segunda-feira, 18 de março de 2013

racionalismo, tradição e monarquia - a superação dos paradigmas

Revolução 1848



A derrocada das monarquias antigas deveu-se à propagação dos ideais do racionalismo iluminista e do cientismo (entre os século XVIII e XIX) que lançou as bases do republicanismo moderno. As repúblicas propagaram-se como o apelo dos povos à sublevação e à reivindicação de um direito comum e universalista que nunca existiu, e quis impor uma natureza igualitária, que não passou do plano das filosofias e criou, ao longo do século XIX, graves e grandes desigualdades, afirmando finalmente a razão acima de todas as coisas, e a ciência como resposta certa a todos os problemas.
A monarquia perdeu sentido na identidade da nação porque a consolidação das fronteiras e a imposição do estado laicizante jacobino (fruto desse racionalismo exacerbado) vieram questionar a organização do próprio estado: tanto os seus símbolos antigos, destituindo os mitos da significação profunda com que o povo compreendia a sua fé; como roubar as suas tradições. As reivindicações do Terceiro Estado e a ascensão da burguesia capitalista foram substituindo a elite da aristocracia cada vez menos preponderante e tendente ao entorpecimento dos séculos. Deposta do seu poder, a aristocracia foi substituída pela torpeza dos tecnocratas e dos merceeiros, dos contabilistas e dos mercenários, homens que se diziam promotores do regime monárquico e que se tornaram, com o passar do tempo, e conforme se justificassem os interesses pessoais, os seus algozes.
Porém a decadência já se vinha anunciando. Em França o passado de glória da aristocracia pesava nos ombros daquela que então vivia na corte em Versalhes, incapazes de prosseguir os feitos dos seus antepassados, e que acabou por ser vítima da catástrofe de 1789. Ao contrário do que acontecia na Prússia ou na Áustria, onde as elites aristocráticas continuaram a ser predominantes até 1918, num misto de austeridade e de sentido de dever (nas palavras do historiador francês Dominique Venner); ou mesmo incapazes de assegurar o seu poder como em Inglaterra após a Revolução Gloriosa assegurando a estabilidade da sociedade, as suas hierarquias e o poder da aristocracia (uma "revolução oligarca" como enunciou Erik von Leddihn). Na Rússia de 1917 a sensação de declínio é um mesmo sentido - na abdicação do Czar restou a guerra civil e a construção do monstro totalitário.
As revoluções desde Vestefália até à Tomada da Bastilha em 1789 foram anunciando novas maneiras de conceber as relações entre os estados e uma nova forma de fazer a política. Por fim, a ascensão do Terceiro Estado e os modelos revolucionários nascidos da Constituinte francesa conduziram a um novo paradigma, repetido depois onde provesse um novo efeito, desde a Constituição de Cádis, de 1812, à Constituição portuguesa de 1822, e os sucessivos modelos constitucionais que constituíram o nascimento dos Estados de Direito revolucionários, apanágio do novo mundo que Hegel concebia como o "fim da história".
Ao lado da revolução nas ideias e na política, a revolução na produção, com a revolução industrial. Numa nota elementar e talvez demasiadamente básica é possível ligar ambas as revoluções enquanto constituição dessa nova sociedade (ou mesmo, desse novo mundo). Por um lado, liga imediatamente a ascensão da burguesia com a construção da economia capitalista e, portanto, as maiores exigências da sociedade, a proliferação da massa operárias, e a descrença na velha ordem que fora o Antigo Regime, agora, o novo Estado-de-Direito Liberal. Acompanhando esta revolução na produção, estava desde sempre, a revolução nas ideias, já anunciada primeiro pelas reformas protestantes, depois pelo Iluminismo, e que evoluiu, no contexto revolucionário, para o racionalismo e para o positivismo do século XIX. 
De um lado novas elites e maiores exigências sociais, do outro a procura das certezas absolutas e do questionamento de toda a autoridade. Estavam lançadas as bases para que as monarquias caíssem num certo entorpecimento, com um “rei que reina e não governa”, entregando o poder aos tributários do capitalismo, incapazes de representar o povo.
O Parlamentarismo tornou-se obsoleto, sujeito às oligarquias partidárias, ao caciquismo e à republicanização dos Estados e das instituições que, nas velhas monarquias tornaram o Chefe de Estado num mero adereço e, nas nações onde as repúblicas triunfaram, depressa conduziu à desilusão, afinal, os representantes do povo continuavam a ignorar os problemas dos mais necessitados.
A crítica às hierarquias da monarquia verificou-se falível quando os algozes substituíram a herança histórica pela usura do capital, quando impuseram o estado laico sem consultar o povo (soberano apenas na morfologia das ideias, antes submisso face aos grandes interesses) depois do qual procuraram destruir a Igreja, o que fracassou: o racionalismo e o cientismo foram superados (sobram apenas algumas réstias do pensamento, vaporosos como as nuvens e tendenciosos e sempre criticáveis, afinal, perderam todos os absolutos), o iluminismo reduziu-se ao saber dos académicos, enquanto que a fé Católica prevaleceu até aos nossos dias, e mesmo a figura do Papa - tão desprezada pelos jacobinos - permanece enquanto diplomata e voz da prudência entre os povos. Pelo caminho derrubaram-se tronos e destruíram-se reinos e impérios, republicanizaram-se monarquias. Roubaram essência e natureza à tradição. Pelo menos ainda falta recuperá-las, ressuscitar esse corpo ainda suspirante e sempre ansioso para o grito de vitória sobre a decadência da modernidade. As tradições da nação (espírito e voz do povo) nunca estarão desaparecidas e, talvez, nessa procura, os povos se reconciliem consigo mesmos. 

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