sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Para uma ordem social cristã: contributo de La Tour du Pin para o entendimento do corporativismo:

Foto de Causa Tradicionalista.

François René de La Tour du Pin, marquês de La Charce, reunia as qualidade dessa antiga "noblesse dauphinoise", cujo valor encontra reportório nas origens do reino francês. Fortemente inspirado pelas concepções católicas e monárquicas, La Tour du Pin entende o sentido de responsabilidade que, como aristocrata, lhe é imputado (1). Nasce no ano de 1834, em plena monarquia de Orleães e, entre nós, marcado pela usurpação de Évora-Monte. Tem catorze anos quando novamente rebenta a Revolução na agitação que varreu a Europa e, em França, derruba Louis-Philippe I, o período que converte o liberal Donoso Cortés ao catolicismo tradicionalista - desencantado com a evolução dos sistemas liberais. O horror à revolução perpassa a escala geracional, o velho Metternich que confronta as tentativas revolucionárias deixa profeticamente explícito que a próxima revolução em França não será burguesa mas proletária (2). Aos dezoito anos entra na academia militar, continuando assim a tradição familiar e dentro do exército irá progredir numa carreira longa e meritória.


1. Pensamento político:

O pensamento político cresce no efervescer dos acontecimentos, mormente a derrota francesa na guerra Franco-prussiana e a Comuna de Paris. Na conturbação social que angustia os espíritos desanimados e em que as réstias da velha ordem parecem soçobrar, La Tour du Pin lança-se na acção política. 

Em 1871 funda a "Œuvre des cercles catholiques d'ouvrierso", destinada a promover o pensamento social cristão e a reconversão da sociedade ao cristianismo. Começa a cristalizar as ideias do corporativismo católico, que providenciará um exemplo orgânico e corporativo aplicado às exigências do tempo. Junta-se à "Union de Fribourg", que reúne os mesmo católico tradicionalistas. Os membros criticam a sociedade moderna focando a atenção para a reconversão a uma sociedade cristã, entendendo o corporativismo como uma forma de entendimento entre patrões e operários na procura do bem comum, da sociedade vertical, ordeira, harmoniosa. Estes elementos teóricos irão pontificar na mais alta doutrina contra-revolucionária nas décadas que se seguirão. La Tour du Pin vem sobretudo acrescer na necessidade de elites naturais, a hereditariedade da terra é o verdadeiro fruto de distinção e autoridade. E, dentro de um sistema representativo, é a família a unidade primordial. Não podemos ignorar que daqui também se interpreta uma dedução pela monarquia num pensador emérito da tradição hostil ao espírito de 1789. Quanto à Igreja rejeita ideia liberal de uma "Igreja livre num Estado livre", a religião não é meramente assunto privado, tão-pouco deve ser sujeitada ao controlo do Estado. "O homem" (defende) "é um ser religioso" e "a ordem social corresponde sempre, de forma mais ou menos próxima, a uma ideia religiosa". (3)


2. O corporativismo:

As três escolas de economia, para La Tour du Pin, inscrevem-se num corolário simples, que interpreta o liberalismo, como o sistema que "considera o homem como uma coisa", o socialismo, que "considera o homem como uma besta", e o corporativismo que "considera cada homem como um irmão" (4). 

Vê no corporativismo como o único sistema capaz de vencer a decadência económica e moral, portanto, único sistema capaz de combater a decadência política. Foi o erro do liberalismo, de acordo com La Tour du Pin, ao querer suprimir as organizações sociais onde cada um tinha o seu direito próprio. 

Para La Tour du Pin o corporativismo deve fornecer a cada trabalhador um património próprio e, ao mesmo tempo, providenciar um meio de representação no governo da corporação. Nesta esteira, as classes trabalhadoras precisariam de ter acesso indivisível e inalienável à propriedade colectiva "que participaria assim na prosperidade da indústria" (5). Este património corporativo seria usado pelos trabalhadores em caso de velhice, de invalidez, de desemprego - um estado social descentralizado e orgânico adequado ao pensamento tradicionalista. Tanto trabalhadores como empregadores fariam um investimento para este fundo, entendendo que o fundo também participaria na prosperidade da indústria. Advogava que estas corporações deviam ter um governo próprio, no quadro duma representação real, para garantir que as boas práticas do comércio são seguidas pelos seus membros. Esta problemática tem mesmo eco junto ao Papa Leão XIII, pelo qual La Tour du Pin é recebido em Roma, em 1889, dois anos depois o Papa escreve a encíclica "Rerum Novarum", exactamente sobre a questão dos operários. Grande medievalista e crítico da sociedade moderna, Leão XIII também advoga o modelo corporativo enquanto associação entre empregadores e patrões para alcançar o bem comum.


3. Contributo para uma ordem tradicional:

Mas será o pensamento de La Tour du Pin passadista, condenado por uma sociedade que subscreve a revolução e os dogmas do demo-liberalismo? Teremos de admitir que assim não é. Tal como os Papas sociais, os doutrinadores do movimento católico social cujo eco reivindicativo teceu admiradores entre as fileiras da Action Française, do Carlismo espanhol, do Integralismo Lusitano, as aspirações não cessaram de alcançar a sua credibilidade. O grande contributo foi sem dúvida tirar estas velhas instituições do passado, assim reavivá-las e aplicá-las ás exigências do mundo moderno, enquanto alternativa ao individualismo e ao estatismo dominantes, em nome das ideias de corporação, descentralização e representação por função social.



Daniel Sousa 



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(1)Charles A. Coulombe, QUEST FOR THE CATHOLIC STATE: Part I

(2)Peter Viereck, Conservative Thinkers: From John Adams to Winston Churchill, Transaction Publishers, 1978.

(3)Charles A. Coulombe, QUEST FOR THE CATHOLIC STATE: Part I

(4) Marqués de la Tour du Pin, "Hacia un orden social cristiano"

(5) Joseph F. X. Sladky, René de La Tour du Pin & the Renewal of the Social Order

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Museu dos Descobrimentos (Luís Filipe Thomaz)


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Deixo aqui um excerto do texto do Professor Luís Filipe Thomaz, no jornal Observador, o qual recomendo leitura atenta. Porque faz sentido um Museu dos Descobrimentos.    

"O abaixo-assinado contra o projecto do museu que por aí circula enferma de muita ignorância. Em primeiro lugar, da nossa própria língua, em que achamento, descoberta, descobrimento e invenção têm sentidos vizinhos mas não coincidentes. O que o autarca lisbonense quereria dizer era certamente “Museu dos Descobrimentos”, termo consagrado por largo uso, que é datável de c. 1470, para significar o que até aí era designado por enquerer, saber parte, colher certa enformação, haver manifesta certidão, etc. São tudo expressões que denotam um processo minucioso de colheita de informações, activo e interactivo, que ultrapassa em muito a ideia de achar, encontrar, topar com, que só se aplicaria com inteira justeza a terras desconhecidas e despovoadas.
Argumentam-me que as Américas haviam sido, muitos séculos antes de Colombo, descobertas pelos chamados “índios” que as habitavam. É verdade. Tão verdade que me recorda a elegia que os soldados de Jacques de Chabannes, senhor de La Palisse, morto em combate a 25 de Fevereiro de 1525 na batalha de Pavia, compuseram em sua honra: un quart d’heure avant sa mort, il était encore en vie…
Descobrir é um verbo pessoal, que conota um sujeito pensante, cujo ponto de vista, necessariamente subjectivo, assume. Michel Chandeigne publicou há anos em Paris um livro intitulado L’expédition de Gonneville et la découverte de la Normandie par les Indiens du Brésil: de facto, em 1505, Binot Paulmier, senhor de Gonneville, ao regressar do Brasil onde aterrara por acaso numa viagem cujo destino era a Índia, trouxe para Honfleur o filho de um morubixaba (chefe tribal) chamado Essoméricq, que acabou por adoptar e casar com uma sobrinha sua. Foi assim que ele descobriu a Normandia — que, bem entendido, existia muito antes de ele dela ter tomado conhecimento. É, porém, evidente que não foi Essoméricq, nem nenhum dos índios do Brasil, quem descobriu o caminho marítimo para a Europa, onde chegou graças aos conhecimentos náuticos dos normandos, arrimados por seu turno aos dos pilotos portugueses que haviam contratado a peso de ouro."

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pena de Morte e doutrina católica


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Raphael, Allegory of Justice, from the Room of Constantine, Vatican Palace, Photo: Wikimedia Commons





«É lícito em juízo condenar à morte os homens e tirar-lhes a vida – A segunda classe de morte permitida é a que pertence aos juízes, a quem se deu o poder de impor a pena de morte, em virtude da qual castigam os homens criminosos e defendem os inocentes de acordo com as leis e o que resulta do juízo. Cumprindo realmente com esse dever, não só não são culpados de homicídio, como se ajustam perfeitamente à lei divina, que proíbe o homicídio. Porque, tendo esse mandamento por fim olhar pela vida e a conservação dos homens, cuidam igualmente disso as penas impostas pelos juízes, que são os vingadores legítimos dos crimes, para que, reprimindo com castigos a audácia e a maldade, esteja segura a vida humana. E assim disse David: ‘Pela manhã exterminava a todos os criminosos do país, para extirpar da cidade do Senhor a todos os que obravam mal”.» (São Pio V, Catecismo Romano, 3ª Parte, Capítulo VI, no. 4)








sexta-feira, 27 de julho de 2018

Salazar, o abandono (por Gonçalo Sampaio e Mello)











«Hão-de dizer muito mal de mim. É por isso que eu dou importância à publicação dos livros brancos: explicarão como se defenderam os direitos portugueses, e o cuidado e o pormenor com que isso se fez.»

Por entre o rol dos discursos de Salazar, existe uma página particularmente significativa no que se refere à sua capacidade de prever o futuro. Foi escrita em 1958, quando já trinta anos tinham corrido sobre o momento em que tomara conta da pasta das Finanças para não mais deixar o governo do País. Mas poderia tê-lo sido hoje, tão actual e lúcida se revela no julgamento dos homens e no abandono a que a história o havia de condenar post mortem.

Refiro-me ao seu discurso de 1 de Julho de 1958.

Como é sabido, Salazar nunca improvisou o pensamento ou a palavra.

Meditava, concebia, compunha em silêncio, e lia depois em público o que havia elaborado na intimidade do seu gabinete. De onde o rigor terminológico e doutrinário das suas intervenções, e também da peça que nos importa reter aqui.

Naquele texto, após aludir ao problema da longevidade dos governantes e considerar que a questão se colocava em Portugal relativamente a si próprio, o então Chefe do Govemo rematava com duas importantes passagens do Novo Testamento, ambas extraídas da paixão de Cristo: o abandono do Mestre e a traição de S. Pedro. “Muito desejara eu que todos os que são guindados às culminâncias das honrarias e do poder e o julgam sua pertença e direito, ou alguma vez gozaram dos favores da multidão, meditassem um pouco a paixão de Cristo como é descrita em qualquer dos Evangelhos. Há sobretudo dois pontos dignos de reparo.” O primeiro – escreve – é o que se refere à apoteose, ao verdadeiro triunfo popular de Cristo aquando da sua entrada em Jerusalém, no domingo de Ramos, e à sua desgraça escassos dias depois, entregue que foi a uma morte desonrosa na cruz. “Em quatro dias – anota Salazar -, que tantos são os que vão de domingo a quinta-feira, secaram as flores, murcharam as palmas e os louros, calaram-se os hossanas e os vivas e até as gentes miraculadas não consta que tornassem a aparecer.”

O segundo passo digno de registo diz respeito a S. Pedro, caput dos Apóstolos, clara “emanação da natureza”, homem “aberto, simples, leal, firme na amizade como uma rocha”, sobre quem o Mestre quis edificar a sua igreja. Suspeito na noite mesma da detenção do Senhor de fazer parte da sua gente, havia de negar três vezes que o conhecia, num gesto que ficou para sempre como “o protótipo da traição, a traição pura”.

E Salazar prossegue: “Ainda se pode admitir que a amizade houvesse diminuído, que a fé se entibiasse, que o futuro se deparasse incerto quanto à aceitação da nova doutrina. Mas o conhecimento pessoal do Mestre, esse era um facto incontroverso.” E por isso Cristo há-de ter sentido uma “tristeza infinita”, a tristeza que inunda “uma alma acusada sem provas e condenada inocente.”

Temos aqui, por conseguinte, num único fragmento de texto, duas faces da mesma moeda: o abandono e a traição.

Duas fortes, irredutíveis realidades. Qual o significado delas? Qual a oportunidade do seu emprego naquela conjuntura?

Pode afirmar-se, sem margem para erro, que o tema da deslealdade humana vinha ocupando o espírito de Salazar desde há muito. Revela-o, quanto à inconstância das multidões, uma entrevista concedida a António Ferro em plena época carismática, na qual, respondendo a uma pergunta do jornalista sobre porque é que não era mais acessível à multidões que o vitoriavam, Salazar afirmava não poder adular o povo sem ir contra a sua consciência e que o Estado Novo, sendo embora um regime popular, não era todavia um governo de massas.

Revela-o de igual modo uma frase dita a Christine Garnier acerca da volubilidade da opinião pública: “Os que desejam aplaudir-me hoje hesitariam em desviar-se de mim se outra paixão se apoderasse deles?”

Político hábil, bom conhecedor da natureza humana, educado à sombra dos moralistas de outrora – um António Vieira, um Heitor Pinto, um Manuel Bernardes –, Salazar sabia que, valendo as coisas na proporção do que custam e exigindo os grandes ideais grandes renúncias, a lealdade era na vida planta frágil. Lealdade a tudo quanto fosse relevante: um princípio, uma crença, uma instituição, uma pessoa. Lealdade, em última análise, à própria consciência subjectiva, que consiste em descer o indivíduo ao fundo de si mesmo para ouvir a sua voz interior e ordenar-se por ela. 

Sabia, por isso, que são muito mais abundantes no mundo os homens de meios que os homens de princípios, os homens de interesses que os homens de ideais, os homens de ocasiões que os homens de convicções.

A grande maioria dos cidadãos serve, com efeito, o poder onde quer que ele esteja, e os poderosos onde quer que os encontre.

Até o próprio S. Pedro.

A atitude de Pedro ilustra uma constante da conduta humana, que é a fuga nos momentos de risco. Se o apóstolo veio a arrepender-se depois e a arrostar pela vida fora com as maiores provações, aquilo que o distingue do ser mediano não é a queda in se, a traição, a infidelidade, mas justamente o contrário – o arrependimento, a contrição.

Ora, a exemplo de todos os bons governantes, Salazar não ignorava esta lei da vida. Sendo os homens como são, sabia que tão logo abandonasse o governo, mediante renúncia, incapacidade ou morte política, alguns dos amigos da véspera, dos colaboradores, dos seguidores, dos aduladores, agindo com reserva mental, ficariam dispostos a colaborar com o novo Príncipe.

Simplesmente, observa-se aqui um fenómeno curioso: à medida que ele próprio se ia pombalizando (no dito de espírito de Afonso Lopes Vieira), à medida que o poder, pela passagem do tempo, se lhe ia convertendo numa segunda natureza, mais a questão da deslealdade humana parecia cativá-lo. É o que induzem os factos, independentemente do juízo que deles se faça.

Senão vejamos.

Em 1958 aborda e espiritualiza o tema no citado discurso de 1 de Julho.

Na década de 60 várias vezes o retoma. Assim, a Pedro Theotonio Pereira afirma que não vai deixar memórias mas que as escrevesse ele e contasse a verdade, relatando o que tinha visto e ouvido.

A Franco Nogueira comenta, num prognóstico claro: “Cheguei ao fim. Os que vierem depois, vão fazer diferente ou vão fazer o contrário e contra mim.”

Significativo é também o episódio da inauguração da ponte sobre o Tejo, ocorrido em 1966. Salazar efectua uma visita prévia à ponte com Arantes e Oliveira e vê o seu nome implantado em letras de bronze nos respectivos padrões. Pergunta ao ministro: “As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas?”. Porquê? “É que se estão fundidas no bloco de bronze vão dar muito mais trabalho a arrancar.” E, na sequência, explica aos presentes: a ponte ficou com o nome Salazar por insistência do Presidente da República mas isso “é um erro”: “os nomes de políticos só devem ser dados a monumentos e obras públicas cem ou duzentos anos depois da sua morte. Salvo os casos de Chefes do Estado, sobretudo se estes forem reis, porque então se está a consagrar um símbolo da Nação.” Após o que vaticina, apontando com o indicador: “O meu nome ainda há-de ser retirado da ponte. Por causa do que agora se fez, os senhores vão ter problemas.”


http://osveencidosdavida.blogspot.com


Gonçalo Sampaio e Mello

Jurista

Excerto do Texto Públicado na Revista Magazine Grande Informação

blog Vencidos da Vida

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O último dos Czares

Foto de Daniel Sousa.


Nicolau II permanece um enigma, dele recebemos a imagem benevolente e santificada que muitos contemporâneos certamente não entenderiam e, provavelmente, olhariam com sarcasmo. Homem de família e homem de fé, destinado a assumir as rédias de um império imenso, nas suas mãos repousava um esforço colossal digno de Ivan IV ou de Pedro o Grande, infelizmente não esteve à altura do desafio homérico, quase sobre-humano, de levantar uma terra esgotada material e espiritualmente. Foi talvez o homem errado no tempo errado, incapaz de interpretar as necessidades reformistas e firme na manutenção da autocracia.

Quase sempre vem acrescido de boa moral aquele simples desabafo que sói acrescentar que, caso nascesse na Inglaterra, Nicolau II teria dado um bom rei constitucional... não parece plausível! Fosse educado como os primos ingleses, hipoteticamente, talvez o pudéssemos admitir. Conquanto, referimos um homem que, apesar do deficiente manejo do poder, compreendia o desígnio da autocracia e jamais admitiria partilhar o poder ou cedê-lo, não cabia na sua interpretação que o rei reinasse e não governasse. A opinião em relação aos políticos liberais tão pouco conhecia comoções maiores, a desconfiança que lhes movia era proporcional ao ódio às revoluções. Certamente não seria um bom rei à inglesa mais do que um bom autocrata à moscovita. Nascesse noutro tempo, onde conhecesse circunstâncias mais benignas, talvez sobrevivesse ainda que ameaçado no meio da contestação. Foi o destino quem o empurrou para a encruzilhada do Apocalipse.

Reinou sobre o caos e foi devorado pelo caos. No intrincado mundo da burocracia administrativa o Czar movia-se sobre um poder labiríntico. De carácter indeciso e dolente o poder autocrático do Czar parecia mais uma fragilidade do que um benefício. Depois das reformas de Alexandre II e do governo de força de Alexandre III, o reinado de Nicolau II converge em tensão, a ansiedade cresce nos espíritos jovens, os assassinatos políticos estão na ordem do dia, impelindo à memória a máxima de que "a Rússia é uma autocracia temperada pelo assassinato". O sentimento não era novo, desde os Dezembristas, ainda no alvorar do século, aos primeiros niilistas, florescidos no amadurecer do século XIX, aliás bem retratados no romance de Ivan Turgueniev, "Pais e Filhos", a corrente de opinião avançava em desafio às tradições, à religião e à monarquia. O espírito de ansiedade é bem capturado por Dostoievski em romances memoráveis, como "Crime e Castigo", "O Irmãos Karamazov" e "Demónios", este último certamente uma incisiva advertência ao espírito virulento da revolução. Pesaroso e místico Soloviev transporta o seu anticristo à visão apocalíptica que parece predizer o futuro da Rússia. 

Neste clima é coroado o jovem Nicolau. Incapaz de reformar o sistema permaneceu um prisioneiro na redoma da autocracia. A mística também se apoderou dos factos, a presença de Rasputine terá sido demasiadamente demonizada e mistificada, o mujique inteligente cativou certamente a família imperial com o seu poder de persuasão e carisma quase hipnótico.  A hemofilia do jovem herdeiro pesava como uma sina fatal que Rasputine amenizava. Atribuindo ao monge poderes curativos os Romanov acolheram-no como a um sinal divino, mas tal proximidade apenas deixou um lastro de desconfiança entre cortesãos. A nobreza não perdoou o gesto de confiança a um camponês siberiano. Sem que possamos realmente classificar a influência que exercia sobre o Czar, a verdade é que a fama do curandeiro criou uma mítica quase tão grande quanto o ódio que lhe moviam. O seu assassinato foi mais um fenómeno pitoresco, digno de uma tragédia clássica, que contribuiu para o descrédito de uma família deteriorada face à nova opinião pública burguesa e esclarecida. 

Num império de nacionalidades cresciam os nacionalismos, e num clima de profundas cisões sociais crescia a revolta. A violência social não era nova e remonta aos tempos de Stenlna Razin no século XVII, o temeroso cossaco que dirigiu a revolta dos servos contra o poder do Czar, encarnando um folclore rico que encheu canções e lendas populares. Ou a revolta de servos liderada por Pugachev contra Catarina II (a Grande), abalando em força o Império, também popularizaram o espírito de rebelião contra o poder centralizado. As revoltas de camponeses e servos na Rússia quase sempre lançavam o estribilho da guerra civil. No descontentamento contra a autoridade e contra a administração era inevitável. Mas a nova rebelião avançava de forma mais perversa, não se tratava da mera reivindicação, mas de um propósito ideológico mais sinistro. A inteligentsia designava então uma camada social própria, referindo-se ao grupo de intelectuais grandemente saídos da nobreza, que se reuniam para conspirar contra o sistema, isto é, contra a ortodoxia e contra o Czar. Demarcavam-se pelos seus hábitos, pelos seus costumes, pelas suas ideias, constituindo verdadeiramente uma nova subcultura no seio da elite russa, mas que dela se repugnava primando por um retorno às origens, uma vida em comunhão com a classe do campesinato e uma vida em harmonia numa nova sociedade de igualdade. Para alcançar os seus objectivos usam da violência, estão dispostos a matar e a morrer pela sua causa. 

Entre a Rússia do campesinato e da mundanidade viva uma outra Rússia, cosmopolita e moderna, que enchia os salões de São Petersburgo, uma Rússia que deu os maiores nomes da literatura, a chamada "Era de Prata", que conciliou o melhor e mais inovador que no ocidente havia. Uma elite de artistas que revolucionou as artes e deu nomes que foram do realismo e naturalismo ao inovador impressionismo e, ainda uma década antes da revolução social, introduziu a revolução nas artes através do expressionismo. 

O período de maior crise acompanha o desastre da derrota frente ao Japão. O momento aprofunda as diatribes e desvelam a terrível verdade, a capacidade militar da Rússia é fraca, aliás, suficientemente disciplinada para manter a ordem interna mas face a um conflito externo revelar-se-ia um desastre. O Império na sua dimensão consegue mobilizar milhares para a guerra e pela dimensão da sua geografia consegue assegurar a impenetrabilidade da Santa Rússia, mas é em tudo um paradoxo, este gigante caminha com pés de barro, e o rastilho de pólvora que o devorará partirá do próprio interior, mais do que da ameaça exterior.

Das políticas reformistas e modernas, de Witt a Piotr Stolypin, a nova vaga de reformistas promovem o rápido desenvolvimento social e económico. Mas todo o progresso transporta no seu seio as consequências inevitáveis da própria destruição, quando não conduzido no zelo da disciplina e na prudência dos estadistas. A tensão social crescia, as políticas económicas impopulares de Witt acompanhavam o recrudescer dos zemstvo e corpos cívicos cada vez mais reivindicativos. Nicolau II não interpreta as contestações e promove a linha dura da autocracia. Há cada vez mais uma ruptura entre o Estado e a Sociedade que dramaticamente agrava a incapacidade e diálogo com as novas reivindicações sociais. Mas foi exactamente a politica de Witt quem faz o Império avançar economicamente, um crescimento que não se repetirá até ás políticas de Estaline em 1930. A produção industrial conhece um crescimento de 8% por ano, muito superior ao dos EUA. Outro paradoxo que converge na ineliminável tensão: o progresso aumentava os conflitos sociais, o Domingo Sangrento de 1905 seria já um pronúncio. Acompanhando o desenvolvimento industrial e a difusão do proletariado uma nova força política avançava. O marxismo começava a ganhar fileiras entre a inteligentsia e seduzia grupos junto ao proletariado urbano. O Partido Social Democrata dos Trabalhadores Russos foi oficialmente fundado em 1898, mas os círculos marxistas existiam já na capital do Império e difundiam-se entre as camadas letradas. O capitalismo aparecia como um mal, mas um mal necessário que aceleraria a revolução comunista. 

No manifesto de Outubro o Czar promete reformas políticas. Nas quais não acreditava inteiramente. Em 1906 aceita constituir a Duma e uma Constituição. Se a Rússia entrou na era do constitucionalismo liberal permitindo a evolução pacífica, pelo menos até 1914, é discutível. As reformas não pacificaram a sociedade nem os radicais, criando aliás um clima de tensão crescente.  O Duelo entre a Duma e o Czar criava fricções e a breve promessa liberalizante parecia um devaneio. Foi Stolypin quem deu novo alento ao regime, face à derrota militar urgia lançar novas políticas e sobretudo promover políticas que amenizassem as tensões sociais. As reformas de Stolypin permitiram desenvolver um sistema de agricultura capitalista, mas foram mais recebidas com revolta por parte do campesinato russo do que com comoção. 1908 terá sido um ano relativamente calmo, com 1800 funcionários mortos e 2083 terem sido feridos depois de um ataque motivado por razões políticas.É verdade que os partidos políticos tinham sido legalizados, assim como os sindicatos, mas os sindicatos de ofícios eram geralmente encerrados pela polícia e os membros do partido socialista revolucionário corriam o mesmo risco de serem presos. O próprio Stolupin acabaria também assassinado, o século XX acelerava então o seu curso nas terras eslavas e fazia antever o pior.

A entrada da Rússia na guerra de 1914 mobilizou a generalidade da sociedade num sentido patriótico. Lenine, no exílio, constatou como a guerra mais não era do que um conflito imperialista, pelo que aguardava a derrota da Rússia e assim precipitar a guerra civil e a revolução. A onda de patriotismo não deixa de ser um sintoma primancial da mobilização das massas, os discursos, os hinos, a aparição do Czar na varanda do Palácio de Inverno ao som do "Deus salve o Czar" transmitia uma sensação de optimismo e de confiança que não mais se repetiria. Entre a elite e a opinião pública mais esclarecia a participação na guerra não foi pacífica, o sentimento razoável e pragmático demovia tal aventura, mas depois da derrota contra o Japão e ciente da missão quase sagrada em defender a Sérvia, aliás devaneio caro ao pan-eslavismo e ao nacionalismo de finais de oitocentos, acalentava expectativas maiores. Na perspectiva do poder a entrada na guerra faria esquecer a velha derrota e acalentaria uma nova unidade nacional, estavam quase certos, o que não calcularam foi o tempo, a dimensão e o esforço necessário para manter o povo na dianteira desta empresa. Com o passar do tempo, a guerra revelaria a vulnerabilidade do regime e a sua legitimidade tornava-se periclitante. A opinião pública aplaudia as vitórias militares mas não tolerava derrotas, aos poucos, na constatação de que o regime perdia o controlo das circunstâncias, começaram a retirar os apoios à autocracia.

 Também as reformas foram postas de lado, em tempo de guerra não se pensa em liberdade. Mas essa mesma teimosia revelar-se-ia a sua fraqueza, blindar a autocracia tornou-se mais um exercício de força e de incoerência. Quanto mais procurava exercer a força contra a revolução  mais as forças da desordem usavam da violência. Em conflito com as reivindicações o Czar suspende a Duma, em 1915, e assume o  comando do Exército. Desloca-se à frente de batalha e deixa o governo na mão de alguns escolhidos e da mulher. Deixar o poder nas mãos de uma princesa alemã quando a Rússia combatia a Alemanha revela uma ingénua simpatia e falta de senso político. Tão pouco o próprio Czar tinha sangue russo, também ele mais alemão do que russo, particularidade irrelevante ao espírito de confiança do povo que, desde sempre, chamava ao Czar de "paizinho". Contrariamente a opinião pública exerceu uma feroz crítica contra a Czarina e o seu conselheiro Rasputine. As exigências da guerra e a intransigência da autocracia arrastariam a Rússia para o abismo. O Estado perdia o contorlo na requisição de comida e as conturbações sociais de 1905-6, amenizadas mas não eliminadas, agora ressurgiam em dimensão  superior.

Poucos contemporâneos imaginariam que uma dinastia de trezentos anos pudesse acabar em poucos dias. Mas a insustentabilidade da autocracia revelava-se um fardo demasiadamente pesaroso. Cercado, abandonado e traído, o Czar aceitou abdicar. Ironicamente a sua abdicação foi ilegal, pois violava a Lei da Sucessão de 1797. O último fôlego da autocracia antes de desmoronar, a partir desse momento Nicolau passou a caminhar em direcção do abismo, aquele que viria a conhecer numa madrugada de 1918, em Ecaterinemburgo. 

sábado, 14 de julho de 2018

O despertar do Leviatã (Considerações sobre a Revolução)

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A história desapaixonada do violento surto jacobino não deixa margem para dúvidas, a Revolução Francesa matou mais num ano do que a Inquisição Espanhola e Romana em três séculos (1) e foi mais sanguinária do que as guerras religiosas. E quem julga (ingenuamente) que consubstanciou alguma "justiça social" em nome da liberdade e da igualdade desengane-se, dos mortos (assassinados) na guilhotina, apenas 8% eram aristocratas, enquanto que mais de 30% provinham de classes populares, e mais de 297.000 assassinados em nome da revolução provinham de classe-média ou classe-média baixa (2).

Em 1793 (como o imortal romance de Victor Hugo também recordou) mais de 10.000 vendeanos foram massacrados numa guerra contra as injustiças perpetradas pelo governo da revolução (o mundo de justiça prometido jamais vingaria) e, nos dias seguintes à guerra, o massacre continuou. No total, contabilizaram-se cerca de 250 a 300 mil mortos (o número não é pacífico mas não obscurece a chacina e o genocídio levados a cabo) nos campos da Vendeia, o que equivale a mais um terço dos habitantes da província.

A análise de Tocqueville (3), recuperada por Furet no século XX, é uma invocação necessária, afinal a revolução apenas acelerou e consolidou o processo que a monarquia tinha iniciado (e não foi uma ruptura, ou a construção de um mundo novo rousseauniano ao estilo do "bom selvagem", como poeticamente tentam fazer crer),a revolução recrudesce no quadro da centralização e burocratização administrativa e na destruição da sociedade de ordens (análise onde Maurras falhou). A maquinaria administrativa tinha sido inventada pela monarquia absoluta e agora, simplesmente, era controlada pelos "republicanos" revolucionários que apenas souberam ir mais longe na centralização, proclamando a "nação una e indivisível". Por exemplo, uma novidade da revolução estava na criação de um exército nacional, era o próprio estado quem mobilizava milhões para a guerra e com esse exército, primeiro os jacobinos, depois Napoleão, aterrorizariam a Europa.

Ao mesmo tempo, ali nasceu uma fórmula nova que bem ensinou a modernidade. A linguagem reinventada como propaganda, a mobilização das massas, as sementes das ideologias modernas (liberalismo, socialismo, comunismo, fascismo) teriam ali inspiração. Um poder totalitário futuro avizinhava-se apoderando-se do objecto concebido na teorização do iluminismo e na crença da supremacia da nação que substituiu o rei na hierarquia do estado. Um estado todo-poderoso emergindo como nação(4): um estado que tudo controla, tudo decide, sem corpos intermédios que lhe façam frente, sem contra-poder para impedir a sua gula insaciável, que tudo determina, tudo legisla, em torno de si tudo gira, fora de si nada vive.

Tocqueville, na sua obra magna "O Antigo Regime e a revolução", obra desapaixonada e livre de preconceitos tão profundamente incisiva no fenómeno revolucionário que abalou a Europa e cuja análise ainda hoje serve de referência, cita a observação de Mirabeau, em carta a Luís XVI. Quando confrontado com a revolução, então derrubando todas as instituições e todos os costumes que tinham mantido a hierarquia e as regras da sociedade, o aristocrata (ainda que liberal e ainda que maçon) fez observar ao seu soberano como podiam jogar com a situação em seu favor, dizendo "é evidentemente favorável ao governo monárquico" e acrescenta de forma lapidar: "A ideia de formar uma só classe de cidadãos teria agradado a Richelieu: esta superfície igual facilita o exercício do poder. Alguns reinos de um governo absoluto não teriam feito tanto em prol da autoridade real que este único ano da Revolução."

Claro que Mirabeau não previu a dimensão catastrófica e anárquica do fenómeno, mas não deixa de ser interessante como determinou a essência. Que magnífico mundo criou a revolução em nome da qual os franceses mandam foguetes e fazem tinir as esporas na Avenida dos Campos Elísios? Afinal, como analisou Tocqueville, a revolução, no efervescer da turba, limitou-se a substituir a aristocracia por um corpo de funcionários, os privilégios locais substituí-os pela uniformidade das regras, a diversidade dos poderes pela unidade de governo e, socialmente atiçou as invejas, as vendetas particulares, as ambições da burguesia e dos banqueiros que financiaram a catástrofe. Os pobres e desprotegidos, os camponeses e os trabalhadores, outrora livres nas suas corporações e nas suas ordens, com o tempo ficariam subjugados a um poder, quantas vezes mais cruel do que o antigo (veja-se o massacre de milhares camponeses na Vendeia). A revolução foi, ao mesmo tempo, o seu libertador e o seu tirano, foi a esperança e as trevas.

A revolução francesa fez poderoso e indestrutível este Leviatã que hoje nos subjuga... Mas Mirabeau tinha razão numa coisa, faria sem dúvida inveja a Richelieu...


Daniel Sousa

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(1) (os dados são de Samuel Henry Kamen do livro "The Spanish Inquisition - a Historical Revision",Yale University Press, 27/05/2014 )

(2) (os dados são oferecidos por Kuehnelt-Leddihn, Erik, "Operation Parricide: Sade, Robespierre & the French Revolution").

(3) TOCQUEVILLE, Alexis, "O Antigo Regime e a Revolução" editora UNB, tradução de Yvonne Jean.

(4) Gracchus Babeuf (1760-1797) foi um dos inspiradores do poder do Estado para refazer a sociedade, esse mesmo estado todo-poderoso deveria controlar toda a economia para superar a exploração capitalista, antecipou Karl Marx e Lenine.

terça-feira, 10 de julho de 2018

Lenda Negra




Relatos mostram, também, que caso alguém intervisse em defesa dos condenados, poderia ser também executado, uma vez que a população, munida de uma “fé ardente”, não aceitava desrespeito às suas crenças, tal como elucida J. Bernard (2008, p. 20). Estima-se, de acordo com dados contidos em “Inquisição: história, mito e verdade” (2008), de J. Bernard, que 50.000 suspeitos de bruxaria foram mortos, em grande maioria mulheres inocentes. Número esse de vítimas dos “tribunais leigos” que, para Bernard, supera absurdamente o número de condenados a morte pela mais terrível das Inquisições, a espanhola, que em três séculos de existência condenou a morte doze 
“bruxas”.