quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Marginália - ou da necessidade de um espaço reaccionário






Do termo Marginália (κεφαλαια), cunhada pela persistência daquele distinto monge medieval no escuro eclesiástico do mosteiro, há a visão súbita de uma ideia que não coube entre as linhas do texto e que permaneceu excluída por força de um conhecimento impossível de conter. É, contudo, a ideia exterior ao tempo, que vem concluir o pensamento de um primeiro autor, depois percorrido, pela visão segunda de um outro autor, historicamente apartado da raiz primeva que originou a ideia.

 É o diálogo intemporal, esse o da marginália. Mas não é escrever história o que aqui interessa, mas procurar a história, e não é fazer o trabalho do historiador, mas escrever nas margens das páginas onde já escreveu o historiador. Este é um espaço marginalista. Não tem ideologia nem política activa. É um dissidente, um anarquista, e portanto um condenado a vaguear nesta terra já devastada pelo sopro da modernidade. 

Desde os tempos Bíblicos que os autores procuram poupar as margens à indiferença, e, por escassez de papel, persistem mais no desgaste arbitrário de todas as lacunas. Os juristas medievais, marginalistas como convém ao bom nome da ciência, dedicavam-se a ocupar as margens dos manuais com comentários subtis, os quais, com o tempo, se tornaram repetitivos e exaustivos de uma visão que não dava azo à originalidade. E Coleridge proporcionou iluminadas reflexões ao longo dos livros que discorreu em leituras não menos críticas. Entre as linhas do manuscrito persistia sempre o pensamento.

O pensamento é aflitivo, desgastante, mordaz -  assim convém à marginália!

Pela necessidade ou vicissitude, também Voltaire, prisioneiro na Bastilha, soube tirar partido dos ensinamentos desses monges copistas e desses juristas do Corpus Iuris, e, poupando no papel, soube valorizar o livro como um discurso continuo, sem tempo e sem lugar de repouso.

Assim convém à marginália!

E marginal também por maldito e ímpio. É o espaço onde o autor está na posse do seu arbítrio, o mesmo dizer, o anarca que pega no conhecimento por séculos transmitido e o esmiúça, perpassa a frase com a audácia necessária., ao longo das margens pensa secreto e anónimo.

A marginália é sempre o sussurro do seu autor, não tem grandiloquência, nem ambiciona tomar a obra de arte, é apenas um suspiro, sem lograr o grito, não arruína o livro, antes enriquece-o, secretamente, serenamente, ainda tímida, mas também espinhosa, irritante.

Assim convém à marginália!

Tem o porte pessoal que confere ao diário a sua magistral amplitude memorialista, transferindo o registo quotidiano para o deslumbramento futuro, porém entre nós o efeito tende a inverter-se: pretende-se voltar os olhos ao passado, a Virgílio, e a convocar o presente, o Dante, pretende ser uma "democracia dos mortos" ao estilo de Chersterton, porque vai ao encontro dos valores remotos dos antepassados.

Esta é a nossa marginália o espaço de convívio dos malditos, estas são as margens onde se escreve, aqui, do alto da Bastilha admirando o passar dos archotes rumo à revolução, contudo preferindo ignorar e descansar os olhos no horizonte, muito mais solene e amplo.

A marginália acaba por se esgotar no curto espaço da folha. Felizmente o nosso espaço é infinito. Perdeu-se parte do encanto certamente.

Na época digital, exaustada a folha de papel, e ignorado o livro, esse vetusto adorno das prateleiras, a marginália perdeu o seu fulgor, a sua luminosidade, o seu espírito. Ganhou-o aqui, porque os temas são de tão diversos e de tão gerais que não me podia dar ao trabalho de os rotular de científicos, académicos ou doutrinais, são meramente anotações acrescidas ao que demais se escreve e pensa, e por colmatar o pensamento de outros, procura uma outra visão da ideia.

Este é um espaço onde vingam as ideias mortas. Entre o silêncio e a obscuridade, lá se vai sobrevivendo nesta benigna anarquia da modernidade.