sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Livros



Comprar livros a baixo custo é desde sempre uma bênção, sugerem uma alternativa à crise. Pagar para que outros continuem a escrever não é apenas remunerar um trabalho, é permitir o desenvolvimento da cultura, desde que essa cultura aproxime o nosso espírito do saber e não de qualquer mera mediocridade acéfala.

Porquanto os livros desvelem um mundo mediado entre o prazer e o saber, também encontramos as mais curiosas figuras e os mais simpáticos leitores. Há senhoras de óculos grandes e fundo de garrafa que folheiam mil vezes o mesmo livro para depois decidirem-se a não comprá-lo.

Mas por Coimbra, onde não há livraria que não faça descontos, entenda-se, descontos a livros que outros no passado se esqueceram de comprar e que necessitam urgentemente de alguém que os mime, encontram-se criaturas maravilhosas. Um senhor aproximou-se regozijante, ao mesmo tempo desenfreado na sua ânsia, sem que entendesse de imediato o que procurava.

Com o desenrolar da conversa, a senhora que amavelmente guarda aquelas preciosidades de papel indicou o que ele queria, que por acaso estava mesmo debaixo do meu olhar, uma colecção de livros de bolso da Estrofe e Verso, bem a propósito vendidos a um euro. Levou uns quantos, mas ainda ansioso procurava que entendessem a necessidade que tinha em levar um livro do Mark Twaim intitulado: “Os diários de Adão e Eva”.

- Estão aqui! - apontei.

Ambos, vendedor e comprador, aliados na ânsia de descoberta aproximaram-se, sorridentes como se houvessem desbravado o Atlântico e alcançado o novo mundo.

- Vai levar algum? - questionou-me o homem.

Disse-lhe que não. Ele vacilou um pouco enquanto apanhava a resma de livros, sem por um minuto abandonar um largo sorriso e uma postura recta de conferencista que dava a conhecer as maravilhas de um mundo desconhecido.

- É muito bom este livro - ele prosseguia, voltando-se ora para mim ora para a livreira - andava a procurá-lo, já o li, mas gostei tanto que vou oferecer uns quantos…O senhor tem a certeza que não quer levar? Tome, leve um, prometo que não se vai arrepender.

Da resma retirou um dos livros do Mark Twain. Confessou como gostava de ler aquele autor - ao que eu acrescentei que sem dúvida era um escritor de grande humor!

- Isso sim, de grande humor - concluiu.

Com o livro do Mark Twain na mão vagueei ainda por entre as estantes e as enormes mesas repletas de livros que sobressaiam como construções megalíticas, sobrepondo cada volume como uma pedra de um templo.

Indeciso entre Gorki, Voltaire ou Dostoievski, acabei por me decidir pelo último. Qualquer um seria uma boa escolha, os dilemas sociais de Gorki, o riso caustico e penetrante de Voltaire, ou os dilemas de Dostoievski.

Ao pagar, novamente cruzei-me com o senhor, aproveitando para agradecer pelo conselho, sempre tão necessários à indecisão. 

- Sim, sim - ele engrandecia cada simpatia com um sorriso ainda maior - é um bom livro, se ler logo a primeira página, o diário de Adão (depois mais à frente, o diário de Eva), se ler esta primeira página:

«Segunda-feira
Esta nova criatura de cabelos compridos é muito metediça. Anda sempre de roda de mim e segue-me para todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Oxalá ficasse junto dos outros animais. Hoje está nublado, com vento de leste; acho que vai chover… Onde é que eu desencantei esta palavra? Já sei - a nova criatura é que a usa.»

» No fundo fala sobre problemas intemporais e sentimentos universais, é o que todos nós sentimos…Ah, - poucos instantes depois regozijou - e ainda levo aqui outro, vejam só quem o escreveu…

Mostrou a contracapa, onde estava a fotografia do autor… “É o Álvaro” - dissemos em coro. “Vamos lá ver se ele escreve alguma coisa de jeito!” - sorriu.

- Ainda levo aqui o Dostoievski - impertinente avancei - “A Submissa”, parece-me bom…

- Ah, sim, sim, gosto muito do Dostoievski, é de letras?

- Não, sou de Direito…

- Ah, eu também não sou de letras, gosto muito de ler, ia perguntar-lhe se já tinha lido o Crime e Castigo, adorei o livro, é a história de um homicídio, de um homem que assassina a sua senhoria, veja só, ainda me recordo do nome da personagem principal, mesmo passados tantos anos ainda me recordo, é o Raskólnikov, vejam só, Raskólnikov…

A livreira olhava-o surpreendida, eu sorria-lhe admirado, e o homem envolvia o ambiente com a voz profunda de um verdadeiro leitor, que poucos há nestes dias, com a velocidade da Internet e com as novas comunicações perde-se muito do que podíamos obter com a simples leitura de um livro.

Abandonei o local, deixando o comprador amontoado com os seus calhamaços, ainda a dissertar sobre as suas paixões literárias.


Coimbra - 2012