domingo, 22 de julho de 2012

Crimes and Misdemeanors (Woody Allen - 1989)





Há um paradoxo bastante interessante entre o filme de Woody Allen Crimes and Misdemeanors e a obra de Dostoievski Crime e Castigo (aqui, numa adaptação da BBC). Entre Allen e Dostoievski há ainda um fosso: o realizador norte-americano rejeita a moral imposta por Dostoievski, o escritor deambulava entre a fé e a redenção. Judah, o protagonista do filme de Allen, não tem os escrúpulos de Raskolnikov, pergunta mesmo se a moral interessa para alguma coisa. Ou afirma ao irmão, um Rabi, quando este lhe chama a atenção para a existência de um Deus omnipresente e omnipotente: "Deus, para mim, é um luxo". Para Dostoievski uma pessoa não conseguiria viver com o peso de um crime, a sua consciência obrigá-lo-ia, mais cedo ou mais tarde, a denunciar-se; Allen tem outra visão...  Na discussão entre Judah e Clifford (interpretado por Woody Allen, um realizador que procura subsistir, entre várias adversidades - um auto-retrato?), Judah expõe uma situação: um homem comete um crime, mas no fim nada acontece, ele acorda de manhã e está tudo igual, nada aconteceu... Clifford avança, defendendo que o criminoso deve denunciar-se: mediante a não existência de um deus ele (o criminoso) teria de assumir a responsabilidade. Judah indigna-se, para ele os criminosos (os assassinos) apenas na ficção (na literatura ou no cinema) assumem os seus crimes... Judah fala por experiência própria, é um paradoxo de Raskolnikov, um retrato dialógico cinema-literatura, procurando um ponto de abordagem aos valores hodiernos, para tanto traçando um caminho  entre a salvação (procurada por Judah) e a redenção (própria de um Raskolnikov), nesse prisma reside o ponto de ruptura entre Allen e Dostoievski... 


“We’re all faced throughout our lives with agonizing decisions, moral choices. Some are on a grand scale, most of these choices are on lesser points. But we define ourselves by the choices we have made. We are, in fact, the sum total of our choices. Events unfold so unpredictably, so unfairly. Human happiness does not seem to be included in the design of creation. It is only we, with our capacity to love, that give meaning to the indifferent universe. And yet, most human beings seem to have the ability to keep trying and even try to find joy from simple things, like their family, their work, and from the hope that future generations might understand more.” - do filme Crimes ans Misdemeanors

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Na morte de José Hermano Saraiva



Ao noticiar da morte do Professor José Hermano Saraiva muitos acorreram à Internet para instigar ódios ideológicos, ou políticos, conhecendo o seu passado político e igualmente conhecendo a sua posição favorável ao "Antigo Regime". Porém, não obstante todas estas críticas (mais ensaiadas e constantemente repetidas - a fatalidade do mundo virtual) não é desmazelo recordar o poder de comunicação deste homem e de como se serviu dessa sua virtude para transmitir aos Portugueses a memória dum país de quase nove séculos. Não gosto de entrar em bailes ideológicos (se me permitem a expressão), nem vou perder tempo a debater as virtudes da esquerda iluminada, ou a favorecer a direita aqui do burgo, as ideias por vezes perdem-se nas emoções exacerbadas - não é meu intento. Como grande parte dos meus amigos escreveu prontamente no Facebook relativamente à fatalidade de um "fascista" ser homenageado, ou de como "inventava" episódios da história de Portugal (pergunto-me se alguma dessas pessoas viu, ou seguiu, os programas do historiador, ou se se dignou, sequer, a percorrer uma linha dos seus estudos relativamente à história de Portugal, nomeadamente na sempre citada "História concisa de Portugal" ou mesmo as colaborações que manteve com as diversas edições da "História de Portugal"?), portanto, deixei estas palavras:

 »Uma grande perda para a cultura, um homem que nunca se cansou de divulgar o património e a história de Portugal. Se muitos discutem a sua posição política (ideológica ?) é inegável o trabalho de uma vida na defesa da memória histórica, transmitida num registo simples e que rapidamente alcançava os mais curiosos. Da sua palavra conheceram-se as terras e as regiões de Portugal; recuperou do esquecimento figuras e personalidades que, de outra maneira, dificilmente seriam conhecidas; granjeou as simpatias de todos aqueles para quem a cultura não deve, em tempo algum, ser encerrada apenas nas cátedras ou nas academias, mas pelo contrário: terá como fim alcançar, de forma despretensiosa,todos os quadrantes da sociedade.

 Não gosto de adjectivar, a necessidade obriga-me a tanto... não conheço mais ninguém, nem tão-pouco na notável esquerda humanitária, saída das fileiras da Revolução de Abril, que apresentasse aos portugueses a sua história de forma tão simples, tão directa, tão familiar. Não obstante os exageros - porque este texto não é nenhum Requiem, nem pretendo embelezar seja o que for. Recordo-o como um homem que se adaptou aos novos tempos da democracia, depois de ter servido o seu país, como Ministro da Educação. Mas eis que, ao longo de quarenta anos, aquela cara familiar entrou nas nossas casas, e partilhou o seu saber, como permitiu que Portugal fosse redescoberto ao percorrer essas terras do interior, e como a história parecia de súbito mais absorvente.  Muitos acusam-no de exagero e uma certa teatralidade, o que é falso: o seu modo de explanar as situações, dizendo mesmo, de expor os factos, vem de encontro a uma entoação emocional com que Fernão Lopes escrevia nas suas crónicas, ou o mesmo registo com que Herculano procurava encarar o passado, porque o trabalho do historiador é permanecer num constante diálogo entre o passado e o presente.  Repito o que já escrevi: "Uma grande perda para a cultura". O que é preciso acrescentar mais?

domingo, 1 de julho de 2012