segunda-feira, 28 de maio de 2012

Os Faustos - Goethe e Murnau

Mefistófeles: Já que por uma vez, Mestre, te aproximas de nós, já que queres saber como vão as coisas lá por baixo, e como as minhas palavras te costumam divertir, a ti me dirijo, no meio desta multidão. Perdoa-me se me exprimo com menos solenidade: receio bem ser assobiado por esta companhia, mas o pathos, na minha boca , certamente te faria rir, se de há muito não tivesses perdido esse hábito. Nada tenho a dizer acerca do sol e das esferas, apenas vejo quanto os homens se atormentam. O pequeno deus do mundo é ainda da mesma têmpera e tão esquisito como no primeiro dia. Viveria, a meu ver, mais convenientemente, se não fora ter-lhes ferido o cérebro com um raio da tua luz celeste. Chamou ele a isso razão, e só a usa para se governar mais estupidamente que o estúpido animal. Assemelha-se (se vossa Senhoria mo permite) às cigarras de longas pernas, quando saltam e esvoaçam pela relva entoando a sua velha canção. Ainda se se deixasse ficar no meio das ervas! mas não, tem sempre que ir dar de nariz a um monte de esterco. 

O Senhor: Nada mais tens a dizer-nos? Pois só me apareces para te lamuriares? Então nada há de bom, a teu ver, à superfície da terra?

Mefistófeles: Nada, Senhor: é tudo inteiramente mau, como sempre, os homens, nos seus dias de miséria, metem-me dó, a pontos de sentir escrúpulos de atormentar a sua pobre espécie.

in, Fausto, de Goethe, editorial estampa.

(Depois deste diálogo segue-se a aposta, entre Deus (o Senhor) e Mefistófeles, em que Deus aposta com o diabrete como Fausto nunca cairá na tentação do mal, e Mefistófeles, sarcástico e corrosivo, aposta como o consegue afastar da luz, dizendo: "Quereis apostar que àquele ainda vós o ireis perder? Deixai-me só escolher os meios com que docemente o irei levar pela minha via"...)

Do "Fausto" também fica o grande filme de Murnau, de 1926, um clássico do cinema mudo... 



domingo, 27 de maio de 2012

A grande arte




Estava certa vez a admirar os grandes murais na Sé de Portalegre, para descobrir como lidavam, os nossos antepassados, com as suas crenças. Na Sé reina um maneirismo luminoso, apreciável no contraste possibilitado pelas luzes dos vitrais, de uma lado o amarelo luminescente como da áurea sacra derivado, do outro, um azul celeste, como caído do próprio céu. Parece poesia fácil mas, constatá-lo, é mais absorvente. Ademais, vislumbrando os grandes murais temáticos, nos quais era perceptível reconhecer a emoção dos homens do século XVI, decerto eles compreenderiam aquelas imagens como algo de próximo e real. São obra contemporânea de Camões, como se o génio do século XVI tivesse perpassado metade da humanidade, uns compondo poemas épicos, outros criando uma arte inigualável. Sobre aqueles grandes murais, há que dizê-lo, são como histórias e alegorias contadas às crianças, podíamos supo-los, na nossa compreensão pré-moderna, como "bandas-desenhadas", ou seguimentos de uma curta-metragem. Não deixei de reflectir que, tal como hoje nos embravecemos com um filme, também os nossos antepassados se embraveciam com aquelas imagens sacras, outras religiosas, modelos de pintura também chamados senza tempo, numa época marcada pela contra-reforma, prudentemente confiando a sobrevivência da fé na imediaticidade da arte. 
No Retábulo-mor da Sé subsiste um rafaelismo inspirador, uma procura inefável pelo sentido profundo da vida. Acusamos esses nossos antepassados de ignorância e atraso, frívolos face à razão, simpatizantes das crenças, mas diante da magnitude desta arte eles nos envergonhariam com o seu saber. Os homens deste nosso século, perdidos na rapidez do momento, são incapazes de parar um minuto que seja para se deixarem absorver pela arte, nem tão pouco conhecê-la. As revoluções modernas vieram determinar a vitória da razão sobre o obscurantismo medieval, contudo, em nome da razão muito se perdeu também, não digo como num súbito tremor de terra, mas certamente num paulatino esquecer das nossas próprias raízes civilizacionais. Também em nome dessa razão muitos crimes se cometeram, mas isso é outra história...
A Igreja Católica, nessa época longínqua do Renascimento e da contra-reforma, pagava aos artistas para retratarem cenas bíblicas, pois consistia na única maneira de a plebe conhecer os Evangelhos. Muito poucos, hoje, serão capazes de olhar e compreender. Tornámo-nos letratados, cultos, civilizados, mas perdemos toda a noção dessa cultura bíblica, uma cultura herdada desde épocas remotas e que constitui o efervescer da espiritualidade humana na sua procura constante pelo sentido da existência. Entende-se que assim foi por motivos vários: a Inquisição e o fanatismo, mais tarde sepultados pelos triunfos da revoluções liberais; a ciência e a técnica, aliados ao despontar do urbanismo e do cosmopolitismo determinantes na construção de um homem pré-moderno, racional, lógico, e senhor de si mesmo. O século XX trouxe-nos a velocidade, herdámo-la como um sustentáculo material da nossa própria compreensão do mundo. A velocidade dos momentos roubam espaço para a reflexão, e mesmo para a contemplação da arte, talvez os nossos antepassados, desse século XVI, os contemporâneos do Camões e do Sá de Miranda, fossem mais sensíveis a estas manifestações do que nós, nesse sentido seriam superiores. 
Ainda vislumbrados na Sé de Portalegre, permanecem altivas e vivas as criações desse Fernão Gomes, nome hoje pouco ilustre, para pessoas a quem o século XX parece distante, imagino que o século XVI pareça saído da idade da pedra. Porém, acresce dizer, sem os subterfúgios da ironia, que este Fernão Gomes foi homem de grandes qualidades e talentos - imaginem que veio de Castela, apenas para constar que além fronteiras não veio apenas mal e destruição, também caíram neste chão bons artífices. 
As melhores obras de Fernão Gomes são desta Sé, além da capela-mor, de onde emerge num domínio dourado as tábuas do Pentecostes, da Transfiguração, da Ascensão e de O Menino entre os Doutores. Também há a mão de Adriano de Gusmão, outro ilustre desconhecido. Parece que o empreendimento da Igreja de Roma para educar as almas não forneceu apenas amarguras, legou-nos tesouros imprescindíveis. Já no mundo Árabe, por exemplo, onde grande parte da população era alfabetizada, ignorou-se o elemento pictórico e decoraram-se as grandes mesquitas com letras do Alcorão, entre a geometria dos azulejos, e a fineza no traço arquitectónico, da qual somos duplamente herdeiros (no azulejo e na arquitectura), construiu-se uma pureza tão penetrante quanto as nossas igrejas e catedrais. No fundo, seremos sempre herdeiros do passado, por muito que o ignoremos ou que deturpemos as verdadeiras essências da criação humana. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

a razão de ser

Parece que nos tempos em que vivemos o aborrecimento quotidiano obriga as pessoas a desligarem-se de tudo quanto possa considerar-se profundo. A verdadeira arte, a que podia ser criada por pessoas de talento, é afogada na indigência dos medíocres, aqueles que compõe banalidades. Estão no seu direito, é certo, apenas considero que as pessoas não são obrigadas a digerir tanta porcaria, pior do que comer mal, é saber que a cozinha é uma badalhoquice. Se vão criar algo que seja valorativo, e não uma nódoa, que o façam bem.
Já sobre o cinema se perguntou por que não há mais financiamentos, a resposta deu-a o Miguel Gomes "os mercados são incapazes de assegurar um cinema que não esteja sujeito do mínimo denominador comum". Capitalismo e arte nunca foram compatíveis, a ideia do mecenas poderoso que financia o artista funcionava numa cultura em que a educação das elites era esmerada e em que cultivar o espírito era um exercício educacional primordial. No nosso mundo, as elites estão podres, o dinheiro está podre, e a crise vem acentuar apenas a podridão. Quanto mais em Portugal, onde nunca existiram verdadeiras elites, estivemos sujeitos a uma aristocracia indigente e gastadora; a uma burguesia fútil e analfabeta, incapaz de inovar. Actualmente, neste embravecer de mundo, tão ensimesmado com o vácuo, encontramos políticos sem currículo, académicos de origem duvidosa saídos de universidades privadas, indivíduos fugidos à pobreza da província e que vingam por meios obscuros, e sempre as deliciosas cunhas com que muitos dos boys enjeitam a sua calamidade.
Também, sobre os livros, perguntam por que surgem tantos escritores, não é bem assim: uns são já conhecidos da casa, os gloriosos mortos que enfeitam as prateleiras; outros livros são técnicos e científicos; os restantes, dos novos autores, ou são uma revelação ou são uma mediocridade, entre uns, e outros, alguns são nacionais, os restantes são estrangeiros, contabilize-se os escritores nacionais, autores de ficção ou de versos (já que somos apontados como um país de poetas), talvez surpreenda. Há mediocridade que é elogiada até fazer os cabelos brancos, mas essas duram um ou dois meses. Também certa vez o Raul Ruiz disse: "ou podemos criar Balzac, ou podemos criar merda" - infelizmente, e para nossa desgraça, a segunda é que, muitas vezes, impera.