quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Cem anos passam do nascimento de José Hermano Saraiva, o grande educador.




Foi o homem que mais fez por divulgar a história de Portugal e, ainda que outros procurem imitar o traço, não alcançam o génio do artista. Ali descobriamos o à-vontade familiar, um gesto característico, uma erudição capaz de descer do alto pedestal da academia para o povo.

Era um comunicador nato, num país pouco dado à eloquência do discurso. Onde raros, com excepção, logram brilhar a palavra, Hermano Saraiva conseguia encantar e iluminar.

Incansável, percorreu não só Portugal como todo o espaço lusiada - a grande Portugalidade - e novamente deu vida às memórias dos nossos antepassados. Poucos terão feito tanto.

Longe vai o tempo em que não se confundia o orgulho pátrio com o preconceito ideológico, em que falar de história era percorrer com entusiasmo os feitos e valores transmitidos, e em que lembrar o passado era uma narrativa empolgante. Hoje restam os difamadores programados pela ideologia, o rancor ao passado e a tentativa de higienizar a memória colectiva através do "politicamente correcto".

Muita falta nos faz o Professor Saraiva.

"Hoje há uma grande tendência para substituir a História pelo Catecismo. Dizem-se umas coisas gerais e os alunos saem da escola sem saber absolutamente nada. Desde há vários anos quiseram expulsar os factos da História: o resultado é uma quimera que só tem tido efeitos negativos. Um deles é a ignorância que grassa por aí ao mais alto nível, até entre professores universitários..." (JHS, entrevista 2002).

domingo, 28 de abril de 2019

A silhueta de Salazar

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130 anos passaram do seu nascimento. A imagem é tão distante como a de um velho álbum de família onde os rostos pairam como fantasmas e as memória apenas aos mais velhos deixam margem à nostalgia. Os novos que fiquem com a indiferença, ou com a saudade do tempo que não viveram. Que se alimentem dos ódios e glórias alheias. Mas é impossível não constatar na presença eloquente, como um monumento que finca a sua memória para a eternidade. Não precisa de estátuas (quantas já eliminadas), porquanto a sombra continua a pairar irrestrita. A silhueta de Salazar faz sombra à paisagem democrática. E continuará a prevalecer.

Independentemente do sentido, o nosso século XX saiu debaixo do capote de Salazar. E talvez com ele apenas Afonso Costa e Mário Soares possam competir (mas sem a mesma dimensão): três regimes, três repúblicas, com significados e aspirações diametralmente opostas e conflituantes. Três regimes porque se digladiam e batem claques variadas. Nem falaria de D. Carlos e Sidónio, os mártires que deixaram um lastro de aspiração e grandeza por consumar. Homens houve tão velozes como o século e cuja intrepidez trágica impediu de realizarem as suas expectativas. Salazar, pelo contrário, permaneceu, bem advertido pela sapiência de Charles Maurras que em carta apelava: "Restez! Tenez!"

E, entre os vários estadistas, também diferenciável, particular, original. No fundo, criou o mito. Os discursos, as palavras, o rosto, a voz, continuam a pairar no imaginário, nas atitudes. Da esquerda à direita permanece como aparição, do Desejado ao bode-expiatório, do Santo ao infame. 

Poucos terão alcançado tanto. Implacável como D. João II, sóbrio e dedicado ao Estado como Filipe II (I de Portugal), homem da terra e do apego às tradições, era um filho do Portugal antigo. De acordo com a sua visão construiu um regime. À maneira de um primeiro ministro de um rei absoluto o poder fora-lhe entregue, conquanto, não pelo monarca, mas pelos militares. Aqui reside uma das particularidades da sua figura, quando confessava não precisar de clientelas políticas, nem das multidões, nem da demagogia, nem de ligações partidárias, e concluía: "Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre." Raros políticos poderão dizer o mesmo.

O Portugal de Salazar é, contudo, uma miragem. Tão longínquo. Talvez sentisse pesar o momento derradeiro da pátria. Como protagonista numa renovada epopeia pretendeu manter-se inflexível ao leme, contrariando os ventos que sopravam desfavoráveis. Era um homem do século XIX, que falava e escrevia de forma ilustrada lembrando a melhor prosa do século XVII, que regia a vida de acordo com a tradição, fiel à fé antiga, numa Igreja que também preparava a mudança. Num mundo dividido em demo-liberalismo e comunismo, preservava neste canto do Atlântico a última réstia do Portugal histórico, mesmo, relutante, aceitando a mudança. Realista dirá: "Hão-de dizer muito mal de mim", assim como confessaria a Christine Garnier: “Os que desejam aplaudir-me hoje hesitariam em desviar-se de mim se outra paixão se apoderasse deles?”

Afinal, foram quatro décadas de um homem à frente dos destinos de um país, o bem, o mal, as virtudes, os defeitos, apenas na longitude da memória poderão ser considerados. Pensado-os, medindo-os na distância permitida, temos apenas de afirmar e admitir que ombreou com os grandes da história. 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Miguelismo: errâncias e destino


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Nos antecedentes do que ora reivindicam os movimentos tradicionalistas em Portugal encontramos o miguelismo, tão próximo ao espírito popular reivindicativo das suas tradições e liberdades, como compactado na inteligência dos homens que com brilho entenderam os erros da revolução e as insuficiências do liberalismo. 
Na sua génese deparam-se dois momentos fundamentais: primeiro, a reacção à revolução de 1820, e à constituição liberal de 1822 (que, aliás, o antecede enquanto movimento político organizado); depois a reacção à Carta Constitucional de 1826, acompanhando a subsequente reivindicação da legitimidade de D.Miguel. Como Elias de Tejada salientou: “sem legitimismo não há Carlismos”, também o miguelismo teve no seu húmus o legitimismo dinástico, enquanto fundamento intrínseco às reivindicações populares e à lealdade às leis fundamentais do reino. 
Não foi exagero de Oliveira Martins, historiador que geracionalmente integrava o pessimismo face ao regime liberal, quando concluía que D. Miguel era a “genuína expressão do Portugal Velho”, “o último monarca que o povo amou e compreendeu”. Imagética ou mistificação, aquele príncipe reunia em si todos os elementos de uma subcultura popular, apenas comparada ao mito sebastianista, na idealização do retorno do rei desejado. Foi talvez, o último mito português, a última crença viva no espírito do povo, em cuja voz encontrou expressão e, contra os ventos da revolução, fez deflagrar o estandarte da tradição (leia-se, da tradição portuguesa) sob o lema: Deus, Pátria e Rei. 
Ao apresentar um simples diagrama dos acontecimentos não é demais lembrar a diferença que o separa do congénere espanhol (Carlismo), pois a contra-revolução, em Portugal, era poder: D. Miguel ocupava o Estado. Tal não reduz as afinidades de ambos, conquanto revele diferenças estratégicas de afirmação política. 
A rebelião miguelista desestrutura-se após Évora-Monte, e, apesar das reivindicações em que toma parte, jamais voltará a ter o predomínio político antebellum. Exemplo maior será talvez o Remexido, espírito audaz que na plenitude da derrota ainda logra avançar no sul do reino atemorizando o liberalismo triunfante. Derrotado e, num julgamento muito polémico e contraditório, condenado à morte, torna-se mártir e ídolo da contra-revolução. Não obstante, o miguelismo, deixou também pensadores de mérito e prosadores de primeira linha, saliente-se um economista como José Acúrcio das Neves, um prosador de craveira como o padre Agostinho de Macedo, historiadores como o 2ºVisconde de Santarém, incansáveis doutrinadores como António Ribeiro Saraiva e Gama e Castro, ou poetas como João de Lemos (o Trovador). 
Logo em 1847, aproveitando o momento eleitoral, os miguelistas reorganizam as estruturas locais para o combate político, no fundo, querem suportar-se no próprio sistema liberal para o confrontar, este grupo será alcunhado de “urneiro” e constituirá o Partido Legitimista. Grupo nunca maioritário, mas nem por isso menos simbólico, das suas fileiras emergirão nomes determinantes como Caetano Beirão ou Carlos Zeferino Pinto Coelho. 
Quanto aos jornais legitimistas, nunca conheceram maior durabilidade, sublinhando-se, todavia, o exemplo do jornal “A Nação” (1847-1915), que teve um contributo importante e muitas vezes decisivo na luta política e foi também a plataforma que manteve o diálogo entre os miguelistas, quantas vezes divididos.  
Chegada a República não há vestígios de permanência miguelista. Enquanto que os Carlistas em Espanha permanecem activos e, quantas vezes, encontrando no povo o móbil da sua acção e, no espírito tradicional de regiões como a Catalunha, um verdadeiro repositório de contra-revolução, pois, em Portugal, o miguelismo, vai-se dissipando, o espírito de luta, a missão de cruzada, a permanência regionalista enquanto guardiões da tradição, ou constituindo uma subcultura que fizesse frente à ideologia liberal, essa tendência, no final do século XIX, já quase não se encontra, apenas de forma relativa, ou apenas circunstancialmente, em jornais efémeros, em polémicas, grandemente entre os movimentos católicos que são a salvaguarda do espírito legitimista. 
Maior alento conhecem os legitimistas a partir de 1915, com a enérgica actividade do Integralismo Lusitano, que reúne a juventude decepcionada quer com a República, quer com a Monarquia Constitucional, novamente devolvendo vida à literatura miguelista e contra-revolucionária. Ainda assim, o Integralismo ficou longe do ensejo. Preso ao discurso erudito e académico, nunca desceu às bases, não se constituiu enquanto movimento que conseguisse novamente reafirmar na sociedade a presença contra-revolucionária. 
Um século após a derrota de D.Miguel, o salazarismo vingaria sobre o vazio da contra-revolução. Depois de Mouzinho da Silveira, Salazar, terá sido dos mais incansáveis legisladores, conquanto em sentido contrário: Mouzinho legislara pela reforma liberal, Salazar, fazendo jus ao famoso dito de Joseph de Maistre, não fará simplesmente a revolução contrária, mas verdadeiramente o “contrário de uma revolução”.
 Em 1933 Salazar consuma o que os miguelistas não conseguiram cem anos antes: destruir a “hidra evolucionária” e consolidar-se no Estado, embora com todas as dissonâncias, e todas as errâncias de um “Portugal velho”, que separam o salazarismo e o miguelismo. O certo, é que, depois de 1933, o mundo do constitucionalismo liberal e da revolução ficará, por quase meio-século, subterrado.

Daniel Sousa
publica em Reino de Valência nº112 – 113 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Le Tombeau du Prince

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No dia que passam 226 anos da morte de Luís XVI é com pesar que recebo a notícia da morte do Senhor Conde de Paris, Henrique VII, pese as divergências dinásticas, às quais remeto para o foro interno da política francesa, não posso deixar de lamentar este desaparecimento.

Independentemente dos sentimentos mais empolgantes (que condenaram, inclusive, possíveis restaurações no passado), ao príncipe de França não faltaram provas de patriotismo. Combateu na Argélia e foi condecorado. Defendeu a soberania das pátrias contra "l’euro-mondialisme" e denunciou a islamização da França. Afinal é também esta casa de Orleans que a pena laboriosa de Maurras proficuamente defendeu.

Mas o Senhor Conde de Paris não deixou de representar desvios, a sua ligação à franco-maçonaria lembra o mais sinistro daquela linhagem. Independentemente da posição não abandonou os princípios, lembrando as verdades eternas que tinham engrandecido aquela terra, os "quarenta reis que em mil anos fizeram a França". Em 2018, na inauguração da estátua representando São Luís declara "consacrer officiellement la France au Sacré-Cœur", no final de tudo, também um homem de Deus.

De resto, podia repetir o que o "Mestre" da Action Française assinalou, na morte do anterior Conde: "Et c’est le Roi, saint monarque, mais homme faible, qui a laissé tomber sa couronne, et qui nous a livrés à l’émeute, à la terreur, à la tyrannie, à la guerre, et enfin au gouvernement des banquiers, par un acte d’impardonnable bonté."

sábado, 19 de janeiro de 2019

No centenário da Monarquia do Norte




Passam 100 anos da Monarquia do Norte, talvez o último e derradeiro impulso de mobilizar forças sob o estandarte dos Reis de Portugal, congraçando fileiras contra a República. Para uns um movimento trágico e romântico, para outros uma determinação de força, ou ainda uma profissão de fé, que atrás de si levantou povo e soldadesca contra aquele regime poluto e amargurado nas crises internas, desfasado do "país real", inimigo de todas as tradições. Lembrando a máxima de C. Wright Mills, que "cada revolução tem a sua contra-revolução", assim decorreu com os exército de Kolchak, os "Brancos", contra os sovietes "Vermelhos", na Rússia, ou as guerras civis na Península Ibérica no século XIX, em nome da legitimidade e da tradição, ou os mártires dos campos da Vendeia e da Bretanha, contra os jacobinos de Paris, numa sinecura de tragédias que não deixaram de antever a característica insofismável da revolução, a grande "hidra", verdadeira gangrena das pátrias.

No que parecia uma vingança da própria história, ali conciliava monárquicos constitucionais e miguelistas, agora irmanados contra um mesmo inimigo. Aliás, paradoxo notado pela pena de Francisco Menezes de Villas-Boas quando descreve que "eram eles agora, as feras acossadas d’aquelas montarias sangrentas, em que haviam actuado como batedores, aquando da retirada do exército de D. Miguel". Mais do que uma "Monarquia do Norte", Couceiro apelava à "Monarquia Nova": a restauração de Portugal não se bastaria com a mera reposição da Carta ou o retorno ao velho caciquismo. Era a Monarquia na sua organicidade pura, inspirada pelos valores católicos, que conjugasse o melhor da tradição e restaurasse a Realeza nos seus princípios. Ali não era a força bélica, apenas, mas a força de uma doutrina. Comprometido, no final, pela traição e pelo abandono, permaneceu inerme mas irredutível. Amargurando pela distância física e espiritual do rei, grandemente pela ambiguidade e incerteza na atitude de D.Manuel.

Dos textos deixados por Paiva Couceiro podemos ter uma súmula do seu ideário, que vertem o argumento loquaz do homem de combate. Desde "A Democracia Nacional (1917)", à "Carta Aberta aos meus Amigos e Companheiros (1924)", procurando alertar a saciedade face à maleita republicana, não deixando de sublinhar que a "Patria, que a Monarchia fizera, ia a Republica desfaze-la". Sublimemente sintetizou a crise, porquanto alegava que a república mais não era do que a consequência (diria, lógica) da evolução do "constitucionalismo e do liberalismo revolucionário".

Saberia certamente, como militar, que não bastavam as palavras, era necessária a acção; ao mesmo tempo reconhecia, como homem de pensamento, que tão pouco a solução residiria na violência, aliás licença à anarquia e à desordem. Conciliava afinal o carácter dos príncipes e a coragem dos guerreiros.

Em toda a sua vida soube bater-se pelas verdades eternas que fizeram Portugal: Deus, Pátria e Rei.


Daniel Sousa 

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Honra a D. Manuel II - Rei Patriota


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El-Rei Dom Manuel II, o Patriota, ainda o trágico e saudoso, o último Rei de Portugal. Cumpriu até ao fim com as obrigações a que estava adstrito e conforme mandava o desígnio da Realeza. 

"Realeza" - palavra que laiva suspiros de horror nuns e nostalgia lacrimosas noutros, perdendo a sua realidade histórica e natural. Realeza no sentido profundo que vem identificar o sagrado e o profano, a natureza e o homem, porque o povo encontra o seu rei e nele identifica a explicação à sua existência colectiva. Mas como podia, no louco século XX esta elementar certeza subsistir? 

Depois das revoluções jacobinas e liberais implantarem o critério constitucional que fez do rei apenas um funcionário vitalício, ou anteriormente o despotismo iluminado, já anunciado por Pombal, interpretando a Realeza enquanto "um absoluto falsamente divino" (Barrilaro Ruas), depois hipertrofiado no sentido oposto, no "cidadão" detentor de todo o poder (estamos entre Hobbes e Rousseau os dois teóricos que abriram a suma ideológica que encantou a modernidade estupidificada), que sentido restava à Realeza? 

Um Rei que não estava destinado a sê-lo, um rei inesperado. Ainda no luto da morte do pai e do irmão aceitou o pesado cargo que desde Afonso Henriques assegurava a independência e a liberdade da pátria. Não tinha como recuar, os desígnios dos povos são sempre misteriosos e a história que encarna vem devolver as esperanças às pátrias sem rumo. 

Esperançou uma «Monarquia Nova», marcada pelo avanço do Partido Republicano, pelas conturbações e ataques que não auspiciavam o melhor. Estava destinado à tragédia. João Chagas escrevia "Vossa majestade chega demasiado novo a um mundo demasiado velho", como articulando todas as desvantagens que sobre o rei caiam. 

Procurou a reconciliação, mas o ódio crescia; procurou recuperar a confiança na coroa, mas o reinado de D. Carlos acumulara inimizades, mesmo no interior da monarquia. 

Se D. Carlos fora o rei interventivo e energético e a sua ousadia levara-o à morte, D. Manuel procurou o rumo contrário, não intervindo, reinando, mas não governando, ainda que sempre com grande interesse pelos assuntos do Estado, estudando-os a fundo, discutindo-os com os ministros. 

O exílio ajudou-o a descobrir um estudo mais profundo, aliás, a alcançar o estatuto de um erudito bibliófilo. Assim, legou-nos a segunda maior colecção de tipografia portuguesa do século XV e XVI - trabalho de uma vida curta mas pródiga. Um verdadeiro príncipe renascentista na formação intelectual e no carácter nobre.

Na Primeira Guerra Mundial prestou auxílios a Portugal, e pediu aos monárquicos que não continuassem com acções revolucionárias contra o Governo. Pedido contraditório mas que revelavam a prudência de um homem que desejava poupar o seu povo ao martírio da guerra civil. 

Estávamos na época da Monarquia do Norte, das incursões de Paiva Couceiro, quando no poder ocupava o cargo de presidente o almirante monárquico Canto e Castro, um jornalista da época descobria a ironia latente e não deixava de observar que "Portugal é um país de paradoxos: tem um rei republicano no exílio e um presidente monárquico no poder". 

D. Manuel morreu a 2 de Julho de 1932. O corpo voltou à terra que tanto amara - mas creio que a alma nunca de cá saiu. O mar e a terra portuguesa nunca o abandonaram e foi, até à morte (mesmo quando ilegitimamente deposto) rei de Portugal e como rei legítimo veio a enterrar na "Lusitânia antiga liberdade".

O que perdemos na tentação das ideias infrutíferas e na ambição desmedida fica sepultado na incerteza da história, mas com a inteira satisfação de conhecer um legado que um rei injustiçado deixou ao seu país, à pátria da qual nunca se separou.




sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Para uma ordem social cristã: contributo de La Tour du Pin para o entendimento do corporativismo:



François René de La Tour du Pin, marquês de La Charce, reunia as qualidade dessa antiga "noblesse dauphinoise", cujo valor encontra reportório nas origens do reino francês. Fortemente inspirado pelas concepções católicas e monárquicas, La Tour du Pin entende o sentido de responsabilidade que, como aristocrata, lhe é imputado (1). Nasce no ano de 1834, em plena monarquia de Orleães e, entre nós, marcado pela usurpação de Évora-Monte. Tem catorze anos quando novamente rebenta a Revolução na agitação que varreu a Europa e, em França, derruba Louis-Philippe I, o período que converte o liberal Donoso Cortés ao catolicismo tradicionalista - desencantado com a evolução dos sistemas liberais. O horror à revolução perpassa a escala geracional, o velho Metternich que confronta as tentativas revolucionárias deixa profeticamente explícito que a próxima revolução em França não será burguesa mas proletária (2). Aos dezoito anos entra na academia militar, continuando assim a tradição familiar e dentro do exército irá progredir numa carreira longa e meritória.


1. Pensamento político:

O pensamento político cresce no efervescer dos acontecimentos, mormente a derrota francesa na guerra Franco-prussiana e a Comuna de Paris. Na conturbação social que angustia os espíritos desanimados e em que as réstias da velha ordem parecem soçobrar, La Tour du Pin lança-se na acção política. 

Em 1871 funda a "Œuvre des cercles catholiques d'ouvrierso", destinada a promover o pensamento social cristão e a reconversão da sociedade ao cristianismo. Começa a cristalizar as ideias do corporativismo católico, que providenciará um exemplo orgânico e corporativo aplicado às exigências do tempo. Junta-se à "Union de Fribourg", que reúne os mesmo católico tradicionalistas. Os membros criticam a sociedade moderna focando a atenção para a reconversão a uma sociedade cristã, entendendo o corporativismo como uma forma de entendimento entre patrões e operários na procura do bem comum, da sociedade vertical, ordeira, harmoniosa. Estes elementos teóricos irão pontificar na mais alta doutrina contra-revolucionária nas décadas que se seguirão. La Tour du Pin vem sobretudo acrescer na necessidade de elites naturais, a hereditariedade da terra é o verdadeiro fruto de distinção e autoridade. E, dentro de um sistema representativo, é a família a unidade primordial. Não podemos ignorar que daqui também se interpreta uma dedução pela monarquia num pensador emérito da tradição hostil ao espírito de 1789. Quanto à Igreja rejeita ideia liberal de uma "Igreja livre num Estado livre", a religião não é meramente assunto privado, tão-pouco deve ser sujeitada ao controlo do Estado. "O homem" (defende) "é um ser religioso" e "a ordem social corresponde sempre, de forma mais ou menos próxima, a uma ideia religiosa". (3)


2. O corporativismo:

As três escolas de economia, para La Tour du Pin, inscrevem-se num corolário simples, que interpreta o liberalismo, como o sistema que "considera o homem como uma coisa", o socialismo, que "considera o homem como uma besta", e o corporativismo que "considera cada homem como um irmão" (4). 

Vê no corporativismo como o único sistema capaz de vencer a decadência económica e moral, portanto, único sistema capaz de combater a decadência política. Foi o erro do liberalismo, de acordo com La Tour du Pin, ao querer suprimir as organizações sociais onde cada um tinha o seu direito próprio. 

Para La Tour du Pin o corporativismo deve fornecer a cada trabalhador um património próprio e, ao mesmo tempo, providenciar um meio de representação no governo da corporação. Nesta esteira, as classes trabalhadoras precisariam de ter acesso indivisível e inalienável à propriedade colectiva "que participaria assim na prosperidade da indústria" (5). Este património corporativo seria usado pelos trabalhadores em caso de velhice, de invalidez, de desemprego - um estado social descentralizado e orgânico adequado ao pensamento tradicionalista. Tanto trabalhadores como empregadores fariam um investimento para este fundo, entendendo que o fundo também participaria na prosperidade da indústria. Advogava que estas corporações deviam ter um governo próprio, no quadro duma representação real, para garantir que as boas práticas do comércio são seguidas pelos seus membros. Esta problemática tem mesmo eco junto ao Papa Leão XIII, pelo qual La Tour du Pin é recebido em Roma, em 1889, dois anos depois o Papa escreve a encíclica "Rerum Novarum", exactamente sobre a questão dos operários. Grande medievalista e crítico da sociedade moderna, Leão XIII também advoga o modelo corporativo enquanto associação entre empregadores e patrões para alcançar o bem comum.


3. Contributo para uma ordem tradicional:

Mas será o pensamento de La Tour du Pin passadista, condenado por uma sociedade que subscreve a revolução e os dogmas do demo-liberalismo? Teremos de admitir que assim não é. Tal como os Papas sociais, os doutrinadores do movimento católico social cujo eco reivindicativo teceu admiradores entre as fileiras da Action Française, do Carlismo espanhol, do Integralismo Lusitano, as aspirações não cessaram de alcançar a sua credibilidade. O grande contributo foi sem dúvida tirar estas velhas instituições do passado, assim reavivá-las e aplicá-las ás exigências do mundo moderno, enquanto alternativa ao individualismo e ao estatismo dominantes, em nome das ideias de corporação, descentralização e representação por função social.



Daniel Sousa 



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(1)Charles A. Coulombe, QUEST FOR THE CATHOLIC STATE: Part I

(2)Peter Viereck, Conservative Thinkers: From John Adams to Winston Churchill, Transaction Publishers, 1978.

(3)Charles A. Coulombe, QUEST FOR THE CATHOLIC STATE: Part I

(4) Marqués de la Tour du Pin, "Hacia un orden social cristiano"

(5) Joseph F. X. Sladky, René de La Tour du Pin & the Renewal of the Social Order