poderes, 8 que o Sr. Carlos Stuard vos trouxe do Brasil !...

in, António Ribeiro Saraiva, EU NÃO SOU UM REBELDE; OU A QUESTÃO DE PORTUGAL EM TODA A SUA SIMPLICIDADE OFERECIDA AOS POLÍTICOS IMPARCIAIS, E AOS HOMENS DE BOA FÉ. 

leia-se texto integral aqui 

sexta-feira, 26 de abril de 2013

El-rei




Longe da luz
A que sonhou na infância
Em vez de predomínio e de conquista
Sonhos de amor
Entre visões de artista
Morreu de desconsolo e de distância

Caminho aberto
À morte por essa ânsia
Que mais se exalta
Quanto mais contrista
De quem recorda o lar que nunca avista
E se consome em lúcida constância

Porque acima do trono e da realeza
Havia o céu azul, a claridade
Da sua amada Terra Portuguesa
Havia a Pátria, e dizem, que impiedade
Dizem que não se morre de tristeza
Dizem que não se morre de saudade.



 José Campos e Sousa canta o poema de Branca de Gonta Colaço (Lisboa, 8 de Julho de 1880 — Lisboa, 22 de Março de 1945).

Conselho de uma avó






A Avó, pintura, óleo sobre tela, 1856. 
António José Patrício 
- Museu do Chiado, Museu Nacional de Arte Contemporânea





Luiz Fernando: sê bom! Foge à cobiça
E expande alegre a tua mocidade;
Acima do querer, põe a Justiça;
Acima da Justiça, a caridade.

Ama as palavras que uma fé mortiça
Hoje se atreve a olhar sem majestade;
Palavras que o passado ergueu na liça:
Honra, Pátria, Heroísmo, Santidade!

Procura ser alguém; mas se o não fores,
Sê contente servindo os teus amores
Na doce paz de uma existência honrada;

Quando quiseres orientar teu rumo,
Põe Deus mais alto que o Sol a prumo
E mais alto que Deus não ponhas nada.


Branca Eva de Gonta Syder Ribeiro Colaço (Lisboa, 8 de Julho de 1880 — Lisboa, 22 de Março de 1945), mais conhecida por Branca de Gonta Colaço, foi uma escritora e recitalista portuguesa, erudita e poliglota, que ficou sobretudo conhecida como poetisa, dramaturga e conferencista. Era filha da inglesa Ann Charlotte Syder e do político e escritor português Tomás Ribeiro. Casou com Jorge Rey Colaço, um ceramista de renome, tendo publicado a sua obra sob o nome de Branca de Gonta Colaço.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Carta aos monárquicos portugueses





"Como em muito povos, também em Portugal há monárquicos sem doutrina, que vulgarmente se designam pelo nome de thalassas, e monárquicos doutrinados. O meu malogrado amigo Calaínho de Azevedo era implacável. Nas nossas reuniões da Acção Realista, quando conversávamos sobre o que havia a fazer para salvar a Causa Monárquica da catástrofe, ele tinha uma palavra, uma palavra só, que cortava o espaço como uma espada: «doutrina!» Foi a falta de doutrina que entregrou a monarquia aos caprichos da República, e a vitimou; foi a falta de doutrina que arrastou à falência da República de 1910; e as dificuldades em que se debate o Estado Novo devem-se unica e exclusivamente à falta de doutrina que caracteriza a quase totalidade dos seus elementos marcantes (...) A monarquia caiu em 1910 (...); uma monarquia de perto de oito séculos de vida sucumbiu às mãos da Carbonária de Lisboa. Porquê? Perdera a fé em si própria, nos seus destinos históricos, no poder das suas virtudes essenciais, numa palavra, abastardara-se. O veneno que a consumia instilara-lho a Revolução, em 1820. Instituição natural, tradicional, coeva da Nacionalidade, a Monarquia nunca precisara de formular os seus princípios vitais. Quando a Revolução surge, arvorando doutrina própria, a Monarquia acordou da sua inércia. A Revolução era a Liberdade ou a Anarquia; a Monarquia era a autoridade e a ordem. É mais fácil conquistar um milhão de homens para a Anarquia, do que convencer um só, dos benefícios da Ordem, porque é mais fácil soltar os instintos, do que dominá-los. (...) E esses mesmos que tinham os seus alicerces fundamentais no Trono e no Altar, puderam observar que o Trono se entregava, e o Altar se desleixava. (...) Caiu a Monarquia, mas ficou a Causa Monárquica, constituida não por monárquicos doutrinados, mas, de um modo geral, por monárquicos... (...) O Integralismo Lusitano, primeiro, a Acção Realista, depois, quiseram dar alma, directriz, finalidade, à Causa Monárquica. Não ponho em dúvida a boa fé do Integralismo Lusitano dos primeiros tempos. Mas o que é certo é aquele que ainda hoje, em certos meios, é tido por Condutor supremo do Integralismo, a certa altura, deixava-se seduzir pelo social, envolvia no mesmo epíteto sarcástico de «cadáver», a Monarquia e a República, e renegava a sua acção de alguns anos. (...) Para um monárquico, porém, para um monárquico que tenha luzes, ainda que superficiais, mas, essas, firmes, do que é a doutrina monárquica, o palavreado da República não tem pés nem cabeça: nem teoricamente, nem historicamente - e muito menos em Portugal. (...) O princípio liberal de que todas as opiniões são legítimas é uma camuflagem reles que só convence os tolos. (...) A superioridade teórica da Monarquia sobre a República é irrefutável para qualquer inteligência convenientemente mobilada. (...) O Governo do Universo é uma monarquia, o Governo da Igreja é uma monarquia vitalícia, o Governo da família é uma monarquia. A unidade de Governo, de direcção, de comando, é sempre, e em toda a parte, superior à pluralidade." in, Carta aos Monárquicos Portugueses, Alfredo Pimenta, 1947 (página 1 a 9)

quinta-feira, 18 de abril de 2013

The Hollow Men

 

 

The Hollow Men


T. S. Eliot
Mistah Kurtz—he dead.

      A penny for the Old Guy

      I

We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats’ feet over broken glass
In our dry cellar

Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;

Those who have crossed
With direct eyes, to death’s other Kingdom
Remember us—if at all—not as lost
Violent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.

      II

Eyes I dare not meet in dreams
In death’s dream kingdom
These do not appear:
There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind’s singing
More distant and more solemn
Than a fading star.

Let me be no nearer
In death’s dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat’s coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer—

Not that final meeting
In the twilight kingdom

      III

This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man’s hand
Under the twinkle of a fading star.

Is it like this
In death’s other kingdom
Waking alone
At the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.

      IV

The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms

In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river

Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.

      V

Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
Here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.

Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
                                For Thine is the Kingdom

Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
                                Life is very long

Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
                                For Thine is the Kingdom

For Thine is
Life is
For Thine is the

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
Online text © 1998-2013 Poetry X. All rights reserved.
From The Hollow Men | 1925

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Só quem já sentiu saudade




Nur wer die Sehnsucht kennt

Nur wer die Sehnsucht kennt,
Weiss,was ich leide!
Allein und abgetrennt
Von aller Freude,
Seh ich ans Firmament
Nach jener Seite.

Ach!der mich liebt und kennt
Ist in der Weite.
Es scwwindelt mir,es brennt
Mein Eigenweide.
Nur wer die Sehnsucht kennt,
Weiss,was ich leide!


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Só quem já sentiu saudade

Só quem já sentiu saudade,
Quanto sofro há de entender:
Sozinha aqui, longe vivo
De todo e qualquer prazer.
Nos céus meu olhar fixado,
Um só lado quer rever.
Ai! Quem me ama e de mim sabe
Mui distante foi viver.
O tempo todo estonteada,
As entranhas a me arder:
Só quem já sentiu saudade,
Quanto sofro há de entender!


Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, 28 de Agosto de 1749 — Weimar, 22 de Março de 1832).