sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Vieira Portuense


 



Vieira Portuense (1765-1805) pintou este quadro inspirado em D.Filipa de Vilhena, que armou seus filhos para combater em nome da independência, não deixo de constatar uma certa ingenuidade no traço (principalmente no rosto de D.Filipa que perde toda a emoção do momento, como se num instante a figura heróica, mesmo que forçando um gesto, perdesse a própria imagem face ao cenário) não é dos mais emblemáticos de Vieira Portuense, se bem que dos mais famosos. Idealiza o acontecimento com um encanto exaltador, não chegando ao ponto de ser eloquente. Porém, não se pode ignorar o sentido que ele inculca, ao procurar uma identidade para a razão de ser da nacionalidade (restaurada após o domínio filipino) e como vem sendo tão menosprezada. Também Garrett imortalizou o acontecimento, com o exagero permitido aos poetas, e com a idealização consentida ao romantismo. Outro poeta, hoje um pouco mais obscuro, grande na sua época, Vicente de Gusmão Soares, escr
eveu:

No verdadeiro amor da Pátria acesa,
A ilustre mãe do Conde de Atouguia
Os filhos com a própria mão armara
E para a acção, que sabe, os exortara.

Apesar de tudo, lembra-nos o porquê da nossa identidade, e como pode um povo reconhecer-se na sua história.

1 de Dezembro 1640-2012

 
     D. Filippa de Vilhena», onde esta é representada no momento em que arma os seus filhos,
                                                                     Vieira Portuense



A memória colectiva constrói-se a partir de uma narrativa comum, de identidade com os seus heróis, com os seus feitos, com as suas crenças. Há um elo de ligação que permite à comunidade reconhecer-se enquanto tal. A história pátria é razãoda existência da comunidade enquanto nação. Este pressuposto leva-me a questionar que sentido tem o desaparecimento das datas simbólicas - após a sua abolição pelo XIX Governo Constitucional? O 1º de Dezembro foi relembrado porque desapareceu, ou desaparecendo tornou-se de súbito apanágio de nostalgias?
A procura pela identidade nacional está longe de se concretizar com a eliminação desses dias simbólicos. Essa "identidade" encontra-se reflectida num conjunto de valores que podem ser invocados em tempo de crise, quando as sociedades tendentes à ruptura ou aos separatismos encontram pontes sobre as quais alicerçam a sua união. Nestes tempos conturbados a unidade devia fortalecer-se e não dispersar-se.
Se por um lado o indígena não se relacionava mais com esses dias simbólicos, obliterados pela ignorância e pela indiferença burguesa a tudo o que cheire a patriotismo, ou o vácuo que os politiqueiros aqui do burgo criaram em torno da própria ideia de nação. Ainda assim, o cidadão precisa dessa memória colectiva sempre ressuscitada. Não morre, não desaparece por arbítrio do legislador. E talvez na indigência da sua ignorância o cidadão vai conseguindo procurar estes resquícios da memória pátria, quando a própria ideia de identidade nacional parece antagónica, abstracta e perdida nas incertezas do tempo. 
O primeiro de Dezembro continuará a ser celebrado, mas não é mais feriado, fará sentido? será obliterado pela ignorância dos nossos governantes? Para o povo revoltado este dia pouco representa, já dele não têm memória, nem o Governo se esforça por recuperá-lo, favorecendo um estado de demência que nos aproxima da catástrofe.
Com actos deste, longe estaremos de qualquer consenso social. É na identidade nacional que os povos encontram a sua razão de ser e a sua união, ainda mais neste dia...



quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Não luta, mas concórdia das classes




9. O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os Socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença das suas respectivas condições.
Pelo que diz respeito ao trabalho em particular, o homem, mesmo no estado de inocência, não era destinado a viver na ociosidade, mas, ao que a vontade teria abraçado livremente como exercício agradável, a necessidade lhe acrescentou, depois do pecado, o sentimento da dor e o impôs como uma expiação: «A terra será maldita por tua causa; é pelo trabalho que tirarás com que alimentar-te todos os dias da vida» (5). O mesmo se dá com todas as outras calamidades que caíram sobre o homem: neste mundo estas calamidades não terão fim nem tréguas, porque os funestos frutos do pecado são amargos, acres, acerbos, e acompanham necessariamente o homem até ao derradeiro suspiro. Sim, a dor e o sofrimento são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para os banir; mas não o conseguirão nunca, por mais recursos que empreguem e por maiores forças que para isso desenvolvam. Se há quem, atribuindo-se o poder fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos, certamente engana o povo e lhe prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do presente. O melhor partido consiste em ver as coisas tais quais são, e, como dissemos, em procurar um remédio que possa aliviar os nossos males.
O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exactamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital.
A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, dum conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as Instituições possuem uma virtude admirável e múltipla.
E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça. 

Rerum Novarum,  Sobre as Condições dos Operários, 1891, Papa Leão XIII